‘Nole’ está como o aço

Falta ao supercampeão sérvio vencer o ‘jovem lobo’ Jannik Sinner para chegar a mais uma final de Wimbledon. O fénomeno Alcaraz para lá caminha também…

I MPERIAL a forma como Novak Djokovic, Nole, acossado pelos jovens lobos de 20 e 21 anos que hão de formar o próximo big three (Carlos Alcaraz, Jannik Sinner e Holger Rune), está a aplanar caminho para mais uma final do torneio de Wimbledon. Aos 36 anos, o tenista sérvio tem dado verdadeiras lições de consistência, maturidade e inteligência emocional no mais famoso de todos os templos do ténis: o court central de Wimbledon, onde o suíço Roger Federer construiu boa parte da sua lenda.

A maneira como Nole derrotou nos quartos de final o temível Andrei Rublev, esse russo com ar de vocalista revoltado de banda de rock irlandesa - ágil, focado, eficiente, demolidor quando e sempre que foi preciso -, não deixa a mínima dúvida acerca daquilo que anima o vencedor dos dois anteriores Grand Slams (Austrália e Roland Garros): ele quer mesmo vencer Wimbledon pela quinta vez consecutiva e dessa forma igualar o recorde de Roger Federer no All England Club (8 títulos) e, também, o recorde de Grand Slams (24) detido há um ror de anos pela tenista australiana Margaret Court. E, se vencer Wimbledon, Djokovic ficará igualmente a um passo (US Open) de vencer os quatro Grand Slams no mesmo ano, algo que nenhum tenista masculino conseguiu na era Open (antes, só o australiano Rod Laver e por duas vezes!).

A sede de Novak já se tinha percebido nos quartos de final, quando, recorrendo à experiência e a uma autoconfiança que, em certos momentos, roça a insolência, conseguiu salvar dois tiebreaks que pareciam perdidos para o polaco Huber Hurcacz, que, muito apropriadamente, bombardeou o ás sérvio com 33 ases.  

Djokovic encontra amanhã, nas meias-finais, Jannik Sinner, o poderoso italiano de origem germânica cuja pancada de direita é uma arma potencialmente mortífera para quem não se souber defender dela - não é o caso de Nole, que parece ter recursos para acudir a todas as aflições.

Nole parte favorito para uma nona presença na final num court onde não perde há dez anos. Na outra meia-final defrontam-se o fenómeno espanhol Carlos Alcaraz (20 anos) e o bem mais experiente Danii Medvedev (27), que ontem venceu em cinco sets um americano em estado de graça chamado Christopher Eubanks. Já aqui escrevi várias vezes sobre Carlitos e depois de o ver ontem vulgarizar o amigo Holger Rune (7-6, 6-4, 6-4) como se o dinamarquês não fosse, também, um fora de série em potência, creio que estamos perante o próximo supercampeão do ténis mundial. Alcaraz parece reunir o melhor de Roger Federer (requinte técnico, ousadia e souplesse) e o melhor de Rafa Nadal (raça, genica, combatividade extrema), mas só o tempo lhe trará a força mental à prova de bala que Novak Djokovic exibe a um nível inigualado: a capacidade de impor na mente do adversário a inevitabilidade do seu próprio sucesso. Aposto que Alcaraz vai reinar por muito tempo, mas creio que Nole não vai deixar escapar a possibilidade de voltar a fazer história.

Hoje jogam-se as meias-finais do quadro feminino e uma delas é verdadeiramente surpreendente: aquela que opõe a ucraniana Elina Svitolina (28 anos) à checa Marketá Vondrousova (24). Elina, que foi mãe há nove meses e recebeu um wild card para participar no torneio, tornou-se a heroína do court central depois de vencer com uma exibição espetacular a hiperfavorita e n.º 1 mundial Iga Swiatek. A tenista polaca usou um pin pró-Ucrânia no boné mas até isso parece ter jogado a favor da super mummy, que teve pancadas fenomenais. Enfim, desporto e política não deviam misturar-se, mas convenhamos que é impossível não simpatizar com tudo o que possa ajudar a aliviar o terrível sofrimento dos Ucranianos, vítimas de uma bárbara guerra de agressão da Rússia de Putin.


O PROBLEMA DE FÉLIX 

Oproblema de João Félix, parece-me, é que toda a gente tenta maquilhar o problema que ele tem com falinhas mansas e efabulações; e ninguém lhe diz aquilo que ele precisa de ouvir. Que é um jogador com um potencial enorme, sim; mas que ainda não exprimiu esse potencial e está a caminho de se tornar um dos maiores flops futebolÍsticos da história. Isto tendo em conta a fortuna que o Atlético pagou por ele há quatro anos (126 milhões, ainda a quinta maior transferência de sempre!!!) e aquilo que Félix provou desde então: mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. É que nem o básico (ser titular indiscutível, caramba!) Félix pode dizer que conseguiu ao fim de quatro épocas - nem no Atlético, nem na Seleção, nem nesta última passagem pelo Chelsea.

É muito fácil alinhar no coro desculpabilizante que tem acompanhado os insucessos do jogador desde que trocou o Benfica pelo clube colchonero, e dizer que João é um excelente dançarino e que a sala é que tem estado sempre torta por culpa dos Simeones e dos Lampards desta vida. Mas aqui chegados talvez fosse mais sensato (para não dizer pedagógico) refletir por que razão tanto Diego Simeone como Frank Lampard criticaram publicamente a atitude (falta dela) do jogador; ou por que razão Mauricio Pochettino, podendo ficar com ele, foi precisamente dele de quem se livrou em primeiro lugar assim que tomou posse como treinador do Chelsea. «Quem não gostaria de ter João Félix?», perguntou Rui Costa à chegada a Inglaterra. Bom. A resposta é simples. O Atlético. O Chelsea. E todos os que não lhe fizeram propostas.

Confesso que já não tenho paciência para ler notícias de coletes deitados ao chão, gestos birrentos e outros empertigamentos. Mas julgo que, neste caso, valerá a pena insistir porque se trata, efetivamente, de um jogador talentoso. E é sempre uma pena ver talento desperdiçado. Félix tem de perceber que os anos passam, passam… e ele continua longe de ser aquilo que julga que é: um jogador de topo. Tem de arrepiar caminho, evidentemente. Deixar-se de fantasias, regressar à Terra e fazer-se à estrada pelo caminho das pedras. Um banho demorado na fonte da humildade talvez não fosse má ideia. É que não há notícia de um jogador de topo que não tenha conseguido afirmar-se ao fim de quatro anos. Talvez começar por aí. O resto virá depois. Se vier.

PS - Caro João, permita-me uma sugestão: na próxima concentração da Seleção Nacional vá ter com Cristiano Ronaldo e Pepe e peça-lhes que lhe expliquem o que é ser um jogador de topo.