A boa disposição marcou os primeiros instantes da preparação para o duelo com o Uzbequistão

«O balneário está todo partido», «estão sempre na praia» e outros mitos à volta da Seleção

Dizem as redes sociais, na sua habitual fúria de teclado, que Portugal vive num «resort de férias», entre festas de aniversário diárias, banhos de mar e distração familiar. Fomos ‘espreitar’ os bastidores e desmontar o circo

PALM BEACH GARDENS — Basta um clique no TikTok, um scroll rápido no X (antigo Twitter) ou um comentário mais inflamado num fórum qualquer para que o cenário pareça apocalítico. «O balneário de Portugal está todo lixado, todo partido», atiram uns. «Passam o tempo na praia», acusam outros. «Isto de conviverem com as famílias é um regabofe e uma distração», sentenciam, ainda, os treinadores de bancada virtuais, aproveitando o facto de o calendário ter guardado três aniversários seguidos no espaço de dez dias: Rafael Leão a 10 de junho, Nuno Mendes a 19, e Gonçalo Ramos precisamente ontem, 20 de junho.

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A narrativa da «festa contínua» vende bem, gera likes e alimenta o fetiche nacional da desgraça iminente. Mas há um detalhe que convém trazer à superfície: a realidade. E a realidade, vista aqui bem de perto, a escassos metros do quartel-general de Portugal na Florida, esmaga por completo a ficção das redes sociais.

Três horas de praia em oito dias

Vamos a factos e a números, que esses não têm filtro de Instagram. A acusação de que os jogadores «passam a vida no areal» cai por terra com uma matemática simples: em oito dias de estágio (192 horas), o grupo passou exatamente três horas na praia. Leram bem. Três horas em mais de 190.

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E desenganem-se se acham que essas três horas foram passadas a beber água de coco em espreguiçadeiras. Oficialmente a ida ao areal fez parte do plano rigoroso de adaptação climática e ativação física. O calor sufocante e a humidade esmagadora da Florida não se combatem fechados no ar condicionado do hotel; combatem-se expondo o corpo ao ecossistema local, com exercícios específicos de mobilidade na areia que ajudam a soltar os músculos e a habituar os pulmões ao ar pesado que se fará sentir nos relvados do Mundial. Foi trabalho, disfarçado de mar, mas trabalho.

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O ‘perigo’ das famílias

Outro dos alvos preferidos da milícia digital é a presença das famílias no dia seguinte aos jogos. Fala-se em «falta de profissionalismo», como se os jogadores de futebol fossem monges medievais proibidos de ver a luz do dia.

A verdade de quem acompanha o grupo é radicalmente oposta. O contacto com os filhos, pais e companheiras dura apenas algumas horas e está perfeitamente balizado pela estrutura da FPF. É uma ferramenta científica de bem-estar mental. Num torneio de desgaste rápido, o isolamento absoluto mói a cabeça; o abraço da família cura. Não há cá «regabofe» algum: há homens que, por momentos, saem da bolha de pressão mediática para recarregar baterias emocionais.

Gonçalo Ramos fez ontem 25 anos e... teve de ir ao 'túnel' - Foto: MIGUEL NUNES

E quanto às festas? Sim, Rafael Leão soprou as velas, Nuno Mendes teve direito a cantar os parabéns anteontem e Gonçalo Ramos fê-lo ontem. Mas reduzir o espírito de união de um grupo a «festas de arromba» é de uma miopia gritante. 

O ambiente que se vive no balneário é de cumplicidade, boa disposição e, acima de tudo, foco, segundo pudemos apurar. Ri-se quando há espaço para rir, trabalha-se no limite quando o mister apita. Nas declarações públicas dos jogadores, a mensagem tem sido unânime e sem fendas: o grupo está blindado, unido e focado num único objetivo.

Se o balneário está «todo partido»? Nada o indica. Parece estar soldado, precisamente porque se permite ser humano entre as quatro paredes do hotel. Palm Beach não é um parque de diversões; é o laboratório onde Portugal está a lapidar a sua ambição.

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