Rui Costa, presidente do Benfica
Rui Costa, presidente do Benfica

Benfica encostado à parede e a pergunta que continua sem resposta

Ontem deu-se um passo importante na Liga, mas pensar na centralização é pensar demasiado no telhado quando as fundações ainda falham; no meio disto tudo as águias vão ficando à margem

Nenhuma revolução se faz sem conflito e como era expectável não houve unanimidade na escolha do modelo de comercialização no âmbito da centralização dos direitos televisivos da Liga. Ainda assim, é assinalável que 92 por cento tenham rumado na mesma direção, o mesmo quer dizer que, entre os grandes, apenas o Benfica votou contra.

A posição dos encarnados vem na sequência de outras mais recentes no mesmo sentido, em contraste com o alinhamento de Sporting e FC Porto (desavindos nas guerras de alecrim e manjerona, mas em consonância num tema muito mais estrutural). Ainda ninguém sabe ao certo quanto é que valerá o bolo, a partir de 2028, mas só por milagre os grandes vão manter os valores que auferem atualmente.

A diferença está na forma como cada um aceita a perda no presente e planeia ganhos no futuro. Os encarnados optaram por uma fuga para a frente, abandonando as negociações e pedindo que o Decreto-Lei seja adiado por dois anos, alegando porque este não é o momento certo. A questão é saber: quando será esse momento, à qual obviamente Rui Costa não parece ter resposta.

Isto coloca, portanto, o Benfica encostado à parede: ou se mantém isolado, escudado na sua indiscutível grandeza social (maior que todos os outros) e admitindo cenários disruptivos e populistas que passam por uma saída de Portugal ou mais cedo ou mais tarde será forçado a ir a jogo e aceitar modelos e regras negociados por outros.

Mas mais importante que estados de alma é a pergunta que todos os clubes, do maior ao mais pequeno, deviam fazer: como fazer um produto melhor? Ontem não era dia para discuti-lo, mas dá a sensação de que muitos responsáveis querem apenas empurrar o tema com a barriga, como se a centralização fosse a cura para todos os males.

O número elevado de equipas na I Liga, uma Liga 2 sem capacidade de gerar receitas face às despesas e cuja configuração devia ser discutida, estádios vazios e sem proporcionarem experiências de século XXI aos espectadores e que condicionam transmissões televisivas apelativas, bilhetes proporcionalmente mais caros (em média) face ao poder de compra de outros países europeus, bancadas vazias, regulamentos disciplinares obsoletos e uma justiça desportiva lenta e complexa afastam adeptos e investidores, travando uma internacionalização que, à sua escala, seria possível. Só que isto não ganha votos nem garante eleições...