O projeto do Benfica District apresentado pela Direção presidida por Rui Costa — FOTO: SL BENFICA
O projeto do Benfica District apresentado pela Direção presidida por Rui Costa — FOTO: SL BENFICA

O Benfica e o seu Património

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de João Diogo Manteigas, advogado e sócio 12.262 do Benfica

Passado

Os quase 122 anos do Sport Lisboa e Benfica ensinam-nos que este é sinónimo de desporto e vitórias, comunidade (associativismo assente numa determinada cultura) e património (material e imaterial). É esta transversalidade impactante que obriga os sócios do Benfica a serem exigentes. No Benfica, não chega ganhar. Há que ser superior, respeitando. Dominar e passar uma mensagem idiossincrática. Esta é a nossa maior herança. O legado imposto pela génese da nossa fundação e visão estratégica de dirigentes que, durante décadas, fizeram com que o Benfica alcançasse um estrondoso sucesso desportivo que acarretou a enorme implantação social.

Em termos infraestruturais, já fomos detentores de um vasto e rico património. Há um Benfica antes e pós-1954. A visão e mestria do 20.º presidente, Ferreira Bogalho, livrou-nos do cancro da dívida do Campo das Amoreiras (que hipotecou o clube desportivamente) e fez nascer o antigo Estádio da Luz pela vontade, suor e lágrimas dos nossos antepassados. Posteriormente, foi desenvolvido e exponenciado o seu complexo desportivo por sócios e Presidentes mecenas (Borges Coutinho, Jorge de Brito, entre outros). A aposta no desporto e na mentalidade vencedora eram essenciais. Já em 1985, o fecho do 3.º anel condicionou o sucesso desportivo dos anos seguintes, embora se reconheça a magnitude e valência da decisão.

A Luz de 1954 foi uma das maiores infraestruturas paradoxais criadas no desporto mundial: joia arquitetónica e inferno (para equipas e adeptos visitantes). Algo tão poderoso num país tão pequeno. Quando ativada, era força superior ao próprio país, tanta foi a vez que o representou melhor que os próprios governantes. Desfez-se em pó quando, eventualmente, podia ter sido respeitada, nutrida, atualizada e exponenciada. O Benfica perdeu poder com a sua extinção.

Em 1997, Vale e Azevedo começou a enfraquecer desportivamente o Benfica em plena Lisboa. O negócio Euroárea permutou o primeiro hectare da zona sul da Luz pelos terrenos do Campus do Seixal. Mais tarde (2001-2003) Vilarinho & Vieira aprofundaram a delapidação imobiliária desportiva à boleia do Euro-2004. Basta olhar para a marca do centro do antigo relvado da Luz no chão do atual parque de estacionamento da zona comercial. E ainda se permutou com a Câmara Municipal de Lisboa o terreno da pera (entre a Rua Prof. Reinaldo dos Santos e a Av. Lusíada) para viabilizar o licenciamento na construção de dois prédios (residencial e comercial) no relvado sintético em frente à zona comercial. Demos de borla um valioso terreno onde irá nascer o Pavilhão Desportivo da freguesia de São Domingos de Benfica.

Portanto, alienámos os alfobres que nos deram tantos títulos durante décadas para: terceiros construírem prédios (e receberem o lucro dos mesmos), erigir um estádio moderno mas que agora lembraram-se de expandir, dois pavilhões e uma piscina que nunca resolveram a logística das modalidades (daí arrendarmos espaços fora), estacionamentos interno e externo insuficientes e uma zona comercial sem brilho que é sustentada por dias de jogo, trabalhadores do universo Benfica, pais das crianças felizes no sintético, indefetíveis das modalidades entre outros que, simplesmente, fazem questão de lá ir sempre que podem.

Benfica District

Eis o resultado da análise às contribuições apresentadas pelos sócios e adeptos no Benfica District: mais de 26% questionaram o aumento do estádio, 12% desejam aumentar o estacionamento no estádio, 24% quer mais imagens do Clube, sócios e ícones no estádio e 18% anseia por melhores acessos ao estádio em dia de jogo e mais opções para famílias e crianças no seu interior. Resumindo: quase 80% dos interessados foca-se diretamente sobre o estádio, ou seja, futebol.

Assim, o Benfica District será um projeto válido e com valor acrescentado se tiver por base a seguinte premissa: criação de condições para que os atletas e sócios façam o Benfica conquistar títulos. Nos últimos 22 anos, desde a criação do atual estádio em 2003, o futebol ganhou 8 Ligas, 8 Taças da Liga, 6 Supertaças e 3 Taças de Portugal. Foi extinta a herança infraestrutural que tanto custou erigir e quebrámos a estabilidade do legado desportivo que nos foi transmitida. Estamos a falhar com a nossa própria história e em dívida para com o trabalho dos nossos antepassados. Não é para isto que vamos à Luz e enchemos os outros estádios.

Miguel Saraiva, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto, referiu que precisamos de redefinir tudo à volta do Estádio pois «é importante para a cidade, para o Benfica, para uma cidade mais inclusiva, para a valorização patrimonial do clube e é um projeto de interesse público (...) que vem preencher um vazio urbano no lado norte do estádio». Respeito a opinião do profissional de excelência com uma nuance: o Benfica District deve ser um «projeto de interesse público» para os benfiquistas e para recolocar as equipas do Clube (modalidades) e da SAD (futebol) no topo.

Tudo o resto, vem por acréscimo. Parafraseando Ferreira Bogalho, anos antes de falecer: os sócios corresponderam generosamente para a construção da antiga Luz porque «sabiam que o Benfica tinha necessidade de uma coisa que não tinha». E o que é que o Benfica hoje não tem? Sucesso desportivo. Construa-se e modernize-se mas para voltarmos a ser hegemónicos nos relvados e pavilhões. O Benfica não se fez grande com Pritzker’s ou tornando Lisboa uma cidade mais inclusiva. Isto não é uma crítica. É factual. Os dirigentes e parceiros escolhidos para ativar o Benfica District devem respeitar a visão de quem nos trouxe até aqui e de quem está presente pelo Benfica. Tal como a Lei obriga a manter traços originais na remodelação em centros históricos urbanos.

Com a visão desportiva correta, o Project Finance do Benfica District é a chave de ouro. Será a Benfica Estádio a financiar-se ou a integrar um tipo de Joint Venture. É ela a proprietária do complexo desportivo da Luz e que o pode dar como garantia. Não parece que a FIFA vá ajudar pois no seu bid para o Mundial-2030 não há verba disponível para infraestruturas e há excesso de oferta de estádios. A FIFA vai querer negociar individualmente e tentar esmifrar ao máximo.

Finalmente, algo que deve chamar a atenção do Benfica: terrenos e edifícios da TAP no Aeroporto de Lisboa que ficarão fora da privatização da companhia. Avaliados em 200 milhões de euros e com elevado potencial imobiliário para o Estado vender. Pode ser uma oportunidade para a Cidade Benfica se o Estado descartar a alteração da afetação para habitação. Se possível, poderíamos reformular o atual projeto Benfica District para aumentar o Estádio (100.000 lugares?) e redefinir a sua envolvência. Ao mesmo tempo projetar-se-ia uma Cidade Benfica naquele local mais a norte do concelho.

Caso se aprove o District, cabe respeitar a democracia e contribuir para que seja um sucesso. Senão, trabalharemos em conjunto, sócios e Direção, para viabilizar todos os processos que conduzam o Glorioso ao sucesso desportivo, infraestrutural e social.