O Benfica só gasta o que tem

Os outros pensem o que quiserem, mas a águia precisa de espaço porque cada vez se acentua mais a dimensão universal que há muito atingiu

TAL como solicitara, Roger Schmidt começou o estágio  em Inglaterra, de preparação para a temporada 2023/2024, com o plantel  praticamente definido. Ainda existem acertos  por corrigir, mas desta vez o Benfica deu condições  ao seu treinador  para se concentrar nos jogadores com quem vai defender o título de campeão nacional e preparar uma participação na Liga dos Campeões que lhe permita  transpor  a fronteira dos quartos de final, onde  foi travado nas duas últimas épocas.

Faz bem à saúde dos adeptos andarem eufóricos, felizes e sonharem com as conquistas da década de sessenta do século passado. Do que elas representaram e da energia  que deram à alma de todos os benfiquistas durante trinta anos, em concreto até ao ano de 1990, última presença da águia na final dos Campeões Europeus, em Viena, derrota por 0-1, então diante do poderoso Milan, numa das  suas melhores formações com os três holandeses, Ruud Gullit, Frank Rijkaard, o autor do golo, e Marco Van Basten,  mais uma correnteza de gente importante como Ancelotti, Baresi, Costacurta, Maldini  ou Evani. 

Faz bem aos jogadores sentirem a pressão de adeptos que gostam de ganhar e não se resignam com as derrotas, embora saibam separar o trigo do joio. Porque uma coisa é reconhecer a superioridade dos adversários, outra é ter de aceitar em silêncio fracos rendimentos por  receio de abalar a vidinha  de profissionais bem pagos e que, no mínimo, têm a obrigação de, em cada  jogo, deixarem tudo em campo. Pode faltar a inspiração, mas jamais  a aplicação. Quando a nota artística desafina, que se compense  em entrega e bravura. 

N O Benfica sempre foi assim,  mas,  por razões que não enxergo, a partir de determinada altura mudaram-se as mentalidades e as vontades, despontando uma  estranha complacência  que conseguiu sobreviver  até aos dias de hoje. Por isso dizer-se que a águia baixa as asas com os fortes e  por isso, também, o suplício por que a família encarnada passou na ponta final do último campeonato, nomeadamente nos jogos com o SC Braga (31.ª jornada) e com o Sporting (33.ª), nos quais  Sérgio Conceição investiu sem olhar a elegâncias nem cortesias. Mais do que lhe competia como treinador, assumiu o papel de psicólogo de vão de escada,  espremendo até ao tutano o espantalho dos  dois pontos, apesar do susto que sofreu diante do Casa Pia, na  jornada 32, e das deprimentes cenas a que o país pôde  assistir em direto.

Foram semanas de barulho sem sentido e sem qualquer benefício para quem o fomentou, mas isso são contas do rosário do treinador portista, provavelmente prenunciadoras de algazarra prometida para a próxima época, no caso de o Benfica confirmar e ampliar, até, os sinais de mudança que o levaram ao título.

 Os seus adeptos gostaram, mas querem mais, e têm razão. Em dinheiro, o Benfica não pode competir com os mais poderosos do planeta, mas em património humano é tanto ou mais rico do que muitos dos mais ricos que ditam as regras no futebol mundial.
 

Rui Costa, o rosto da mudança

E STE é o segundo ano de Rui Costa, o da confirmação da política por ele sustentada  para o futebol  e, por extensão, para todas as modalidades: robustecer a ambição de ganhar e honrar a história, por respeito ao estatuto europeu do clube. Ou seja, o presidente eleito na assembleia mais participada do Benfica  não diz que incluiu na sua lista de pretensões   vencer a  Liga dos Campeões Europeus, mas fica claro que, enquanto merecer a confiança dos associados,  esse objetivo tem um espaço reservado no seu pensamento. Pode ser  um desejo  inalcançável,  talvez sim, mas não lhe peçam para desistir porque creio que nunca o fará.

Os outros pensem o que quiserem, mas o Benfica já não cabe neste retângulo na ponta da Europa. A sua grandeza precisa de espaço porque cada vez se acentua mais a dimensão universal que há muito atingiu.

Há uma mudança no discurso e na estratégia, parece-me evidente.   O novo projeto vai ser  fundamentalmente desportivo, porque o «sucesso desportivo produz, necessariamente, o sucesso económico»,  declarou o administrador e vice-presidente Luís Mendes. 

Está em marcha uma espécie de inversão de ciclo, na certeza de cada passo ser dado em segurança. O Benfica reforça o plantel, mas só gasta o que tem e, mesmo tendo, o que a prudência recomenda. Tudo começa nas vitórias e é a partir delas que «se projetam  as vendas, o equilíbrio económico, a capacidade de investimento  e, sucessivamente, sempre o sucesso desportivo», como sublinhou  aquele dirigente na cerimónia da apresentação da medalha comemorativa da conquista do título 38.