Marítimo fez esta época a festa do regresso ao principal escalão do futebol português - Foto: Imago
Marítimo fez esta época a festa do regresso ao principal escalão do futebol português - Foto: Imago

Regresso dos clubes-alma

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Duarte Chastre, consultor de comunicação

Para começo de conversa: o Marítimo (campeão da Liga 2) e Académico de Viseu estão de volta ao patamar superior do nosso futebol. O Torreense vai jogar as decisões da que pode ser a época mais histórica do clube: potencial regresso à Primeira Liga no play-off contra o Casa Pia e um pitstop no Jamor para defrontar o Sporting na final da Taça. Coisa pouca! Descendo um escalão, a luta pelos lugares de acesso ao futebol profissional foi até ao fim e coroou o Amarante com o troféu de vencedor da Liga 3 e a Académica a carimbar um regresso histórico às competições tuteladas pela Liga. Já o Belenenses vai repetir a dose do ano passado, defrontando desta vez o Farense no play-off pela presença na Segunda Liga na próxima temporada. Mais um duelo decisivo e a valer muito entre dois velhos conhecidos.

E, no meio deste movimento de recuperação de identidade do nosso futebol, há ainda espaço para uma nota que merece aplauso: o regresso do Vitória de Setúbal — perdoem-me os sadinos pela designação inevitável — ao Campeonato de Portugal. Um clube que caiu ao fundo do poço por razões administrativas e financeiras, mas que vai dando sucessivas provas de resiliência, sobrevivência e resistência comunitária. Esperemos que nunca mais precise de voltar tão abaixo por motivos que nada têm que ver com o que acontece dentro das quatro linhas.

E pergunta o leitor: o que nos traz de diferente esta informação? Na era dos clubes cada vez mais descaraterizados, sem identidade reconhecida e com incapacidade de cativar público, estas subidas surgem como novo alento para o futebol português, especialmente integradas na urgência de valorização do produto na ótica da discussão da centralização dos direitos televisivos. É diferente comercializar um modelo de entretenimento que ofereça um Caldeirão dos Barreiros cheio, fervoroso e emocionalmente ligado à sua equipa do que uma Vila das Aves ou Rio Maior às moscas, em estádios despedidos de identidade e sem ligação territorial forte. O Marítimo dispensa grandes apresentações. O futebol português precisa da Madeira e a Madeira precisa do Marítimo na Primeira Liga. A capacidade mobilizadora do clube traz à nossa praça algo que não é fabricável artificialmente em departamentos de marketing. Como dizem os catalães sobre o seu Barcelona, é mais que um clube.

É também relevante a possibilidade da Liga poder contar a história de um regresso histórico — e já merecido há muito —, como o do Académico de Viseu, representante de uma zona tantas vezes negligenciada pelo país político e desportivo. Há uma cidade inteira mobilizada em torno de um clube e isso vale ouro numa indústria que precisa desesperadamente de autenticidade. Já a alegria contagiante da época do Torreense, que pode juntar ao Jamor a 8.ª presença na primeira divisão, onde não anda desde 1992, é a prova de que temos excelentes histórias para vender fora do radar habitual dos clubes de sempre que pautam a narrativa dominante. Qualquer campeonato inteligente tem aqui a hipótese de transformar estas histórias em conteúdos com valor mediático e que catapultem a dimensão triangular de como nos tentamos vender.

Quando olhamos para a Liga 3, é inevitável elogiar o trabalho tremendo da FPF na valorização e remodelação das divisões não profissionais do nosso futebol. É uma ideia de sucesso e que tem vindo a ser constantemente aprimorada, com transmissões televisivas de qualidade e a introdução do VAR no Apuramento de Campeão. Amarante, Académica e Belenenses foram os maiores protagonistas desta temporada e chamam à vista pelas molduras humanas que apresentam nos seus jogos. Hoje, existe uma realidade competitiva muito mais apelativa e isso reflete-se no público, no interesse e no envolvimento das comunidades. O Amarante é a prova de que vale a pena acreditar no crescimento sustentado em contraposição com megalomanias disfarçadas de promessas de sucesso. É um percurso que une o melhor que a gestão desportiva tem para oferecer.

Descendo no mapa de Portugal Continental, a Briosa acabou de bater o recorde de espectadores da Liga 3, com 26.356 adeptos presentes no Municipal de Coimbra. É uma casa que faz corar de inveja aos clubes da Primeira Liga e permite um movimento de união da cidade dos estudantes à volta do clube como já não se via há muito. Há poucos fatores tão fortes e essenciais como a simbiose clube-cidade e não há nada de que a indústria precise mais neste momento.

O que une todos estes exemplos é a porta que se abre para funcionarem como válvulas de escape à estagnação do crescimento do nosso futebol. É preciso que os protagonistas e decisores assim o saibam aproveitar. Temos matéria-prima e um país que verdadeiramente vive para o futebol. É o desporto-rei, rainha, príncipe e princesa. Por isso, há que saber capitalizar estas oportunidades em que o relvado é justo perante as comunidades que mais sentem esta paixão.

O futebol português tem passado demasiado tempo focado apenas em ativos financeiros, mercados externos e negociações comerciais, esquecendo-se frequentemente de que o seu maior ativo continua a ser emocional. São estes clubes-alma que alavancam o setor. São estes contextos que criam melhores transmissões televisivas, melhores ambientes, melhores conteúdos digitais e maior ligação entre adeptos e competição.

Todos os players envolvidos têm aqui uma oportunidade rara. É preciso transformar estes regressos em motores de crescimento estrutural. Contar histórias, mostrar cidades e criar conteúdos à volta das comunidades, dos adeptos, da cultura local e da história dos clubes. Portugal tem isso em abundância, só falta muitas vezes saber aproveitá-lo.

Ainda quero acreditar que é possível trabalhar-se em prol de um dos setores que mais contribuí para a internacionalização do nosso país. Vivemos num tempo de decisões estratégicas que irão marcar se nos vamos aproximar das Big-5 ou mirrar progressivamente para a expressão intermédia semelhante à Bélgica, Escócia ou Turquia. Estes clubes fazem-me acreditar que temos as condições para concretizar um futuro mais risonho. Parabéns a todos por esta bela época. Agora, a bola está nas mãos de quem decide.

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