José Mourinho e Cristiano Ronaldo em 2012 (IMAGO)
José Mourinho e Cristiano Ronaldo em 2012 (IMAGO)

Mourinho, Jesus e Ronaldo dizem não a sofás, Netflix e chazinhos de camomila

Que une José Mourinho, Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo? Genialidade e loucura, claro. E aos 63, 71 e 41 anos continuam na luta. Fazem bem...

Dizem que todos os génios têm um toque de loucura. Se assim é, Mourinho, Ronaldo e Jesus, entre muitos outros, têm toques de loucura. E quando falo em loucura, falo em fugir das normas. Os três, JM, CR e JJ, fogem das normas desde o início das suas carreiras.

Vejamos Mourinho. Há mais de 25 anos aceitou entrar no Benfica no pior período da vida do clube. Quando o presidente era Vale e Azevedo, quando o plantel tinha jogadores como Dudic, Rojas, Escalona, Uribe ou André Neles e quando a equipa estava, após quatro jornadas, a cinco pontos do líder. Se isto não é ter uma pontinha de loucura, que será ter uma pontinha de loucura?

Mas Mourinho, nos três meses em que esteve nesse Benfica, transformou a loucura em genialidade, finalizando com o famoso 3-0 ao Sporting, campeão nacional. E decidiu sair da Luz pelo próprio pé, o que, visto com os olhos de dezembro de 2000, podia ser uma loucura.

A loucura, continuemos a chamar-lhe assim, de Mourinho manteve-se durante toda a sua carreira: aceitou descer ao U. Leiria, arriscou subir ao bem complicado FC Porto de 2002, quando o plantel misturava craques (Deco, Ricardo Carvalho, Costinha ou Vítor Baía) com jogadores medianos (Kaviedes, Maric, Esnaider ou Pavlin). Transformou loucura em genialidade e ganhou tudo. Acima de tudo, a Liga dos Campeões. Fez sempre o mesmo na carreira. Até regressar ao Benfica. Sem nada ganhar, é certo, a não ser ajudar Rui Costa a ganhar as eleições.

Sai agora para regressar ao maior clube do Mundo, que atravessa um dos piores períodos da sua história. Se isto não é misturar genialidade com loucura, meus caros, que será misturar genialidade com loucura? Até mesmo a loucura de, querendo um dia ser selecionador nacional, se ter deixado cair inúmeras vezes na tentação de destilar um pouquinho de ódio ao seu adversário mais direto: o Sporting. Agora chuta para canto a possibilidade de descansar no sofá a ver a Netflix e a beber chá de camomila.

Passemos a Jesus. Outro génio com toques de loucura. Subiu a escadaria do êxito a pulso e só chegou verdadeiramente ao topo quando já tinha 56 anos. Dificilmente um treinador atinge pela primeira vez o topo dos topos (SLB, no caso de JJ) quando já passou os 50. Mas Jesus fê-lo. E fê-lo bem, transformando um Benfica mediano (de 2008/2009 para 2009/2010) num Benfica triturador de adversários. Um dia, em meados de 2015, decidiu sair do Benfica e ir para o Sporting sem passar por outro lado. Haverá maior loucura do que isto? Há: Figo, em 2000, do Barcelona para o Real Madrid. Mas JJ, já de leão ao peito, decidiu ainda afrontar tudo e todos no Benfica: presidente, treinador, jogadores, estrutura.

Rigorosamente tudo. E perdeu. Aquele Sporting jogava muito, mas perdeu durante três anos seguidos. Saiu e emigrou aos 64 anos. Quando muitos escolhem sofá, Netflix e chazinhos às cinco da tarde, Jesus arriscou. Primeiro Al Hilal, depois Flamengo e depois a suprema loucura: regressar ao Benfica. Perdeu. E voltou a sair: Fenerbahçe, Al Hilal e Al Nassr. Ganhou aqui e ali, perdeu aqui e ali. Mas sempre a fugir das normas. Agora, prestes a completar 72 anos (cinco dias depois da final do Mundial), deverá aceitar ser selecionador de Portugal. Outra loucura. Enorme, se Portugal for campeão do Mundo; bem menor, se o não for.

Outro que não pensa em sofás, filmes ou chazinhos é Ronaldo. Tem 41 e parece (por vezes...) ter apenas 31. Já não tão génio, mas continua louco. Louco, sobretudo, na ânsia de ser campeão do Mundo. Alguém lhe pode levar a mal o desejo de, aos 41 anos e quatro meses, estar no Mundial e o sonho de querer vencê-lo? Só um louco ainda maior. Esperemos por 19 de junho de 2026.

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