Mourinho à conversa com Vinícius Júnior na Luz
Mourinho à conversa com Vinícius Júnior na Luz

«Mourinho? É triste. Vinícius é o alvo»

Patrice Evra abriu o livro e recordou ainda a infância difícil

Patrice Evra, antigo lateral-esquerdo do Manchester United e da Juventus, afirma estar mais feliz agora do que durante a sua carreira, período em que sentia a necessidade de esconder as emoções para competir ao mais alto nível. «Quando se joga ao nível certo, somos um monstro, uma máquina. Temos de esconder as emoções. Estamos lá apenas para ganhar», confessou, em entrevista ao The Athletic.

Patrice Evra, antigo capitão do Manchester United, e José Mourinho, ex-treinador do Real Madrid
Patrice Evra, antigo capitão do Manchester United, e José Mourinho, ex-treinador do Real Madrid

Evra abordou o tema do racismo, traçando um paralelo entre o seu caso com Luis Suárez e o recente incidente com Vinícius Júnior, que terá sido alvo de insultos racistas por parte de Gianluca Prestianni, jogador do Benfica, num jogo da Liga dos Campeões contra o Real Madrid. Mourinho apontou para a maneira provocadora como Vinícius festejou o golo.

«É triste. O Vinícius tem de continuar a insistir no assunto. É o alvo, é o que ele sentirá», lamentou Evra. «Quando estas coisas acontecem, sentes uma injustiça porque, mesmo que sejas tu a dizer o que aconteceu, as pessoas acusadas vão fazer-se de vítimas. Foi o que aconteceu com o Luis Suárez e é o que acontece agora com o Vinícius. As pessoas queixam-se mais da atitude dele. Dizem: 'Porque é que ele está a dançar, porque é que está a provocar?'. Dão uma desculpa para uma pessoa o insultar só porque ele dança quando marca um golo».

Recordando o momento em que foi insultado por Suárez em Anfield, Evra descreveu o conflito interno que sentiu: «Foi duro, porque o anjo [na tua cabeça] diz: 'Patrice, não faças nada porque este é um dos maiores jogos do mundo', mas depois tens aquele demónio a dizer: 'Dá-lhe um soco na cara'. Se lhe bates, serás o vilão e darás um mau exemplo. Por isso, tens de te conter. Fiquei muito orgulhoso por não ter reagido.»

Evra esclareceu a sua posição no caso: «Quando defendi o meu caso, disse: 'Não conheço o Luis Suárez suficientemente bem para o chamar de racista'. Apenas disse: 'Naquele momento, usou algumas palavras racistas'. Ganhei o caso. Mas quando joguei contra o Suárez na final da Liga dos Campeões, pela Juventus contra o Barcelona, apertei-lhe a mão.»

A carreira de Evra foi recheada de sucessos, incluindo cinco títulos da Premier League e uma Liga dos Campeões com o Manchester United, dois campeonatos italianos pela Juventus e um total de 12 taças conquistadas em passagens por Inglaterra, Itália e França.

O antigo internacional francês abordou os extremos da sua vida, desde os triunfos desportivos aos traumas pessoais. Evra falou abertamente sobre a sua experiência com o racismo, nomeadamente o incidente com Luis Suárez em 2011, e, enquanto sobrevivente de abuso sexual na infância, destacou a dificuldade que os futebolistas sentem em mostrar vulnerabilidade.

Atualmente, Evra explora o mundo do comentário desportivo e do empreendedorismo. A entrevista decorreu em Phoenix, Arizona, onde participava numa conferência da Pro Athlete Community (PAC), uma rede que liga atletas a executivos e investidores. O antigo jogador revelou ainda ter treinado artes marciais mistas durante cinco horas por dia para um combate amador que acabou por não se realizar. «Não foi para me tornar viral», garantiu. «Gosto da disciplina. As pessoas pensam que é apenas violento, mas é como um jogo de xadrez».

A sua personalidade foi forjada numa infância difícil. Nascido em Dakar, filho de pai senegalês e mãe cabo-verdiana, mudou-se para Bruxelas em bebé e, mais tarde, para os subúrbios de Paris. Cresceu em Les Ulis, o mesmo bairro de Thierry Henry, e foi um de 24 irmãos. «Venho de uma infância dura», afirmou. «Foi aí que construí o meu caráter e a minha personalidade».

Na sua autobiografia, Evra revelou ter sido vítima de abuso sexual aos 13 anos pelo diretor da sua escola. Já no início da carreira, em Itália, enfrentou racismo, com adeptos a fazerem «sons de macaco ou a atirarem bananas» sempre que tocava na bola.

A sua carreira profissional também foi marcada por momentos de tensão. Em 2011, Luis Suárez foi suspenso por oito jogos por insultos racistas. Em 2010, enquanto capitão da seleção francesa, liderou um motim de jogadores contra o selecionador Raymond Domenech durante o Campeonato do Mundo. A sua passagem pelo Marselha terminou abruptamente após ter agredido um adepto que, segundo Evra, teria insultado a sua família.

O antigo jogador admite que, durante grande parte da sua carreira, reprimiu os seus sentimentos, mas que a idade, a paternidade e o casamento com a sua esposa, Margaux, o ajudaram a mudar.

«Digo à minha mulher: ‘Ainda bem que te conheci agora, porque se te tivesse conhecido durante a minha carreira, não teria resultado’. Eu não podia ser mais brando. Tive de ser um animal».

Evra credita a sua esposa por o ter ajudado a lidar com a sua «masculinidade tóxica». «Ela livrou-se de parte da minha masculinidade tóxica. Quando digo isto, ainda precisamos de alguma. Mas ela ajudou-me a ser mais emotivo. Antes, chorar era uma fraqueza para mim. Foi assim que cresci. Tinha muitos traumas, tudo isso guardado. Agora, ao conhecer a pessoa certa e ao abrir-me, sinto-me mais forte e mais feliz».

O francês esperou pelo fim da carreira para falar sobre o abuso que sofreu, pois via a vulnerabilidade como um defeito no desporto. «É um mundo tóxico no desporto. Nem sequer se pode dizer que se está triste», explicou, citando uma entrevista de Thierry Henry sobre depressão. «Tenho muitos amigos que estiveram em depressão, mas para mim isso teria sido um luxo. Não me podia dar ao luxo de estar deprimido; tinha de liderar uma equipa».

Patrice Evra, antigo internacional francês, abordou a mudança de mentalidades no futebol, criticando o que considera ser um excesso de apoio e de distrações para os jogadores mais jovens, ao mesmo tempo que refletiu sobre o racismo no desporto, recordando o seu caso com Luis Suárez e o mais recente envolvendo Vinícius Júnior.

O antigo jogador recordou um episódio em que os seus colegas de equipa se riram por um jogador chorar a ver um filme, ilustrando a antiga cultura do futebol.

Apesar de reconhecer a necessidade de evolução, Evra teme que a mudança tenha ido longe demais. «A nova geração teve demasiada ajuda», afirmou. «Agora há demasiadas desculpas. Têm ajuda psicológica, ajuda social, nós não tínhamos isso. Respeito isso, mas às vezes é demais. Às vezes, é preciso ir contra a parede para nos tornarmos mais fortes», acrescentou.

O francês também se mostrou cético em relação ao peso excessivo da tecnologia: «Não tínhamos todas estas análises. Agora há um tipo com o seu computador e sentes que ele é mais inteligente que o treinador. Fico feliz por usar a tecnologia, mas a tecnologia não pode vir antes do lado humano.»

Evra, que se retirou em 2019, observou uma mudança nas prioridades dos jogadores. Segundo ele, os atletas de hoje têm mais interesses fora do campo, desde moda a política, o que os distrai do foco principal. «É a geração TikTok. Antes, éramos jogadores de futebol a tempo inteiro, comíamos e dormíamos futebol. Agora são atletas. Um atleta é diferente de um jogador de futebol. São modelos, estão na moda, são políticos, são rappers. São tantas as distrações. Mas não os culpo», explicou.

Contudo, esta mudança, na sua opinião, tem consequências no rendimento. «Não se terá o mesmo resultado. Não se terá um jogador como Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo com tantos anos de consistência. Para estes jovens jogadores, vão ter duas ou três épocas [fantásticas] e depois acabam, porque o futebol não é [sempre] a prioridade. Mas dizer isto não é culpá-los. É a sociedade. É o mundo a mudar», analisou.

Patrice Evra, antigo lateral do Manchester United, partilhou várias memórias do seu tempo no clube, desde a sua relação paternal com Sir Alex Ferguson até às dolorosas derrotas na Liga dos Campeões e à controversa saída de Carlos Tevez.

A relação entre Evra e Ferguson perdura, com o francês a descrevê-la como uma ligação de «pai e filho», revelando que ainda falam algumas vezes por mês. Num encontro recente no Dubai, Evra chegou atrasado e encontrou Ferguson a apontar para o relógio, um gesto típico do treinador. «Eu disse: 'Chefe, chamo-lhe chefe por respeito, mas já não é o meu chefe, por isso, acalme-se!'».

O antigo internacional francês recordou um episódio marcante antes da meia-final da Liga dos Campeões de 2008, contra o Barcelona, que ilustra bem a gestão de Ferguson. O treinador escocês colocou toda a pressão sobre Evra, que iria defrontar Lionel Messi.

«Ele disse: 'Rapazes, este é um jogo importante, mas se perdermos, vou culpar o Patrice Evra'». Evra confessou o nervosismo, mas o plano resultou. «Graças a Deus, correu muito bem. Depois da primeira mão, pude ver nos olhos do Gary Neville e dos outros jogadores o respeito. 'Agora temos um lateral'. Era assim que Sir Alex Ferguson geria as pessoas e as personalidades».

Outro momento doloroso foi a transferência do seu amigo Carlos Tevez para o rival Manchester City, no verão de 2009. «Foi doloroso, pá. Partiu-me o coração. Não conseguia acreditar», afirmou Evra, que ainda mantém contacto com o argentino e com o ex-colega Park Ji-sung.

A mudança ocorreu após a final da Liga dos Campeões perdida para o Barcelona, na qual Tevez não foi titular e teve um desentendimento com Ferguson. «O Tevez dizia: 'Não me ofereceram nada'. Vi a notícia nas férias. O Tevez vai para o Manchester City. Liguei-lhe e disse: 'Vou matar-te, vou partir-te as pernas, Carlito'», recordou. «Foi difícil de engolir. Mas acho que foi uma vingança a Sir Alex Ferguson. Sentimo-nos traídos, mas ele ainda é meu irmão. Temos de respeitar a sua escolha.»

Sobre essa final de 2009, em Roma, perdida por 0-2, Evra atribui a derrota à «arrogância» da equipa do United, que procurava o segundo título europeu consecutivo. «E coloco-me em primeiro lugar nisso. Não devíamos ter sido arrogantes. Fomos demasiado confiantes. Pensávamos: 'O Barcelona não tem hipótese de nos vencer'. Lembro-me que, mesmo depois do jogo, ainda pensava que estava a sonhar. Eles cilindraram-nos».

Dois anos depois, em 2011, a história repetiu-se em Wembley, com uma vitória ainda mais dominante do Barcelona de Pep Guardiola por 3-1. No entanto, para Evra, essa final teve um significado diferente. «A maior história foi o Eric Abidal. Ele é como um irmão para mim. Tinha recuperado de um cancro», explicou: «É a única final que perdi em que sorri. Vi o Eric levantar o troféu e isso foi maior do que a final da Liga dos Campeões. Claro que fiquei desapontado, mas a minha mente não estava [apenas] no campo naquela final.»

A reforma de Sir Alex Ferguson em 2013 foi um choque total para o balneário. «Não conseguia acreditar, porque uma semana antes fui ao escritório dele e ele disse: 'Patrice, 99 por cento, o Cristiano Ronaldo vem e vou trazer também o Gareth Bale. E aquelas pessoas que pensam que me vou reformar? Vou reformar-me talvez quando tiver 100 anos'», contou Evra. O anúncio foi uma surpresa. «Lembro-me de ir para casa com o carro em piloto automático. Tivemos uma reunião no balneário e o Ferguson não estava de fato de treino. Pensei: 'Isto são más notícias'. Ele disse que se ia reformar. Mas eu ainda pensei que era uma piada».

Questionado sobre o declínio do clube, Evra considera que a sucessão foi mal gerida. «Depois do melhor treinador do mundo, seria sempre um trabalho difícil. Fizemos algumas contratações desastrosas. O David Moyes veio; talvez o fato fosse demasiado grande para ele. Tem sido doloroso ver o United», lamentou, embora veja com esperança o trabalho do seu ex-colega Michael Carrick. «Agora, com o Michael Carrick, pelo menos podemos sonhar com um lugar na Liga dos Campeões. É muito difícil dizer isto, porque quando eu estava no United, o objetivo — não o sonho — era ganhar quatro troféus por época».

A questão sobre a continuidade do atual treinador foi abordada, com a resposta a focar-se no presente e na necessidade de garantir a qualificação para a Liga dos Campeões.

«Estou a viver o presente. Ele precisa de se qualificar para a Liga dos Campeões. Algumas pessoas dizem que ele não tem experiência. Mas já fizemos isso no passado. Trouxemos o Mourinho, trouxemos o Louis van Gaal, trouxemos o Ruben Amorim e não funcionou. Agora está a funcionar, por isso, vamos ver!», atirou.