No dia de Oxalá, porque não o Candomblé?
A inteligência artificial consegue surpreender-nos. Talvez porque faça melhor do que nós humanos um exercício que nos seria muito útil na vida: saber ver o óbvio. Para esse exercício ser bem feito um dos requisitos essenciais é o profundo controlo das emoções, área onde a inteligência artificial nos vence. Uma inteligência desprovida de emoções está melhor habilitada a ver a solução mais óbvia e, por norma, mais certa. Já para as grandes decisões, a busca do impossível, os grandes saltos da humanidade, a emoção é decisiva porque o petisco é proporcional ao risco.
Para a inteligência artificial, com quem esta manhã trocava dois dedos de conversa – os dois que uso no teclado do computador… - «o problema do futebol português não está no investimento privado, está antes no investimento sem enraizamento, sem regulação e sem compromisso com o clube. Isto enquanto conversávamos sobre o Boavista, que a qualquer momento pode ver decretado por decisão judicial o encerramento de toda a atividade depois de ter falhado um depósito na massa insolvente dos credores. E logo vem à liça o que aconteceu com clubes como Belenenses, Vitória de Setúbal, União de Leiria, Académica – estes a fazer pela vida, evitando a extinção e tentando recuperar – Beira Mar e Desportivo das Aves.
Num futebol onde a emoção, o aventureirismo, o lucro fácil, o experimentalismo, a gestão danosa, mas também a falta de regras, de controlo e de supervisão levaram ao desastre. Como pode um campeão nacional estar a um pequeníssimo passo da extinção? Às vezes encho-me de ímpetos justiceiros e – lá está, também com emoção – exclamo que mandaria prender uma série de pessoas que, ao longo dos anos, destruíram instituições que são também, ou deveriam ser, reservas morais e memórias coletivas.
Eu sei que há casos como o Estoril e, mais recentemente, Casa Pia cujos investimentos externos trouxeram estabilidade e solidez. Lá está, o problema não está no dinheiro nem na nacionalidade do mesmo. Está numa gestão correta, objetivos realistas ou tempo para colher os frutos. Será coincidência serem dois clubes que não tem das maiores massas adeptas?
Os adeptos e sócios são vítimas, mas são muitas vezes também culpados. Deram luz verde a decisões de risco, a saltos no escuro em assembleias gerais inflamadas. Foram no canto da sereia em alguns casos, esquecendo uma velha máxima: se algo parece bom demais para ser verdade há boas hipóteses de… não ser verdade.
Depois de se ter tentado de tudo, talvez os adeptos do Boavista possam experimentar o Candomblé e Umbanda, tradições religiosas de matriz africana. Em várias partes do mundo, não de forma oficial, pratica-se hoje, com maior solenidade, o culto a Oxalá, um dos orixás mais importantes. O orixá da criação, da fé e da espiritualidade, associado à paz, sabedoria, pureza e equilíbrio. Há que usar roupas brancas, rezar e cantar pela paz e prosperidade. Depois, o tempo de recolhimento, o silêncio absoluto. Terminar com uma oferta simples. E esperar pelo resultado.
Crendice? Não maior do que algumas decisões em vários clubes, nos quais os sócios abriram mão do controlo para a darem a investidores que ninguém conhecia. Ou que deram luz verde para decisões despesistas e irrealistas. Ou terem dado o voto a quem foi mais demagogo e prometeu algo que era bom demais para ser verdade. Pelo menos o Candomblé não leva clubes à extinção… Sendo que eu continuo a preferir uma velha máxima que foi transmitida pelos meus antepassados ao meu avô, este ao meu pai e o meu pai a mim: «Vive do trabalho das tuas mãos; não gastes o que não podes pagar; se tiveres de pedir emprestado paga as tuas dívidas sem falhar um único dia; não durmas sem cumprir religiosamente a tua palavra». Se resultou para eles, porque não para mim?