NA AMÉRICA DE EUSÉBIO* Queiroz em perspetiva
Carlos Queiroz, a realizar na América do Norte o seu quinto Mundial (igualou Milutinovic e à frente destes dois está apenas Parreira), pegou num Gana desacreditado e está muito perto de garantir a qualificação das ‘Estrelas Negras’ para a fase de mata-mata, depois de ganhar ao Panamá e empatar com a Inglaterra.
Bicampeão Mundial de sub-20 por Portugal, com passagens por grandes clubes, como o Sporting e o Real Madrid - além de uma presença influente no Manchester United de Alex Ferguson -, e oito seleções nacionais, Queiroz é, em minha opinião, um dos quatro treinadores portugueses mais importantes de sempre (os outros três são Cândido de Oliveira, José Maria Pedroto e José Mourinho), porque alterou o paradigma vigente e abriu novos mundos ao nosso futebol. Ficaria mal comigo mesmo se não atribuísse ‘menções honrosas’ a Artur Jorge e Fernando Santos, o primeiro pela inovação, o segundo por ter quebrado a barreira do ‘quase’.
Dizia-me ainda há pouco tempo Nelo Vingada que «o Carlos às vezes é o pior inimigo dele próprio», pela pouca tolerância que sempre mostrou por quem não consegue acompanhar o nível de exigência que coloca no trabalho. Também o facto de nunca se ter preocupado em ‘vender’, internamente, a sua imagem, fez com que em Portugal raramente se lhe atribua o mérito que é seu.
Entre 1985 e 1995 deu-se a tempestade perfeita que catapultou o nosso futebol para patamares de excelência: o plano de desenvolvimento gizado por Queiroz (sem esquecer Vingada), que ‘rendeu’ dois títulos mundiais de sub-20 (1989 e 1991); a que se juntou o acórdão Bosman (1995), que abriu, às extraordinárias gerações criadas por Carlos Queiroz, as portas dos melhores clubes do Mundo e a presença em campeonatos muito mais competitivos que o nosso.
Queiroz viu mais longe que todos os outros. E bem podem dizer que tem mau feitio, que não devia ter tirado o Paulo Torres ao intervalo nos 3-6, que perdeu uma Liga que já estava ganha em Madrid, ou que o Mundial de 2010 de Portugal foi cinzento (para quem não se lembre, fomos eliminados pela Espanha, que viria a sagrar-se campeã do Mundo, no mata-mata, por 0-1, com um golo em fora-de-jogo de David Villa). A história do nosso futebol tem, garanto, um lugar reservado, na primeira fila, para Carlos Queiroz.
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…