Flávio Gonçalves marcou frente ao Nacional - Foto: Miguel Nunes
Flávio Gonçalves marcou frente ao Nacional - Foto: Miguel Nunes

Flávio Gonçalves e o atleta que venceu maratona de pés descalços

De um jovem leão que é uma excelente notícia a um atleta etíope que venceu o ouro olímpico a correr descalço... Uma viagem contada por mim, Jorge Pessoa e Silva, em mais uma crónica semanal do meu Livro do Desassossego

Flávio Gonçalves tem sido a melhor notícia deste arranque de ápoca do Sporting e, para quem vê o futebol de forma apartidária, uma das boas notícias do futebol português. Aos 19 anos, é já comparado a Pedro Gonçalves, o pretexto para o primeiro conselho que lhe posso dar: ouvidos moucos às comparações, foco total no original em detrimento da cópia.

Há muitas coisas que Flávio Gonçalves vai ter de aprender depressa. Não de futebol, mas da vida. Aprender que o sucesso, por exemplo, é um lugar perigoso para quem valida o que faz mais pelo aplauso externo ou patamar atingido e menos pela consciência de se estar a cumprir enquanto pessoa. Nem sempre a consciência tranquila e um trabalho bem feito rima com sucesso. Mas deve rimar sempre com noites bem dormidas. É à noite, de cabeça na almofada, que a avaliação dos passos de cada dia tem de ser feita, não ao longo do dia na perceção das notícias ou no impacto das redes sociais.

Flávio Gonçalves precisa de ter bem assimilado que o «sempre» e o «nunca» são manifestos exageros com prazo de validade bem mais curto do que as palavras significam. Que a boa notícia num sol que nasce é o renovar de oportunidades para se fazer melhor; e que a também boa notícia de um sol que nasce é a certeza de que o que foi feito ontem perdeu prazo de validade e exige um renovar de compromissos.

Flávio Gonçalves precisa também de saber que a disciplina é muito mais importante do que a motivação. O disciplinado é sempre um maratonista, o motivado é um velocista. Só que a corrida da vida são 42 quilómetros, não cem metros. A disciplina é o treino diário do sucesso. Como já defendia Aristóteles na antiguidade, «a excelência não é um ato, é um hábito».

Flávio Gonçalves precisa também de ter sempre presente que a forma como respeitar a instituição que representa é também a forma como será recordado. E que a vida pode dar tantas voltas que manter portas abertas pode ser vital no futuro. As pessoas que encontramos enquanto subimos as escadas do sucesso serão as mesmas que vamos encontrar a cada queda. Assegurar que nos vão segurar pela mão e não que nos vão empurrar mais para baixo é uma saudável decisão, que nos dignifica e defende.

Por hoje, apenas mais um conselho a Flávio Gonçalves. Há 66 anos, neste mesmo dia 10 de setembro, o etíope Abebe Bikila venceu a maratona nos Jogos Olímpicos de Roma. Nem estava previsto que participasse, foi chamado quase em cima da hora do voo da delegação etíope devido á lesão de outro atleta. Tão em cima que não tinha sapatos que lhe servissem. Correu… descalço, algo que até já fazia na Etiópia até ser descoberto por um caça talentos. Um exemplo com duas lições: do nada, a vida pode dar-nos oportunidades que nem sonhamos; e que queixar-nos da vida é um exercício inútil. O bom marinheiro não se queixa do vento. Ajusta as velas. Se for preciso, correndo descalço.

Não conheço Flávio Gonçalves nem a família. Admito como provável que tenha todas estas ideias bem arrumadas na cabeça. Mas nada se perde deste texto. Bem vistas as coisas, não foi só para Flávio Gonçalves que escrevi. Foi também para mim.

 

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