Benfica e Sporting. O que vale mais: o treinador ou a equipa?
Mercado fechado em Portugal e muitas ilações a extrair, algumas bem curiosas. A começar pelo Benfica, que se apresenta neste início de época a jogar o dobro do que exibiu tanto com Bruno Lage como José Mourinho em 2025/2026. Mérito total para Marco Silva, que já mostra o acerto da decisão de Rui Costa.
Com Lenglet como única cara nova no onze, a equipa desde cedo mostrou outra qualidade, entusiasmando os adeptos. Dinâmicos e ofensivos, os encarnados logo convenceram os mais céticos. O novo Benfica tem tudo para crescer, nomeadamente a partir do momento que João Palhinha entrou nas opções. O internacional português é, sem dúvida, uma mais-valia e o seu futebol musculado vai potenciar muito o rendimento dos mais diversos companheiros. Com um raio de ação tremendo, transmite força e confiança ao conjunto, tornando-o claramente mais forte, tanto pela qualidade futebolística como pela capacidade futebolística.
O Benfica está bem e recomenda-se, mesmo que na prática jogue apenas com dois reforços! Mérito, claro, para Marco Silva, que, em poucas semanas, transfigurou a equipa. Pavlidis recuperou o instinto goleador, Prestianni está a voar, Rafa reencontrou-se com a melhor versão e para o ataque rolar na perfeição só falta Sudakov demonstrar o potencial que levou as águias a investirem 27 milhões na contratação.
O futebol do Benfica é ofensivo, pressionante e os adeptos acreditam na equipa. Grande trabalho de Marco Silva, que, depois de ter alcançado o primeiro objetivo da temporada, a qualificação para a fase de liga da UEFA Europa League — na qual é um dos favoritos a conquistá-la, caso a leve a sério e não a torne uma prova secundária, como, por exemplo, o FC Porto optou na época transata — vai ter tempo para melhor integrar os mais recentes reforços (Echeverri e El Karouani) durante o interregno para os compromissos das seleções, embora até lá a equipa tenha os dois primeiros grandes testes: Milan, em Itália, no próximo dia 16, e FC Porto, no Dragão, quatro dias depois.
O FC Porto evolui na continuidade e teve o grande mérito de ter segurado todos os titulares, o que permite à equipa manter o nível que a levou ao título nacional. A novidade resume-se à posição de ponta de lança e só há alterações devido à grave lesão de Samu. André Silva tem sido a aposta mas o lugar, mais jogo menos, jogo é de Santiago Gimenez. De resto, conjunto ainda mais equilibrado, com várias soluções e o cuidado especial de ter duas opções de nível para cada posição — Inbeom Hwang, bem conhecido de Farioli do campeonato dos Países Baixos, e o resgatado Fofana, garantem tranquilidade nos momentos de rotação.
Curiosidade a recair no rendimento de Souza, a aposta para estabilizar a posição de lateral-esquerdo, a única sem um indiscutível, e a capacidade de resposta da equipa às exigências do calendário, esta época bem mais exigente, dado o regresso à UEFA Champions League.
Ao contrário do Benfica, que manteve a equipa e mudou de treinador, o Sporting manteve o treinador e mudou a equipa — o FC Porto manteve treinador e equipa, o que talvez explique a vantagem ganha já neste arranque de campeonato —, o que necessariamente tem custos, ainda para mais perdendo vários jogadores diferenciados, casos de Diomande, Hjulmand, Trincão, Pedro Gonçalves ou Quenda.
Rui Borges começa uma nova obra em Alvalade, depois de ter brilhado como trabalhador de recurso na primeira (e incompleta época) e de já com o estatuto de campeão ter falhado na segunda. Quis lutar por todas as competições e acabou por não ganhar nenhuma. Valeu-lhe a sensacional participação europeia, a qualificação in extremis e logo direta para a Champions e a… confiança de Frederico Varandas.
Feliz do treinador que tem o total apoio do presidente. Rui Borges precisa de tempo para reconstruir a equipa e Varandas, creio, vai dar-lho. A primeira prova foi a renovação de contrato após uma época de desilusão. O treinador só pode sentir-se tranquilo e motivado, até porque agora o peso da herança de Ruben Amorim se desvaneceu quase por completo — restam praticamente só Gonçalo Inácio, Maxi Araújo e Geny Catamo.
Manteve-se a defesa e a birra de Luis Suárez passou com o fecho do mercado, mas a base para a reconstrução ficou ainda assim instável e há que encaixar rapidamente vários dos 10 reforços. Tarefa difícil com o comboio em andamento, ainda para mais depois de as expectativas dos adeptos muito terem aumentado com um fator ao qual nunca dei o mínimo de relevância: os resultados de pré-época.
Sergi Altimira é, para já, o único reforço que não levanta dúvidas, pois Zalazar parece estar a acusar o peso dos 30 milhões e Doumbia ainda procura assimilar as ideias do treinador. Veremos como Rui Borges os encaixa. Diria que terá de insistir até à exaustão, pois considero o uruguaio um craque e o italiano um médio moderno, daqueles que fazem várias posições, e com uma enorme margem de progressão. O pior para ele é que terá de fazer isto a ganhar, pois ninguém lhe irá perdoar uma época como a anterior…