Não te percas, Quenda
Jogadores como Geovany Quenda vão rareando. É atrevido, gosta de ir para cima dos adversários, assume o 1x1 como pouco se vai vendo numa era em que os extremos parecem fugir da linha de fundo como o diabo da cruz, tornando o futebol uma espécie de jogo de andebol em que a bola circula em meias luas, da esquerda para a direita.
Fundamental na conquista do bicampeonato do Sporting, com Ruben Amorim e Rui Borges, o jogador de 18 anos assinou um contrato com o Chelsea em março de 2025, com a garantia de ficar mais uma temporada nos leões. Para crescer, valorizar-se e rumar a Londres mais capacitado.
2025/26 não correu tão bem na parte física porque ficou cerca de quatro meses parado e disso se ressentiu o Sporting, ainda que em abono da verdade Geny Catamo o tenha enviado muitas vezes para o banco quando o também esquerdino estava em perfeitas condições para jogar.
No clássico do Dragão, na segunda mão da Taça de Portugal, deu para perceber que a longa ausência dos relvados ainda lhe tolhe a explosão, mas serão poucos os que duvidam do seu potencial, com a vantagem de possuir o background defensivo que Amorim lhe deu quando fazia o corredor direito (e também esquerdo) naquele 3x4x3 de autor.
Temo que a decisão de rumar ao Chelsea possa ser uma péssima escolha. Para ele e, consequentemente, para a Seleção, que precisa de todos os seus grandes talentos, no presente e no futuro. Há vários anos que o clube londrino parece ser gerido ao estilo dos jogos de computador, onde o dinheiro sobra e o critério escasseia.
Chegam jogadores em massa, jovens, assinando contratos longos, alguns vão sendo colocados noutros clubes para rodar (em especial o Estrasburgo, que também pertence à BlueCo), mas tudo parece feito sem seleção. O trabalho de Enzo Maresca chegou a dar frutos, arrumando a casa, mas também ele não resistiu aos desmandos dos donos norte-americanos que fazem os adeptos morrer de saudades de Roman Abramovich.
É neste enquadramento, a roçar o caos, em que vai entrar Quenda no próximo verão. Um clube que dá sinais de uma crise de identidade e onde jovens como ele não têm garantias de estabilidade, por muito ou pouco dinheiro que ganhem. O Sporting recebe no total €52 milhões, o extremo irá para a Premier League, mas tudo o resto é de uma incerteza que em nada abona as perspetivas de um talento emergente e que procura subir mais degraus de uma carreira promissora.
Quando começar a época serão entre 30 a 40 jogadores que poderão apresentar-se em Stamford Bridge e o ainda leão terá quatro ou cinco jogadores (no mínimo) para o seu lugar, incluindo o indiscutível Pedro Neto. Não há outra forma de dizê-lo: será uma lotaria para Quenda. Mas se por acaso sair vencedor, será uma prova de vida: tendo sucesso naquele caldeirão, tê-lo-á em qualquer lado.