Messi é atirado ao ar pelos colegas, no final do jogo - Foto: IMAGO

Messi vai ao ar numa reviravolta para a história (crónica)

Argentina esteve a perder por 0-2 aos 67', mas em 13 minutos os campeões do mundo deram a volta. Messi, que falhara um penálti na primeira parte, assistiu e marcou. Enzo fez o terceiro. No final, lágrimas de alegria

Haveria várias formas de ilustrar uma reviravolta que ficará nos anais dos Campeonatos do Mundo, mas ver Lionel Messi atirado ao ar pelos seus colegas ainda a equipa festejava a gesta de Atlanta é mais uma prova de como funciona esta Argentina: uma equipa de processos simples, mas de coração gigantesco e ancorada na sua maior estrela, que mesmo nos momentos maus continua a ser amparada para depois fazer aquilo que sabe melhor do que qualquer outro: decidir.

Aos 67', pela cabeça do senhor oito Bolas de Ouro deve ter passado uma carreira inteira em flash: de repente, a Argentina via-se a perder por 0-2 numa partida em que o jogador do Inter Miami falhara um penálti na primeira parte e talvez recuperando traumas de um passado pré-Scaloni que inclusive fizeram-no pensar deixar a seleção.

Foi real, de facto: os campeões do mundo em título correram o risco de serem eliminados pelo Egito, que se estreava nos oitavos de um Mundial. Roçaria o escândalo. Por alguma culpa própria, mas fundamentalmente pelo mérito de Salah e companhia, que fez um jogo muito competente, marcado por uma extraordinária eficácia.

A Argentina apresentou-se com quatro médios centro e deixando Lautaro no banco e apostando em Julián Álvarez. Esta é a forma de permitir que Messi não defenda, caminhe em momentos de transição defensiva ou quando em posse nos primeiros dois terços do campo. É tudo claro: o esquerdino está ali para soltar o génio numa espécie de meia lua imaginária, com liberdade para andar da esquerda para a direita, qual limpa pára-brisas. Mas ali, quando tem a bola, acelera ele e acelera o jogo.

Mas nem sempre a tática correu bem. O Egito estava sólido e esticava o jogo pelos seus extremos, com bom toque de bola e combinações assertivas. Num dos vários cantos conquistados, os faraós criaram uma jogada de laboratório com conclusão, de cabeça, de Yasser Ibrahim, aos 15'. A surpresa instalava-se mais ainda com o penálti de Messi defendido por Shobeir, três minutos depois, a castigar falta cometida sobre Tagliafico, o lateral mais ofensivo dos sul-americanos.

Mesmo sem sufocar o adversário, a alviceleste criou momentos de perigo, obrigando o guardião dos africanos a intervenções de elite, uma delas soberba, a remate de Álvarez na pequena área. Mas de repente chegava o intervalo para deixar os argentinos incomodados, que mais ficaram na segunda parte com as transições rápidas do Egito, que primeiro redundaram num golo anulado a Ziko por falta sobre Lisandro no início da jogada (58') e depois o avançado com nome de craque brasileiro a fazer o 2-0 num contra-ataque para os livros.

Mas a Argentina nunca entrou em pânico. Scaloni alargou a frente de ataque, entrando Nico González e Lautaro. E mesmo antes de sair, o central Romero cabeceou para o 1-2, após cruzamento largo de Messi. Não haveria argentino que não acreditasse pelo menos no empate. Mas há um que terá acreditado ainda mais: na zona da tal meia lua imaginária, Messi foi rápido como uma bala a pensar e executar um vólei para o 2-2, a bola a tocar ainda nas mãos de Shobeir, desta vez incapaz de roubar o sonho de La Pulga.

E quando o prolongamento pairava no ar, e aproveitando o balanceamento do Egito, que acreditou poder vencer, Lautaro Martínez foi lançado em profundidade e cruzou largo para Enzo Fernández ganhar as costas a Ibrahim, o central que havia inaugurado o marcador, para concluir uma reviravolta que será recordada por muitos pibes que andam pelas ruas da Argentina a dar uns pontapés numa bola e sonharem ser como Messi, que no final do jogo chorou como uma criança, um daqueles momentos que devolvem o futebol à sua mais pura essência.

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