O árbitro - esse desconhecido
NÃO haverá profissão mais solitária que a de ser árbitro. No momento de cada decisão de lance, só ele e a sua consciência. Só ele e as suas circunstâncias. De cada árbitro se sabe, sobretudo, os erros cometidos no passado, que prejudicaram este ou aquele clube. Todos os clubes têm uma base de dados sobre erros de árbitros que prejudicaram o seu clube e de erros de árbitros que beneficiaram os seus rivais. As conclusões, obviamente pouco sérias, servem, às mil maravilhas, para tornar falsamente objetiva uma tendência atribuída ao árbitro e que tem como objetivo prioritário exercer uma influência psicológica sobre esse árbitro, ou, aliás, sobre o ser humano que vai ter funções de árbitro. E aqui nasce a questão essencial. É que mesmo quando nós pensamos que conhecemos o árbitro, muito poucos conhecem o homem que exerce funções de árbitro. Sabemos melhor quem é o presidente do clube, porque ouvimos e lemos o que diz, o que faz, como reage, como interpreta o fenómeno do futebol, que tipo de paixão tem pelo seu clube, se é um colérico incontido, se é um cidadão civilizado, se é manipulador, se é inteligente ou se é, apenas, um dos muitos espertos do futebol. E também conhecemos, relativamente, os protagonistas, sejam treinadores, sejam jogadores. No caso dos treinadores, sabemos mais do que as suas preferências por um sistema de jogo. Há treinadores que não cabem nos seus próprios egos, aqueles que conjugam os verbos de forma diferente, dizendo, eu ganhei, nós empatámos, eles perderam. E também outros, homens cultos, com mundo, com um sentido lúcido que os faz acreditar que o futebol só pode ser entendido se forem entendidas outras coisas essenciais da condição humana e dos fenómenos das sociedades. Depois, os jogadores. Sabemos que alguns são esquerdinos, outros que se caracterizam por uma cultura competitiva de guerreiros, ainda outros que são prodigiosos com bola e outros que são incansáveis sem bola. Uns e outros necessários. E sabemos, por aquilo que dizem, pela forma como se comportam em frente de câmaras e microfones, pelo histórico de família, de amigos, de currículo desportivo, se são estáveis, fiáveis, personalizados, companheiros, ou se têm um ego maior do que o estádio e, por isso, são perturbadores de um espírito sólido de grupo.
Nenhum homem é melhor em solidão
Ou seja, de presidentes, de treinadores, de jogadores conhecemos ou, pelo menos fazemos uma ideia, da sua condição humana.
Dos árbitros, não. São personagens de filme. Quando vestem o equipamento e guardam no bolso os cartões e o apito tornam-se atores prontos a atuarem em palco e a cumprirem o guião que lhes foi destinado. E como o sistema obriga a que vivam em clausura, como carmelitas descalças, confunde-se, naturalmente, o árbitro com o homem. É um dos aspetos mais desoladores e mais inexplicáveis do futebol. Porque o árbitro não fala, não explica, não justifica e não tem vida para além dos momentos exatos em que apita ou em que devia de ter apitado. Os árbitros são como crianças grandes que estão sempre em exame, porque não são confiáveis. Vivem num género de ordem religiosa, cujos mestres, mesmo que alguns sejam apenas velhos árbitros frustrados, têm o poder de castigar ou de premiar em nome de regras, valores e comportamentos de seita. O árbitro torna-se, naturalmente, num homem desviado de uma das suas principais condições humanas - comunicar. Daí poder ser conhecido enquanto árbitro, mas totalmente desconhecido enquanto ser humano. Diz a ordem unida da arbitragem, que assim é que deve de ser. Não deve. Nenhum homem é melhor em solidão.
DENTRO DA ÁREA – E DA LUZ NASCEM TREVAS
O Belenenses ainda está em festa pela subida à segunda Liga. Cinco anos de travessia no deserto, até chegar à Meca do futebol profissional. Foi uma luz resplandecente que surgiu e que compensou demasiados anos de penitência pela coragem de se ter libertado das amarras do sistema. Porém a felicidade logo se tornou num suplício. Como enfrentar a obrigação imposta pela Liga de ter de pagar cerca de 700 mil euros de iluminação do estádio para as transmissões televisivas, quando a SportTV apenas terá de pagar metade pelos direitos?
FORA DA ÁREA – EU SÓ QUERIA QUE ME EXPLICASSEM
Acerta altura do ano, a água caiu dos céus de Portugal como uma dádiva divina. Causou danos, porque era de mais. E logo apareceram as televisões à procura das tragédias do dilúvio. Pelo menos - diziam - as barragens ficaram cheias, como há muito tempo não acontecia. E nós dissemos em coro: um descanso para o verão. Ilusão. Afinal estamos em seca severa e, se não chover, será uma calamidade. Quem me explica? Era água a mais e agora temos água a menos. Porque não a soubemos guardar? Porque sem dramas não somos nós?