Mourinho: último cartucho?

É adorado em Roma, mas os resultados e as conquistas são uma caricatura daquilo que o Special foi. Tem de voltar a treinar um clube de topo

J OSÉ MOURINHO de novo e sempre noticia. Hoje começa a definir se chega, ou não, a mais uma final europeia ao mesmo tempo que é apontado como possível sucessor de Christophe Galtier no comando técnico do Paris SG. Objetivo? Conquista da tal Champions que não há maneira de cair e que começa a tornar-se uma obsessão do proprietário catari (igual à que povoa os pesadelos dos primos árabes do Manchester City). Uma empreitada para a qual o nome de Mourinho (penta vencedor de competições europeias) faz sentido, claro que faz. Para ganhar o campeonato francês qualquer zequinha serve. A Champions é outra conversa. E como Mourinho até ganhou duas como outsider (FCP e Inter)….

Segundo a Imprensa francesa, o maior defensor da contratação é o português Luís Campos, diretor técnico do PSG, que estará a tratar do assunto com outro português, o superagente Jorge Mendes - é uma casa portuguesa, com certeza. Mourinho não é o único na lista, que tem no mago Zinedine Zidane (francês e único treinador a ganhar três Champions seguidas!...) o candidato favorito dos adeptos parisienses. Naturalmente. Não podemos levá-los a mal.

Para o Speziale, que enfrenta hoje o ex-pupilo Xabi Alonso (foi seu jogador no Real Madrid) num escaldante Roma-Leverkusen (1.ª mão da meia-final da Liga Europa), o final da época apresenta-se espesso e cinzento como por vezes se encontra o céu sobre Roma. A qualificação para a próxima Champions está muito tremida pela via campeonato e parece mais viável através de um triunfo na Liga Europa. Que nunca será fácil, claro. Porque o Leverkusen, 6.º na Bundesliga, quer o mesmo, assim como o Sevilha (11.ª na Liga espanhola) e a Juventus (2.ª em Itália, mas podendo ser penalizada). Os tempos não estão fáceis para a equipa romana, que, afetada por lesões e não tendo, de facto, um plantel tão bom e tão extenso como os do Inter e da Juventus, só para dar dois exemplos, tem, por outro lado, obrigação de produzir mais e melhor do que aquilo que tem apresentado. A Imprensa desportiva italiana, que gosta muito de Mourinho, nunca se esquece de frisar isso. «Mourinho atacou mais os seus dirigentes do que o Inter», dizia a Gazetta dello Sport depois da derrota caseira com a equipa nerazzurra (0-2). «A sua Roma podia jogar muito mais e rosnar menos», lia-se no mesmo jornal.

A queda da Roma para o 7.º lugar do campeonato, o avolumar de derrotas (já são 15 nesta época, o que nunca tinha acontecido na carreira de Mourinho); a intermitência exibicional e as lesões constantes; as fúrias do treinador português com os árbitros e os remoques permanentes à própria societá, sugerem um Mourinho em fim de ciclo num clube no qual é verdadeiramente adorado pelos adeptos - hoje haverá novamente mais de 60 mil no Olímpico a torcer por ele e pelos seus guerreiros.

Veremos o que lhe traz o futuro. Por um lado, acredito que Mourinho esteja ansioso por voltar ao patamar cimeiro (onde o PSG se encontra não por ser uma potência continental ganhadora, antes por força das estrelas que consegue atrair) de onde se afastou a partir do momento em que aceitou baixar de escalão (Tottenham e Roma). Por outro lado, não o estou a ver a ser feliz num clube recheado de vedetas e primas donas (lembrem-se o que sucedeu em Old Trafford…), ele que viveu o seu melhor período quando não havia redes sociais e orientava, não futebolistas milionários mais ou menos caprichosos, mas atletas com vontade de comer o Mundo que morriam por ele se fosse preciso. Nem estou a ver Mourinho aceitar passivamente uma posição de subalternidade perante o imenso poder da estrela Kylian Mbapée - que tem uma palavra decisiva em tudo o que diga respeito à equipa e trata diretamente com o patrão.

Bem sei que a conquista na época passada da Conference League (hierarquicamente a terceira taça europeia, disputada por clubes não muito fortes), foi um lembrete da competitividade europeia de Mourinho, mas esse triunfo foi mais romântico que outra coisa. A realidade, expressa nos números, diz-nos que Mourinho está cada vez mais longe do palco onde devia estar - a Champions League - do fulgor, das performances e das conquistas do seu fabuloso período dourado (2002-2013), no decurso do qual foi, indiscutivelmente, o melhor treinador do Mundo. E não é a treinar Tottenham’s e Romas, por muito carisma que tenha, por muito adorado que seja pelos adeptos, que o nosso Especial voltará ao patamar de onde nunca devia ter descido. Tem de voltar a treinar um clube de topo.
 

Depois de eliminar o Barcelona na fase de grupos e o FC Porto e o Benfica nos oitavos e nos quartos, o Inter adiantou-se ao rival Milan


INTER A CAMINHO DE ISTAMBUL 

B ELA vitória do Inter no dérbi milanês (2-0) ontem, num superlotado San Siro perante um Milan claramente fragilizado com a ausência anunciada de Rafael Leão e a perda por lesão do influente médio Ismael Bennacer logo aos 18 m. Um inicio fulgurante marcado por dois golos em 11 minutos (soberbo aquele desvio de primeira do velho predador Dzeko…) catapultou o exército interista para uma exibição terrivelmente sólida e eficiente. Depois de eliminar o Barcelona na fase de grupos e o FC Porto e o Benfica nos oitavos e nos quartos, o Inter de Simone Inzaghi adiantou-se ao rival citadino e tem a final da Champions à vista - a sexta no historial do clube e a segunda no séc. XXI. Está o Milan arrumado? Não. Estaria se Hakan Çalhanoglu e Matteo Darmian tivessem feito mais dois golos para o Inter - é verdade que, do outro lado, Tonali também queimou uma bola no poste. O jogo da segunda mão é no mesmo estádio e dentro de uma semana Pioli já terá Rafael Leão. Mas não estamos a ver o rochoso Inter consentir a reviravolta.

Em Madrid, festim de futebol entre o monarca reinante e o eterno pretendente numa noite em que o central Rudiger enfiou no bolso o temido Halaand. Já Vinícius e Kevin de Bruyne estiveram à altura das expectativas: os verdadeiros foras-de-série raramente falham nos grandes momentos. Enfim, tudo em aberto. Carlo Ancelotti aponta serenamente a mais uma final e ao penta pessoal, Pep Guardiola tenta pela sétima vez passar do quase ao finalmente. Para o City, é agora ou nunca. Para o rei Madrid, é só mais um dia no escritório.