Cristiano Ronaldo frustrado pelo adeus precoce no seu último Mundial
Cristiano Ronaldo frustrado pelo adeus precoce no seu último Mundial - Foto: IMAGO

Será Cristiano Ronaldo o símbolo que desafia a estratégia?

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de João Rodrigues dos Santos, professor de Economia do Desporto e Coordenador Científico da área de Economia e Gestão da Universidade Europeia

O futebol é um dos poucos lugares onde a emoção e a economia se encontram sem pedir licença uma à outra. Noventa minutos podem decidir um campeonato, mas também podem influenciar a perceção de um país inteiro. É por isso que algumas decisões ultrapassam o relvado. Tornam-se escolhas sobre identidade, prestígio e visão estratégica.

Cristiano Ronaldo chegou ao Mundial de 2026 com 41 anos. Independentemente do juízo que cada um faça sobre o seu rendimento desportivo, existe uma realidade impossível de ignorar: Ronaldo continua a ser uma das marcas pessoais mais poderosas do planeta. O seu nome continua a projetar Portugal para milhões de pessoas que talvez nunca visitassem o nosso país, nunca investissem nele ou nunca lhe dedicassem um segundo de atenção.

Mas será que uma seleção nacional deve privilegiar o valor simbólico de uma figura quando isso pode comprometer o equilíbrio competitivo da equipa?

É aqui que o futebol deixa de ser apenas futebol.

Uma equipa moderna vive da coordenação. Não basta ter excelentes jogadores; é necessário que todos desempenhem funções compatíveis com as exigências do jogo contemporâneo. A pressão sobre a saída de bola do adversário deixou há muito de ser uma opção. É uma necessidade. Quando um elemento já não consegue executar essa tarefa com a intensidade exigida, alguém terá inevitavelmente de compensar esse défice.

Essa compensação tem custos.

Quando um médio abandona a sua posição para pressionar, abre espaço nas costas. Quando regressa em esforço, acumula desgaste físico. Quando este processo se repete dezenas de vezes durante um jogo e ao longo de uma competição, a fadiga deixa de ser um detalhe. Passa a fazer parte da estratégia... ou da ausência dela.

Mesmo o melhor meio-campo do mundo na atualidade (Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes) acaba por perder parte da sua eficácia se for obrigado a resolver problemas que, em condições ideais, não lhe pertenceriam.

Ainda assim, reduzir esta questão a uma análise de natureza tática talvez seja demasiado simples.

A verdadeira pergunta é outra.

Qual é a missão de uma seleção nacional?

Será apenas vencer jogos? Ou representar um país em toda a sua dimensão?

Vivemos numa época em que as nações também competem através da reputação. A confiança dos investidores, o turismo, a atração de talento e até a influência diplomática são moldados por ativos intangíveis. A imagem tornou-se um recurso económico.

Nesse contexto, Cristiano Ronaldo representa muito mais do que um avançado. É um embaixador global cuja notoriedade gera valor para Portugal muito para além do futebol. A sua presença mantém o país no centro da conversa mundial e reforça uma marca nacional construída ao longo de décadas.

É impossível medir com rigor quantos investimentos, oportunidades ou relações económicas nasceram, direta ou indiretamente, dessa exposição global. Mas seria ingénuo acreditar que esse impacto não existe.

E é precisamente aqui que surge o verdadeiro dilema filosófico.

Devemos avaliar uma decisão apenas pelos seus resultados imediatos ou pelo valor global que produz?

Se uma escolha diminui a probabilidade de conquistar um troféu, mas fortalece a projeção internacional de um país, estaremos perante uma má decisão ou apenas perante uma decisão com objetivos diferentes?

A filosofia ensina-nos que nem todas as escolhas podem ser classificadas em "certas" ou "erradas". Muitas são, simplesmente, conflitos entre dois bens legítimos.

Ganhar.

Ou representar.

Eficiência.

Ou simbolismo.

Presente.

Ou legado.

Talvez nunca exista consenso sobre a utilização de Cristiano Ronaldo numa fase tão avançada da carreira. E talvez isso seja saudável. As sociedades evoluem precisamente porque discutem os critérios das suas escolhas.

No fundo, o debate nunca foi apenas sobre um jogador.

Foi sempre sobre uma pergunta muito maior.

Quando uma marca se torna maior do que o próprio sistema que a criou, quem deve adaptar-se a quem: o sistema à marca ou a marca ao sistema?

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