Mundial
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Quem fica com a final do Mundial?
Pergunta inicial: alguém alguma vez pensou que Marrocos se candidataria à organização da fase final de um Mundial de futebol para não receber a final?
Parece um raciocínio simples, mas tem muito de elaborado, em face da afirmação do Reino de Marrocos no panorama internacional, no seu crescente papel em relação à Confederação Africana de Futebol, e na qualidade das estruturas que, hoje, encontramos em território marroquino, em todos os ângulos de análise.
De há muito tempo a esta parte, Marrocos, no concerto das nações africanas, foi ganhando peso e preponderância, ao ponto de a generalidade das provas dos escalões etários mais baixos serem sucessivamente outorgadas ao país magrebino.
E a razão, entre tantas outras facilmente consideráveis pela CAF, era quase básica: se ninguém avançava, o importante era manter a consistência das provas e do calendário. Por isso, Marrocos dizia (quase) sempre presente.
Até à polémica final da Taça de África das Nações, em janeiro deste ano, quando o Senegal acabou por vencer a final, frente à seleção marroquina, após uma quase abandono do relvado, muito próximo dos noventa minutos.
Independentemente da decisão final do Tribunal Arbitral do Desporto, prevista para o próximo mês de outubro, a Real Federação Marroquina retirou todas as candidaturas e possibilidades de organização de provas no âmbito da CAF. Um finca-pé mais do que diplomático, e que pretendeu mostrar ao continente africano o seu desagrado pelo sucedido na CAN 2025, sendo igualmente um tocar a reunir, do ponto de vista estrutural, para o que realmente passou a interessar aos marroquinos, o Mundial 2030.
Será a primeira vez que três países pertencentes a duas confederações organizam a maior prova da FIFA. A atribuição dos Jogos do Centenário às federações uruguaia, argentina e paraguaia, constituem apenas o reconhecimento histórico dos cem anos de Campeonato do Mundo. Não é correto dizer-se que o Mundial 2030 será organizado por seis países. Sê-lo-á por três, com os primeiros três jogos a comemorarem o centenário da competição.
Posto isto, há 101 jogos para dividir por Espanha, Portugal e Marrocos, numa perspetiva verdadeiramente intercontinental, e que faz retornar África, vinte anos depois, ao primeiro plano internacional.
Aliás, sempre fomos de opinião de que, para lá da África do Sul, apenas Marrocos e, eventualmente, o Egito, teriam capacidade para entroncar o complexo caderno de encargos da FIFA para a organização da sua principal competição quadrienal.
A partir daqui, e da confirmação da responsabilidade, Portugal entende muito bem qual o seu papel. Apresenta três estádios (Luz, Alvalade e Dragão), em duas cidades (Lisboa e Porto), sabe que, no cotejo dos países envolvidos, será sempre o que menos jogos receberá, mas, curiosamente, é também o que menos investimento estrutural tem de protagonizar, sabendo-se que os estádios estão prontos, e que toda a envolvência logística a que um Mundial obriga está garantida, nas duas maiores cidades do país.
Espanha renova-se, procurando mostrar uma face moderna e competitiva, e, sobretudo, Marrocos sobe a primeiro plano, com a criação de condições de excelência em algumas cidades e a construção e estruturas desportivas únicas no mundo, como o novo estádio de Casablanca, com uma lotação de cerca de 115 mil espectadores.
Alguém pensa que a federação marroquina encararia a candidatura, ainda que a três (e com majoradas possibilidades de aceitação, até pelo ineditismo bi-continental), se não tivesse a convicção plena de que receberia o jogo mais importante, a decisão do Mundial 2030?…
Portanto, não me surpreendem — sobretudo conhecendo bem os meandros de pensamento e funcionamento das federações africanas de futebol — as declarações do líder do organismo de Marrocos, segundo as quais o país iria receber, no novo e disruptivo estádio de Casablanca, o jogo da final do Mundial.
Essa é uma luta que, sublinhe-se, nunca foi de Portugal. Lisboa vai receber uma das meias-finais no Estádio da Luz, e tal facto não surpreende. É, aliás, um dos elementos estruturantes do envolvimento português na organização da prova, juntamente com a prerrogativa de a seleção portuguesa poder disputar quase todos os jogos (numa perspetiva evolutiva, claro), em território nacional. Negligenciar esses dois aspetos teria sido altamente penalizador para a componente lusa da organização, e isso está acautelado ab initio.
Porém, entre Espanha e Marrocos poderá existir um elemento de conflito objetivo, sabendo-se, como se sabe, que a final do Mundial não é apenas a cereja no topo do bolo competitivo. Há muito mais do que isso, e a reconstrução do Estádio Santiago Bernabéu, para lá de um projeto antigo do Real Madrid, foi também uma pedra basilar na candidatura espanhola, projetando a final do Mundial no gigante pavilhão em que, com o teto retrátil fechado, se transforma o recinto do Paseo de la Castellana.
Aqui, entra a geopolítica do futebol, sobretudo nas viragens de tempo e argumento dos últimos meses, com a imprevisibilidade em relação à eleição do próximo mês de março, para a presidência da FIFA.
Sobre isso, escrevo em breve nesta página, deixando, para já, um pormaior: é em Marrocos que se conhecerá o líder da maior instituição do futebol mundial para os próximos anos. Infantino joga muito do seu prestígio (o que ainda poderá perdurar…), e da sua influência transcontinental nesta eleição. Marrocos sabe-o. E também, no xadrez do futebol mundial, trabalha a estratégia e move as peças consoante os seus superiores interesses…
Diga-se o que disser, a Liga dos Campeões constitui a grande montra para qualquer clube, treinador ou jogador. O modo como o Sporting deu início à sua participação na edição desta temporada demonstra várias coisas.
Que os leões conseguem concentrar objetivos no que realmente interessa; que Rui Borges, afinal, é um treinador que gere o seu grupo de acordo com as diversas provas, e sabendo a importância relativa e absoluta de cada uma delas; que o futebol português ainda consegue cativar, a nível europeu, ao ponto de garantir uma vitória inolvidável mas, mais do que isso, de lançar expectativas muito interessantes em relação ao comportamento do Sporting nas próximas sete jornadas da fase regular da mais importante prova da UEFA para clubes.
A construção dos grupos de trabalho é essencial para o sucesso de cada temporada desportiva. Saindo nomes como Emiliano Martínez, Ezri Konsa, Youri Tielemans, Morgan Rogers ou Ollie Watkins, o Aston Villa, clube inglês que, nos últimos anos, pautou a sua conduta, justamente, por uma inquebrantável estratégia de valorização do plantel e, consequentemente, de resultados desportivos, correu riscos monumentais.
O treinador é uma velha raposa: Unai Emery já nos habituou a milagres mas, com a razia absoluta do último defeso, é difícil manter patamares competitivos elevados, quer na Premier League, quer na Liga dos Campeões.
Muita curiosidade para o que segue no Villa Park…
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