Portugal tornou-se uma sala de partidas. Por isso, é bom que Diogo Costa ainda esteja aqui — Foto: CATARINA MORAIS/KAPTA+
Portugal tornou-se uma sala de partidas. Por isso, é bom que Diogo Costa ainda esteja aqui — Foto: CATARINA MORAIS/KAPTA+

O último a sair

Diogo Costa continua no FC Porto porque os guarda-redes são os únicos jogadores obrigados a ter carreira antes de ter preço. Talvez um dia alguém perca a cabeça. Talvez chegue uma proposta absurda, dessas que tornam a despedida inevitável. 'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

Diogo Costa defendeu quase tudo. Quase. O problema dos guarda-redes está muitas vezes nessa palavra. Um avançado pode falhar cinco golos e marcar o sexto. Sai como herói. Um guarda-redes pode fazer cinco defesas impossíveis e sofrer à sexta. Sai derrotado. Foi o que aconteceu frente ao Manchester City.

Diogo travou remates, fechou caminhos, encurtou a baliza. Durante largos minutos, obrigou uma das equipas mais poderosas do mundo a olhar para ele como quem olha para uma porta que não devia estar ali.

Depois apareceu Haaland. A natureza tem animais contra os quais não há manual de sobrevivência. O norueguês marcou duas vezes. O City ganhou. Diogo Costa, embora tenha reforçado estatuto de grande, perdeu o jogo. Até Haaland o elogiou. Disse aquilo que já se sabe. Que Diogo Costa é um dos melhores do mundo. Um daqueles que não se atemoriza nos grandes momentos.

Apareceu no Europeu. Apareceu no Mundial. Apareceu nos penáltis. Apareceu na UEFA Champions League Aparece quando o estádio aperta, quando a bola pesa, quando um erro pode atravessar uma carreira inteira. Tem 26 anos, é capitão do FC Porto, titular da Seleção e o melhor guardião a aparecer no futebol português desde Vítor Baía. Mas mesmo Baía, num tempo em que o mercado não era tão feroz, saiu para o Barcelona. Diogo Costa, não. Continua no nosso campeonato. Ano após ano.

O futebol moderno não sabe esperar por ninguém. Um extremo faz três bons meses e passa a custar €70 M. Um médio de 19 anos completa dois passes, aparece num vídeo com música épica e acorda avaliado em €50 M. Um avançado marca 11 golos num campeonato qualquer e surge logo um clube inglês disposto a entregar uma fortuna por aquilo que ele fez, por aquilo que poderá fazer e por aquilo que alguém imagina que fará.

O mercado compra golos futuros. Compra músculos, velocidade, idade e possibilidade. O guarda-redes ainda tem de apresentar provas. Tem de defender durante anos. Tem de sofrer golos sem perder o lugar. Tem de cometer erros sem partir. Tem de ganhar jogos, salvar treinadores, sobreviver a treinadores, parar penáltis, aprender a jogar com os pés, mandar na área, mandar nos defesas e fingir que não sente medo quando 50 mil pessoas estão a vê-lo sozinho diante de alguém que corre isolado.

Depois disso, talvez alguém faça uma proposta. Talvez. Mas os guarda-redes ainda pertencem a um futebol antigo. Um futebol em que o talento não chegava. Era preciso confirmar. Repetir. Envelhecer um pouco. Construir uma reputação época após época, defesa após defesa, erro após erro.

Gianluigi Buffon tinha 23 anos quando a Juventus pagou cerca de €52 M ao Parma, em 2001. Era uma loucura. Um guarda-redes pelo preço de uma estrela. O recorde durou 17 anos. Nesse tempo, o futebol mudou de dono, de velocidade, de idioma e de moeda. Os clubes passaram a pertencer a Estados, fundos, magnatas, consórcios e cálculos financeiros. Os preços deixaram de ter vergonha. Neymar custou €222 M. Outros seguiram atrás. Valores pornográficos começaram a circular como se fossem trocos encontrados no fundo do sofá.

E Buffon continuava lá. No topo da lista como o guarda-redes mais caro de sempre. Só seria destronado por Alisson, em julho de 2018, quando trocou a Roma pelo Liverpool por €72 M. O brasileiro seria ultrapassado em poucas semanas quando o Chelsea pagou €80 M ao Athletic Bilbao por Kepa. Continua a ser a transferência mais cara de sempre por um guarda-redes. E já passaram oito anos.

O mercado corre como um louco, mas não para os guarda-redes. Há motivos, claro. Um avançado vende camisolas, golos e sonhos. Um guarda-redes vende segurança e a segurança raramente aparece nos vídeos promocionais. O avançado promete aquilo que pode acontecer. O guarda-redes é pago para impedir que alguma coisa aconteça.

Uma defesa não altera o marcador. Mantém-no. Um golo cria uma memória. Uma defesa apaga uma possibilidade. O avançado escreve. O guarda-redes rasga a página.

Diogo Costa, tal como outros, é visto dessa forma. Todos gostam dele. Todos o admiram. Todos parecem acreditar que seria titular em quase qualquer equipa. Mas ninguém avança.

Com uma cláusula de rescisão avaliada em €75 M, os potenciais compradores sabem que existem guarda-redes competentes por valores inferiores. E é aqui que a lógica financeira bate de frente com a lógica do jogo. Um clube paga €100 M por um avançado que pode resolver dez partidas, mas hesita em pagar metade por um guarda-redes que pode evitar dez derrotas.

Vivemos num país habituado a despedidas precoces. Os melhores aparecem, crescem depressa e partem antes de lhes decorarmos os gestos. Quando começamos a perceber o jogador, já ele está num aeroporto. Quando a criança pede a camisola, o nome já foi vendido. Quando o adepto imagina a equipa da época seguinte, alguém envia uma proposta impossível de recusar.

Portugal tornou-se uma sala de partidas. Por isso, é bom que Diogo Costa ainda esteja aqui. É bom vê-lo entrar no Dragão com a braçadeira. É bom saber que um dos melhores guarda-redes do mundo continua a defender uma baliza portuguesa. Mas também é estranho. Porque Diogo já fez tudo aquilo que se exige a um guarda-redes antes da grande transferência.

Já provou talento, coragem, regularidade e personalidade. Já falhou, como todos falham. Já regressou dos erros, coisa que nem todos conseguem. Já suportou o peso da Seleção. Já decidiu eliminatórias. Já parou penáltis. Já enfrentou os melhores. Agora foi Haaland. Sofreu dois golos e recebeu o respeito do homem que os marcou.

Mas Diogo Costa continua no FC Porto porque os guarda-redes são os únicos jogadores obrigados a ter carreira antes de ter preço. Talvez um dia alguém perca a cabeça. Talvez chegue uma proposta absurda, dessas que tornam a despedida inevitável. Talvez um gigante descubra que a baliza é demasiado importante para ficar entregue ao segundo ou ao terceiro nome da lista.

Até lá, Diogo Costa fica. Para orgulho do futebol português. Para espanto de muitos. E para continuar a ser aquilo que um grande guarda-redes sempre foi: o último homem a sair por ser o último a quem o mercado abre a porta.

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