Ronaldo sorri depois de ter marcado pela segunda vez ao Uzbequistão no Mundial — Foto: IMAGO
Ronaldo sorri depois de ter marcado pela segunda vez ao Uzbequistão no Mundial — Foto: IMAGO

Cristiano Ronaldo, nós e o mundo

Memórias de um sorriso provocado por Cristiano Ronaldo num mercado flutuante de Banguecoque há coisa de 18 anos

Ali por meados de junho de 2008, mais coisa, menos coisa, numa visita a um dos vários mercados flutuantes à sombra da tão gigantesca quanto apaixonante Banguecoque, transformados em espécie de jardins zoológicos para turistas carregados de dinheiro e indiferentes a tudo para lá da superficialidade, uma menina com pouco mais de 12 anos, perdida nos pensamentos, vendia fruta, com olhar vazio. Para mim, estaria triste. Fiquei preso alguns segundos naquela figura que carregava, seguramente, uma vida difícil. Tinha folhas de jornais ao lado, que usava para embrulhar a fruta a troco de umas patacas.

Numa dessas páginas, estava Cristiano Ronaldo. Para lá apontei e ainda hoje, talvez por saber que não tinha força ou capacidade para fazer mais ou melhor por ela, não esqueço o sorriso que lhe arranquei, enquanto ela dizia o nome de Ronaldo com modos de pronúncia tailandesa.

Ronaldo tinha, então, 23 aninhos, era uma espécie de mustang, selvagem e indomável, tão novo e já bicampeão inglês e europeu pelo Manchester United, sob a asa protetora e paterna de Alex Ferguson.

Já era, nessa altura, apesar de ainda nada ter conquistado pela Seleção Nacional, uma figura internacional, conhecida nos quatro cantos do mundo, conhecida até por uma menina num canto insalubre de um mercado flutuante.

O resto da história de Ronaldo conhecemos todos. Só parece que nos esquecemos do que passou para lá chegar. Acabou de tornar-se, com 41 anos, o primeiro jogador a marcar em seis Campeonatos do Mundo. Já alguém terá parado um bocadinho para pensar no que isso significa e não deixar passar essa informação como uma simples nota de rodapé tão importante como fotografias de jogadores em tronco nu a banhos nas águas de Miami?

A avalanche de crítica destrutiva e negativa contra Cristiano Ronaldo e a Seleção depois do empate com a RD Congo diz muito mais de nós como sociedade do que do futebol que se viu. Dei por mim a pensar, antes do jogo com o Uzbequistão, bêbado com tudo o que lia e via, como seria possível Roberto Martínez continuar a jogar com Cristiano Ronaldo. Inconscientemente mergulhado neste caldo negativo, já só via, sem nada ainda ter visto, CR7 falhar golos à frente da baliza, refilar com os companheiros e o treinador, contra o mundo que conspirava contra ele. E, no entanto, a nossa perceção nem sempre coincide com a realidade, nem sempre estamos certos, nem sempre está certo quem só se sente livre quando diz mal.

Não é um exclusivo português. Ai o que se disse em Espanha depois de a seleção ter empatado com Cabo Verde, ai o que se vai dizendo no Brasil depois dos dois primeiros jogos, ai o que se poderá dizer em Inglaterra depois do empate com o Gana.

Reconhecer como positivo o que ainda produz Ronaldo em campo não significa concordar ou até aceitar tudo o que ele faz ou nalguns casos representa. Como dizia Toni Kroos depois do jogo com a RD Congo, Ronaldo não está a jogar por se chamar Ronaldo, mas porque é o melhor finalizador de Portugal na área. Também podemos discordar, claro, mas não faria mal pelo menos refletir sobre isso.

Depois do jogo com o Uzbequistão, Ronaldo fez-me pelo menos sorrir, como aquela menina, hoje mulher, de um mercado flutuante à sombra da tão gigantesca quanto apaixonante Banguecoque. Isso, para mim, chegou.

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