Francisco Vaz de Miranda
Todos ganham com Palhinha
Bastaram 231 minutos de João Palhinha para o meio-campo do Benfica ser projetado para outro patamar e perceber-se por que é que Marco Silva tanto queria o médio que já tinha treinado no Fulham. Mesmo com a entrada em cena de Newcastle ou Aston Villa, clubes de Premier League com argumentos financeiros incomparáveis em relação ao Benfica, Palhinha foi firme na vontade de voltar a Portugal, mesmo sabendo de antemão o peso mediático que isso teria junto dos adeptos do Sporting, onde se formou e ao qual, garantiu, «daria preferência» no retorno ao país.
Palhinha e o Sporting não voltaram a encontrar-se, o Benfica foi paciente na espera do sai, não sai do Bayern e dotou o plantel de um jogador de que precisava como de pão para a boca. Na ideia de Marco Silva, cai que nem uma luva. Palhinha não será muitas vezes o MVP dos jogos, não driblará como Prestianni, não encontrará espaços como Schjelderup, muito menos finalizará como Pavlidis, mas estará lá para dar à equipa o equilíbrio defensivo que ainda não tinha tido esta época.
É certo que foram só dois jogos e contra adversários fora do campeonato do Benfica e contra Milan e FC Porto haverá testes mais exigentes, mas houve diferenças notórias e desde Fejsa que a águia não tinha um 6 assim, que lhe permite abrir as asas e dar liberdade a quem está à sua frente sem tantas preocupações defensivas. Marco Silva foi lesto em perceber que, amparados por Palhinha, Prestianni e Schjelderup poderão fazer muitos estragos.
O argentino e o norueguês são os dois maiores talentos que o Benfica tem no plantel e não se anulam ao pisar os mesmos espaços, mas complementam-se para um futebol vertiginoso, balanceado para a frente como não se via desde o ano de estreia de Roger Schmidt.
As peças do Benfica começam a encaixar e até a dupla Tomás Araújo-Lenglet, que levantou dúvidas por não ter um patrão e poder ser demasiado macia, ganhou outra estabilidade e segurança com Palhinha.
Se para o Benfica e para o jogador a aposta parece mais do que ganha, também a Seleção vai sair a ganhar. Depois da inexplicável ausência dos 26 do Mundial — e que jeitaço teria dado Palhinha contra Colômbia e Espanha, por exemplo —, Jorge Jesus vai mais do que a tempo de o reintegrar. Por norma, JJ também gosta de um 6 clássico e o próprio selecionador já disse que o trio Vitinha-João Neves-Bruno Fernandes, no papel um luxo e regalo de se ver, não o convenceu.