Mundial
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Respeitar Ronaldo e acreditar na Seleção
O Campeonato do Mundo começou para Portugal com uma desilusão que não vale a pena maquilhar, ou disfarçar com alusões a resultados menos conseguidos de seleções vitoriosas noutras edições de fases finais de mundiais ou europeus. O empate com a República Democrática do Congo foi um mau resultado, sobretudo pela forma como a Seleção entrou no jogo, chegou cedo à vantagem por João Neves, e depois foi deixando o tempo passar, perdendo a autoridade num jogo demasiadamente lateralizado, numa gestão da posse de bola pouco acutilante no último terço do campo.
Não se exige à equipa das Quinas que ganhe todos os jogos por decreto, com exibições e resultados convincentes, mas exige-se a uma das seleções mais talentosas da prova que saiba governar os momentos do jogo com mais personalidade e fome competitiva. A gestão de expetativas assim o obriga, o talento existe e reconhece-se, a ambição foi inclusivamente traçada de dentro para fora, foram os responsáveis federativos que, mal ou bem, iniciaram uma campanha de promoção à vitória final, como se fosse um feito singelo, devendo admitir-se que é bem mais complexo do que a expetativa alimentada pela comunicação produzida.
Analisando esse jogo, Portugal teve bola, volume e posse, mas faltou-lhe aquilo que separa o controlo do domínio afirmativo do jogo: agressividade na decisão, profundidade nas roturas, velocidade na circulação e presença constante na área. A desilusão não ficou somente no resultado, esteve nessa sensação incómoda de que Portugal se deixou adormecer dentro do seu próprio talento, como se a qualidade individual fosse suficiente para resolver aquilo que só se resolve com concentração, intensidade, sentido coletivo e decisão individual que faça a diferença.
Sucede que, terminado o jogo, em vez de se discutir a equipa, o plano, a resposta ao empate, as substituições, a falta de jogo entrelinhas ou a pouca capacidade para acelerar pelas laterais, assistimos novamente ao exercício mais fácil do nosso debate futebolístico: transformar Cristiano Ronaldo no centro de todas as culpas. Houve quem olhasse para os seus toques na bola como se deles dependesse a explicação inteira do jogo, houve quem fizesse dos seus remates uma sentença de egoísmo, houve quem, ao fim de noventa minutos menos conseguidos pela Seleção, parecesse finalmente satisfeito por encontrar no capitão o bode expiatório que tantas vezes procura. É, aliás, secularmente português personificar numa pessoa, ou num grupo em concreto, a razão dos nossos insucessos, numa tentativa de remissão coletiva das responsabilidades de cada um.
Nada há de sacrílego em discutir o papel de Cristiano Ronaldo na equipa. Nenhum jogador, nem sequer o maior de sempre da história de Portugal, pode estar imune à crítica, acima da análise do desempenho individual, do momento de forma ou das necessidades particulares de um jogo. Mas há uma diferença enorme entre discutir com seriedade o seu enquadramento e reduzir o empate com o Congo a uma espécie de plebiscito sobre a sua presença. Isso não é análise, é um ajuste de contas inoportuno e reflexo de uma inveja e mesquinhez, tão típica e constante do ADN português.
Cristiano Ronaldo chega a este Campeonato do Mundo com 41 anos, é verdade. Mas conta também com um registo estatístico que não admite relativizações desprezíveis: 230 internacionalizações, 145 golos pela Seleção Nacional e o estatuto de melhor marcador de sempre do futebol internacional masculino, considerando já o jogo de ontem. Além disso, foi o melhor marcador da Seleção nos jogos da fase de qualificação para o Mundial, com cinco golos marcados em outros tantos jogos. Chega a esta fase final, depois de uma época no Al Nassr em que voltou a marcar quase ao ritmo de sempre, com 28 golos e duas assistências em 30 jogos na liga saudita, números que, em qualquer campeonato, para qualquer avançado e em qualquer idade, seriam recebidos como prova de uma voracidade competitiva rara. Em Ronaldo, paradoxalmente, servem muitas vezes para alimentar a suspeita, como se aquilo que faz aos 41 anos fosse pouco apenas por nos ter habituado ao impossível. Também importa perceber aquilo que a sua presença ainda oferece para lá do golo. Cristiano continua a fixar centrais, continua a condicionar linhas defensivas, continua a obrigar os adversários a olhar para a área de forma diferente, continua a ser também uma referência emocional e competitiva para os companheiros. Pode já não ser o mesmo jogador que arrancava dos corredores, enfrentava sucessivos adversários e rasgava o campo como se o relvado lhe pertencesse por direito divino. Naturalmente não é, a velocidade já não o permite, porque o peso da idade a todos atinge. Mas o Cristiano Ronaldo que hoje joga não deve ser avaliado contra a memória do jogador que foi. Deve ser antes entendido à luz do processo de transformação do seu jogo, fruto do seu esforço e espírito competitivo insaciável, o que permitiu prolongar a sua carreira contra aquilo que seria expetável e natural. Não é mais o jogador de desequilíbrio no um contra um, o jogador das arrancadas e desbloqueador de defesas, passou a ser um finalizador de área, somando golos e assistências que poucos pontas de lança se podem orgulhar de ter nos seus registos individuais. Deve, por isso, Ronaldo ser avaliado pela utilidade concreta que ainda pode entregar a esta Seleção, exercendo esse papel de finalizador de um jogo que, por natureza, é coletivo.
Há neste debate da culpa seletiva uma certa ingratidão geracional que custa aceitar. Cristiano Ronaldo não é apenas um jogador da Seleção. É a maior bandeira desportiva que Portugal alguma vez ergueu no futebol mundial. É o miúdo do Funchal que se transformou em símbolo planetário de exigência, trabalho, ambição e superação. É o jogador que marcou uma era, que arrastou Portugal para palcos onde antes tantas vezes entrávamos sem o merecido respeito pelos outros. Por isso, criticar Ronaldo pode e deve ser admissível, como qualquer outro jogador, desrespeitá-lo é que nunca pode ser aceitável.
A responsabilidade no insucesso, tal qual como no sucesso, deve ser partilhada por todos: responsáveis federativos, selecionador, equipa técnica, jogadores e demais estrutura.
O empate com o Congo serviu de aviso, não foi um veredicto final e como se viu no jogo de ontem bastaram algumas alterações, maior compromisso, outra verticalidade no momento da organização ofensiva e uma atitude competitiva mais assertiva para Portugal deixar de parecer uma equipa prisioneira do seu próprio talento e passar a ser uma equipa capaz de o expressar livremente em campo. Portugal fez, desta vez, aquilo que não fizera no primeiro jogo: entrou para resolver. Não se limitou a circular a bola patenteando uma superioridade inofensiva, procurou ferir o adversário, atacou melhor os espaços e encontrou nos corredores a profundidade que lhe faltara no primeiro jogo.
Não se trata, porém, de passar da depressão ao deslumbramento no espaço de poucos dias. Esse é também um dos nossos defeitos: dramatizamos em demasia o primeiro tropeção e canonizamos em excesso a primeira goleada. Nem uma coisa nem outra. O Campeonato do Mundo é uma competição longa e exigente, feita de momentos e detalhes, onde muitas vezes as seleções campeãs acabam por ser aquelas que crescem dentro da competição. O que aconteceu diante do Uzbequistão foi importante não porque nos garanta coisa alguma, mas porque mostrou capacidade de reação e um notório compromisso coletivo.
Ainda estamos no princípio. Nada se ganhou, mas alguma coisa se reconquistou: confiança, autoridade e sentido de crença.
Vai dar Portugal!