SC Braga: recuo no tempo
Exatamente um mês depois, a 14 de fevereiro, o SC Braga voltou a conhecer o sabor da derrota. Exatamente um mês depois, o SC Braga voltou a saber o que é sofrer um golo. Exatamente um mês depois, parece ter havido um inesperado recuo no tempo que reavivou memórias de momentos anteriores desta época.
Na jornada 21, o Braga recebeu e despachou o Rio Ave por expressivos 3-0. Um jogo praticamente de sentido único, marcado por um total controlo braguista, com e sem bola, perante um adversário indefeso e que está em queda livre na classificação. Para a história ficou a estreia de Grillitsch a marcar e mais um bis de Ricardo Horta, que se tem apresentado a um nível soberbo. Fica difícil não chamar a atenção daqueles que gostam do desporto-rei. Brevemente saberemos se nos gabinetes da Federação Portuguesa de Futebol o seu nome também é referido e considerado para um regresso à Seleção, algo que o capitão bracarense tem feito por justificar. Completada esta jornada, ficavam também completados seis jogos consecutivos sem sofrer golos e um pleno de 12 pontos em 12 possíveis no arranque da segunda volta do campeonato. Estavam, comparativamente ao desempenho da primeira volta, recuperados quatro pontos perdidos frente a Aves e Rio Ave.
Era altura de arregaçar as mangas e realizar a complicada deslocação a Barcelos, para defrontar um motivadíssimo Gil Vicente, que tem vindo a realizar um campeonato de sonho, se é que assim se pode dizer, e tem, neste momento, aspirações reais a um inédito quarto lugar. A Legião quis dizer Presente e deslocou-se em peso até à Terra do Galo para mais um dérbi regional cuja importância residia mais no impacto classificativo que o jogo poderia ter do que na rivalidade existente, contrariamente ao que se perspetiva para o dérbi do próximo sábado. Estava criado um cenário complicado, mas empolgante e a resposta inicial da equipa de Carlos Vicens foi positiva. Numa primeira metade marcada por uma abordagem arrojada de ambas as partes, com intenções claras de condicionar a saída de bola do adversário, foi a pressão alta do Braga que se conseguiu superar. E foi exatamente na sequência de uma recuperação adiantada que (quem mais?) Ricardo Horta adiantou os Gverreiros no marcador, resultado que se manteve até ao intervalo.
Eis que, na segunda parte, se viu um filme do passado. Reporto, portanto, ao meu artigo do dia 6 de janeiro, onde expunha e salientava as duas faces que o Braga vinha apresentando em alguns jogos, algo que se manteve em partidas subsequentes. Aconteceu na Amadora, o desperdício de uma vantagem de 3-1. Aconteceu em Braga, o desperdício de um 2-1 frente ao Benfica. Aconteceu em Leiria, o desperdício de um 1-0 num jogo em que as oportunidades criadas até ao intervalo seriam suficientes para que a vantagem fosse bastante mais dilatada. Foram vários os jogos com segundas partes que se revelaram francamente insuficientes, com prejuízo claro em termos de resultados. E foi exatamente um mês depois da retumbante eliminação em Fafe, altura em que António Salvador anunciou o início de uma nova época, que o Braga voltou aos maus hábitos da velha época. A segunda parte em Barcelos foi de muita dificuldade e apatia. César Peixoto fez os devidos ajustes e desorientou um Braga que só se voltou a encontrar quando já estava em desvantagem no marcador. Além da qualidade dos intervenientes no retângulo de jogo, este foi um jogo entre dois treinadores com futuro, tendo o português levado a melhor sobre Carlos Vicens, que não soube reagir às referidas mudanças. Fica mais um ensinamento e a demonstração de que o plano de jogo não deve ser único e rígido, mas adaptável e ajustável ao contexto. Venceu o Gil, que recuperou o quarto lugar, e, um mês depois, estava consumado um recuo no tempo. Voltou o golo sofrido. Voltou a derrota. Mas, acima de tudo, voltou a oportunidade de reagir. Também no passado este plantel e este treinador se revelaram capazes de reagir a momentos de adversidade e de alta pressão. Surge, já no sábado, uma oportunidade de ouro para recuperar confiança e pontos. Nem após as quatro vitórias consecutivas na Liga estávamos perante a melhor equipa do Mundo, nem agora estamos perante a pior. Que haja discernimento para se encontrar o equilíbrio físico e psicológico necessários para uma abordagem competente a um novo dérbi do Minho, evitando erros do passado e recuos no tempo, com os olhos postos no futuro. E que, novamente, o dérbi do Minho seja um exemplo desportivo ao nível do que tem sido em tempos recentes.