Lembrar Eriksson em tempo de Marco Silva
Tomando por base declarações de Marco Silva quanto à identidade que pretendia para o ‘seu’ Benfica - de matriz dominadora, de que a exibição em Moreira de Cónegos foi bom exemplo - Nuno Paralvas assinou, em A Bola, um excelente exercício jornalístico, onde fundamentou, com factos, a materialização das ideias do treinador encarnado.
Os grandes momentos do futebol do Benfica foram escritos com futebol de rosto atacante, o mais difícil de aplicar, por só ser eficaz se não se perder o sentido defensivo, já que se trata de um jogo que, na génese, obriga a que coabitem a vontade de marcar e a necessidade de não sofrer, e que traz associada a suprema vantagem de galvanizar os adeptos, ativando o décimo segundo jogador.
A primeira vez que joguei na Luz para o Campeonato Nacional foi pelo Montijo. Ao intervalo, o resultado estava 1-1. No segundo tempo, no primeiro pontapé de canto favorável aos donos da casa, o Nené aproximou-se de mim e disse-me, com aquela voz inconfundível, de falsete, em tom de ameaça: «um quarto de hora à Benfica.» Quinze minutos depois, já com 4-1 no marcador, percebi, finalmente, o recado. Era o Benfica a ser Benfica.
JOGAR AO ATAQUE
Mas jogar ao ataque, coloquemos o assunto assim para simplificar, tem mais que se lhe diga do que meter a bola na frente, alocar à fórmula muitos jogadores, e esmagar o adversário.
De há sensivelmente 50 anos a esta parte, desde que os belgas se tornaram peritos em colocar os adversários em fora de jogo com defesas que chegavam a estar subidas 45 metros relativamente à linha final, manter as equipas juntas - ou seja, com 25 a 30 metros entre defesas e atacantes - passou a ser um ‘must’ para os emblemas de ‘top’, que assim foram encontrando tempo para ganharem o espaço de que necessitavam para se aproximarem das redes contrárias, sem caírem na ratoeira do ‘offside’.
Em 1982, quando chegou à Luz, Seven-Goran Eriksson, visto como um paladino do futebol atacante, tinha uma frase que usava à exaustão, e que para ele era a base de tudo: ‘keep the team together’ (‘mantenham a equipa junta’). Isso exigia uma permanente atenção dos defesas, na hora de recuperar a bola, ao posicionamento dos avançados, que criavam a primeira barreira, de quem não podiam distar mais do que 30 metros. Quando se tratava de jogar com bola, o princípio era o mesmo, e servia quer para manter a posse prolongada, ganhar segundas bolas se o jogo fosse mais direto, e criar condições para haver, maior presença na grande área contrária.
Mas, para Eriksson, do ponto de vista estratégico (a tática entre 1982 e 1984 foi sempre a mesma, um 4x4x2 de inspiração britânica, que em alguns jogos na segunda época chegou a ser 3x1x4x2, com Shéu a atuar à frente de três defesas, modelo que Cruyff copiou anos depois, entregando essa tarefa a Guardiola), jogar com o Liverpool em Anfield ou com o Penafiel (com o devido respeito), na Luz, eram coisas muito diferentes. O segredo do técnico sueco - que não tinha nada de secreto, afinal, apenas maximizava os princípios teóricos que defendia - estava no local onde os dois avançados iniciavam o trabalho defensivo: contra equipas menos apetrechadas, a busca pela bola começava à saída da grande área contrária, o que obrigava a uma colocação do quarteto defensivo sobre a linha de meio-campo.
Depois, conforme ia subindo a qualidade do adversário, a labuta dos pontas-de-lança ia recuando, levando a que os defesas se posicionassem mais atrás. Contra o Liverpool (ou nas Antas e Alvalade) mantendo-se os princípios de zona pressionada - tantas vezes disse, «obrigar o adversário a jogar para os lados é um bom trabalho defensivo» - e com a equipa com os setores juntos, os avançados (Nené e Filipovic, os mais utilizados, mas também Diamantino, Manniche ou Padinha) começavam a trabalhar a meio-campo e a defesa colocava-se cinco metros à frente da grande área. Portanto, isso de dizerem que as grandes equipas só têm uma forma de jogar e as restantes é que devem estar preocupadas, é uma história contada pela rama, porque a complexidade subjacente ao que, aos olhos do adepto, parecia simples, era enorme.
LIVERPOOL E PENAFIEL
Quando referi os exemplos do Liverpool e do Penafiel (passar no ‘25 de Abril’, então pelado, era sempre tarefa árdua) não o fiz por acaso.Contra ambos, nessa época de 1983/84, o Benfica jogou em 4x4x2, mas o jogo de Anfield (1-0 para os ‘reds’, que se sagrariam campeões europeus) foi preparado por Eriksson à exaustão, e colocou aquela que era a melhor equipa do mundo em sérios sobressaltos. Cada jogador sabia, até ao mais ínfimo pormenor, o que fazer, onde estar e o que esperar. Esse foi um jogo digno da Liga dos Campeões!
Já em Lisboa, na segunda-mão, tudo correu mal ao Benfica e o Liverpool arrancou para uma exibição de luxo, que nada ficou a dever aos 1-5 com que o Manchester United de Law, Charlton e Best ‘esmagou’ a equipa de Eusébio, então novamente treinada por Bèlla Guttmann, em 1966, três meses antes do Mundial de Inglaterra. E o Penafiel? Depois da hecatombe caseira com o Liverpool, os penafidelenses visitaram a Luz. Imediatamente após o 1-4 com os ‘reds’, Eriksson disse-me, ainda antes de chegarmos ao balneário: «podemos ter perdido hoje o Campeonato». Era assim que o técnico sueco era, para ele ter sido eliminado, daquela forma dolorosa, pelo Liverpool, era passado, e o seu foco já estava na vitória no Campeonato e no abalo que os 1-4 podiam provocar na equipa e nos adeptos. O jogo que se seguia era a receção ao Penafiel, um teste importante para a reta final da luta pelo ‘bis’.
O jogo da Luz com o Liverpool tinha corrido mal ao Manuel Bento. Foi ele o primeiro a entrar no relvado para o aquecimento no jogo com o Penafiel e recebeu uma calorosa salva de palmas. Nessa tarde, a equipa, naturalmente convalescente, foi acarinhada do princípio ao fim pelos adeptos, a quem retribuiu com um 8-0 e uma excelente exibição, que exorcizou fantasmas. Novamente em 4x4x2, mas dessa feita sem deixar respirar o adversário, com uma estratégia apropriada ao que estava em causa. Pazes feitas, esse Campeonato terminou com a vitória do Benfica, com três pontos de vantagem sobre o FC Porto (a vitória valia, então dois pontos, se valesse, como agora, três, a vantagem teria sido de cinco pontos).
SEM EQUILÍBRIO, NADA FEITO
Ao recordar estes episódios, espero que tenha ficado claro que para um clube com o ADN do Benfica jogar, por sistema, ao ataque, recuperar a bola depressa e galvanizar os adeptos é uma necessidade tão premente quanto respirar. Mas, só vale a pena jogar - novamente simplificando - ao ataque, se os restantes equilíbrios estiverem garantidos. Porque só há uma coisa que os adeptos do Benfica gastam mais do que jogar ao ataque (e os dos outros clubes, também…): ganhar. Não tenho dúvidas, porém, de que ao Benfica é mais ‘fácil’ chegar aos títulos se tiver uma atitude de tal forma galvanizadora que faça com que o Inferno da Luz esteja presente, como 12.º jogador, onde quer que os encarnados se apresentem.