Santi Garcia foi um dos protagonistas da grande época do Gil e falou a A BOLA - Foto: Imago
Santi Garcia foi um dos protagonistas da grande época do Gil e falou a A BOLA - Foto: Imago

Foi comparado a Fabián Ruiz e brilha em Barcelos: «Gil Vicente quer estar lá em cima»

Galos não chegaram ao 5.º lugar, mas campanha foi fantástica. Em entrevista a A BOLA, Santi Garcia conta que o projeto passa por continuar em alta. O espanhol fala das suas raízes, das comparações do Fabián Ruiz, e do salto para Portugal

Santi Garcia, médio espanhol que chegou a ser comparado a Fabián Ruiz no início da carreira, faz um balanço positivo da época do Gil Vicente, sublinhando o «orgulho» pelo trajeto, apesar do «sabor amargo» por ter falhado a qualificação europeia. Em entrevista a A BOLA, o jogador destaca a consistência exibicional da equipa e acredita na continuidade do crescimento, garantindo que o projeto gilista «é de longo prazo» e aponta à afirmação entre os melhores nos próximos anos.

— Que balanço faz da época do Gil? Ficou frustração ou orgulho pelo 5.º lugar?

— Creio que, no geral, temos de estar orgulhosos de tudo o que fizemos do princípio ao fim. É verdade que fica um sabor amargo, porque estávamos a lutar por chegar à Europa, mas foi uma temporada em que deixámos uma marca importante, com jogos muito bons. Temos de estar orgulhosos.

— O Gil Vicente pode manter este nível?

— Acho que sim. Não é apenas um projeto de um ano, é um projeto de longo prazo. O clube quer estar lá em cima durante muitos anos e continuar a crescer, ser sempre forte. Houve um avanço muito importante e tenho total confiança.

Conte-nos o seu percurso. Começou num clube de Madrid chamado Trival Valderas, certo?

— Cheguei ao Trival Valderas com 12 anos, após passar pelo Atlético de Madrid em pequeno, na escola e na cantera. Estive até aos 18 nesse clube pelo qual tenho um carinho enorme. Jogava com amigos e não pensava em dar grandes saltos. Nunca imaginei jogar na I Liga, em estádios como os do Benfica, Porto ou Sporting. É quase um sonho cumprido. Depois fui para a filial do Getafe durante quatro anos e surgiu a oportunidade de vir para Portugal. Foi algo bonito e não pensei duas vezes.

Cheguei ao Trival Valderas com 12 anos, após passar pelo Atlético de Madrid. Estive até aos 18 nesse clube pelo qual tenho um carinho enorme. Jogava com amigos e não pensava em dar grandes saltos. Nunca imaginei jogar na I Liga, em estádios como os do Benfica, Porto ou Sporting

— Quando sentiu que podia viver do futebol?

— Na primeira época no Getafe B não joguei tanto, mas na segunda comecei a ter mais responsabilidade e a jogar bem. Depois tive uma lesão, mas voltei mais forte na época seguinte, que foi especial: fizemos play-off e subimos de divisão. Aí senti que podia viver do futebol. Continuei a trabalhar sempre com máxima exigência.

No Getafe B tive uma lesão, mas voltei mais forte na época seguinte, que foi especial: fizemos play-off e subimos de divisão

Que tipo de líder era no Getafe B?

— A partir do terceiro ano era capitão ou subcapitão. Sempre fui alguém que se dá bem com toda a gente, gosto de brincar, criar bom ambiente no balneário. Aqui também sou assim. Estar feliz no dia a dia é muito importante.

A lesão em 2022 foi o momento mais duro?

— Foi duro porque estava no meu melhor nível. Lembro-me que vinha de um jogo contra o Atlético B em que ganhámos 3-2 e fiz três assistências, e dias antes tinha estado com a primeira equipa na Taça do Rei. Mas não fui abaixo. Trabalhei para voltar mais forte.

Estreia contra o (super) Girona

A estreia na La Liga foi contra um Girona cheio de vedetas, com Blind, Aleix García, Tsygankov, Yangel Herrera, Savinho, entre outros. Que lembranças tem desse jogo?

— Lembro-me bem. Fui convocado primeiro contra o Barcelona, mas não joguei. Depois, contra o Girona, entrei na segunda parte. Em poucos minutos sofremos dois golos e depois chamaram-me. Foi um sonho. Estar ali dentro, foi incrível, mesmo com a derrota. O Girona jogava muito, mesmo, é algo que vou recordar para sempre.

Como foi a decisão de vir para Portugal?

— Já no inverno tinha havido conversas. Quando acabou a época, não hesitei. Falei com referências como Fran Navarro e percebi que era uma boa oportunidade. Queria dar esse salto e viver uma experiência diferente.

Quando acabou a época, não hesitei. Falei com referências como Fran Navarro e percebi que era uma boa oportunidade

Teve receio de sair da tua zona de conforto?

— Não. Vivia ainda com os meus pais, Getafe era perto de casa, mas sentia que precisava de mudar, de desafiar-me. Foi um desafio que me motivou ainda mais para demonstrar a minha qualidade.

Como é viver sozinho em Barcelos?

— É um processo, mas corre bem. Os meus pais e irmã vêm muitas vezes aos fins de semana.

— Chegou-se a falar do interesse de clubes como Real Madrid e Atlético quando estava no Getafe B. Essas notícias chegaram até si? Levou-as isso a sério?

Os rumores em Madrid

— Sim, tive conhecimento dessas notícias quando estava no Getafe. Naturalmente, fico contente por ver o meu nome associado a clubes dessa dimensão, até porque são dos maiores de Madrid. No entanto, nunca houve qualquer contacto concreto ou proposta formal, por isso também nunca encarei isso como algo real. Estava feliz e focado no Getafe, e não fazia sentido pensar em cenários que não passaram de rumores.

— Em Espanha foi comparado ao Fabián Ruiz. Gosta dessa comparação?

— É uma comparação que me deixa orgulhoso, sem dúvida. Estamos a falar de um dos melhores médios espanhóis, um jogador que foi titular numa seleção campeã da Europa e que está num clube de topo como o PSG. Fico muito satisfeito por ser associado a esse nível. Ainda assim, acredito que cada jogador tem a sua identidade própria. Gosto da comparação, mas quero afirmar-me sendo eu mesmo, o Santi.

[Comparação a Fabián Ruíz] Estamos a falar de um dos melhores médios espanhóis, um jogador que foi titular numa seleção campeã da Europa e que está num clube de topo como o PSG. Gosto da comparação, mas quero afirmar-me sendo eu mesmo, o Santi.

— Esta época teve bons números, com seis golos e três assistências. Sente que podia ter marcado mais, dado que aparece bem em zonas de finalização?

— Estou satisfeito com a evolução que tive ao longo da época, mas, ao mesmo tempo, sou bastante exigente comigo próprio e sinto que podia ter feito mais, sobretudo em termos de golos. Tive oportunidades para aumentar esses números. Ainda assim, não olho apenas para golos e assistências: sinto que dei um salto no meu jogo e tive mais impacto na equipa. Para a próxima época, o objetivo é claro — continuar a crescer, melhorar os números e ajudar ainda mais a equipa.

Para a próxima época, o objetivo é claro — continuar a crescer, melhorar os números e ajudar ainda mais a equipa.

A renovação até 2028 foi um sinal de que este é o clube indicado para continuar a crescer?

— Sim, sem dúvida. Desde que cheguei, senti-me muito bem no clube, quase como se estivesse em casa. Este ano ainda reforçou mais esse sentimento, não só pelos resultados em campo, mas também pelo grupo humano que temos, que é excelente. Foi uma época muito positiva a todos os níveis, e por isso estou muito feliz por continuar aqui.

Vê o Gil Vicente como uma plataforma para dar o salto para clubes maiores?

— Neste momento não penso dessa forma. Tenho contrato até 2028 e estou muito feliz no Gil Vicente. Sinto-me valorizado e grato pela forma como fui recebido e tratado desde o primeiro dia. A época foi muito exigente e intensa, por isso agora quero sobretudo descansar, desligar um pouco do futebol e preparar-me bem para a próxima temporada.

O salto de Pablo para a 'Premier'

Como viu a transferência do Pablo para a Premier League por cerca de 20 milhões?

— Acho que é um reflexo claro do trabalho que o Gil Vicente tem vindo a fazer, o que fez com que o clube ganhasse respeito, inclusive a nível internacional. Em relação ao Pablo, fiquei com pena que tenha saído, porque era um jogador muito importante para nós, mas ao mesmo tempo fiquei muito feliz por ele. Merece tudo o que está a alcançar, não só pelo jogador que é, mas também pela pessoa, ele é incrível. Acompanhei-o durante a época e vou continuar a fazê-lo.

Se pudesse falar com o seu ‘eu’ mais novo, o que lhe diria?

A criança Santi diria ao mais velho para continuar a desfrutar do futebol como fazia naquela altura, sempre com um sorriso, independentemente das dificuldades

— Dir-lhe-ia, antes de mais, para estar muito orgulhoso do caminho que percorreu e do que conseguiu alcançar até agora. É algo que sempre sonhou, mas que, enquanto miúdo, parecia distante. Já a criança Santi diria ao mais velho para continuar a desfrutar do futebol como fazia naquela altura, sempre com um sorriso, independentemente das dificuldades. Que continue a ser ele próprio, porque isso é fundamental, e que nunca deixe de acreditar — porque é quando desfrutas verdadeiramente que as coisas acabam por correr melhor.

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