Pedro Neto abordou a amizade com o compatriota, já desde os tempos do Minho

Mais confortável à direita, as asneiras com Trincão, a obsessão de Ronaldo e ser o mais bonito: tudo o que disse Pedro Neto

«Ninguém tem um papel de titular garantido na equipa, mas todos têm um papel importante», diz Pedro Neto. Relativamente ao capitão, admite: «O Cristiano é realmente muito importante para nós, mas acho o termo ‘dependente’ demasiado forte, embora saibamos que, se criarmos as condições para ele finalizar, a probabilidade de ganhar é muito alta»

- Assistência no primeiro jogo, titular nos dois. É este o momento físico e mental ideal para explodir definitivamente neste torneio e logo no jogo frente à Colômbia?

- Primeiro de tudo, queria deixar uma palavra de solidariedade ao povo da Venezuela, devido ao que aconteceu, às suas famílias e às vítimas, até porque temos lá uma grande quantidade de portugueses. Respondendo à sua pergunta, espero que sim, espero que possa explodir. As coisas têm corrido bem, tanto à equipa como individualmente. Estou aqui para ajudar e espero que seja esse o momento. Precisamos de um jogo importante para passarmos no primeiro lugar e quero aproveitar essa oportunidade para ajudar a equipa, se for chamado para jogar, para que possamos passar na liderança.

- Como está a viver o seu sonho de estar num Mundial?

- É um motivo de orgulho, sem dúvida um sonho de criança. Infelizmente falhei o Mundial de 2022, por isso estou aqui com toda a energia e com todo o meu querer. Quero aproveitar este meu primeiro Mundial para fazer coisas bonitas e, acima de tudo, tentar levar a Taça para Portugal, que é o nosso grande objetivo.

-O Pedro costuma jogar mais do lado esquerdo do ataque, mas neste último jogo apareceu à direita. Em qual das duas posições se sente mais confortável?

- Já no clube tenho muito essa polivalência. Aqui na seleção, o Mister também me tem utilizado muitas vezes nas duas bandas. Sinceramente, sinto-me mais confortável à direita, mas acho que durante a minha carreira até joguei mais à esquerda. Em qualquer posição sinto-me confortável, quero ajudar a equipa, quero estar no meu melhor e é nisso que me tento focar sempre.

-O Pedro tem sido titular. Gostava de lhe perguntar se esse estatuto de titular existe na seleção ou se aquilo que o selecionador vos transmite é que todos são potenciais titulares e, por isso, têm de estar preparadíssimos a todo o momento?

- Desde que o Mister está aqui, ficou claro que qualquer jogador pode jogar a titular. O Mister tem mostrado que faz muita rotatividade na equipa e todos os jogadores estão prontos para jogar. É isso que todos têm em mente: ninguém tem um papel de titular garantido na equipa, mas sim todos têm um papel importante. É uma característica forte deste grupo: todos sabem que podem jogar e que podem ajudar. É com essa mentalidade que temos de seguir no torneio.

-O Pedro e o Trincão cresceram juntos no Minho, partilharam o balneário no Braga, no Vianense e, mais tarde, no Wolverhampton. O que é que mudou ao longo destes anos? Quando se juntam continuam a ser aqueles meninos

- Não se trata de ser rivais, é uma competição saudável. Eu e o Trincão já no Braga nos dávamos muito bem, partilhávamos a mesma carrinha e partilhávamos boas histórias. Sempre que estou com ele sei que é para rir; não consigo estar ao lado dele sem estar a fazer asneiras. É essa competição saudável que temos aqui na seleção. Nós os dois sabemos que queremos jogar e trabalhamos para isso, mas, acima de tudo, estamos aqui para ajudar a seleção e isso é o mais importante.

- Depois do primeiro jogo, a mensagem era reagir. No segundo jogo, após a vitória contra o Uzbequistão, vem a Colômbia, com vários jogadores que conhecemos bem do contexto do futebol português. Como olham para esse adversário e qual é a palavra-chave destes dias de trabalho para o terceiro jogo?

-Sabemos que vamos defrontar um adversário que ficou fora do Qatar, mas que está bem, tem uma boa equipa e foi finalista na Copa América. A palavra-chave acho que é a resiliência, à qual acrescento o trabalho. É isso que nós temos feito: temos sido resilientes e temos trabalhado muito. Para o jogo contra a Colômbia, essa também é a chave, sabendo que é uma equipa sul-americana muito batalhadora, muito forte nesse aspeto, e nós temos de igualar ou superar esses pontos.

- Como olha para a situação de Portugal no grupo? Já por diversas vezes se demonstrou que ficar em primeiro lugar nem sempre acaba por ser o melhor caminho. Vocês já olham para a frente, para possíveis cenários e adversários, ou o foco é só ficar em primeiro e depois logo se vê?

- Sendo sincero, às vezes nós olhamos para as situações que podem acontecer. Estaria a mentir se dissesse que não olhamos para o que poderia acontecer caso ficássemos em segundo ou em terceiro. No entanto, sendo portugueses, a mentalidade que nós temos é sempre a de querer ser os melhores. Vamos encarar a Colômbia para ficar em primeiro, independentemente do que possa acontecer nos outros grupos. A nossa mentalidade é fazer um grande jogo e acabar em primeiro lugar.

- O Cristiano Ronaldo foi o primeiro a chegar aos 6 golos em Mundiais e disse que estava de volta após momentos um bocadinho difíceis. Como é que viveram esse momento do Cristiano? 

-Foi óbvio que o grupo ficou contente por ele. Sabemos que ele vive de golos e é obcecado por isso, por isso o grupo fica feliz. Gostamos de ver sempre os melhores a fazer aquilo que mais gostam. 

-O Pedro foi eleito nas redes sociais um dos jogadores mais bonitos deste Mundial. Isso é tema de brincadeira entre o grupo?

-Acho que não é motivo de admiração, é uma coisa completamente normal. Nem foi tema no balneário, porque o grupo já tinha uma opinião unânime sobre eu ser o mais bonito [sorrisos].

- A seleção vai conseguir transportar a raiva que mostrou no jogo de Houston para o jogo de Miami? Pensa que a partir deste jogo as outras seleções começam a ver Portugal como um forte candidato?

- Eu acho que não foi bem raiva, foi mais o facto de querermos fazer um jogo ainda melhor. No primeiro jogo, a minha opinião é que entrámos bem, mas depois deixámos cair um bocado a nossa intensidade, também por ter sido a estreia. No segundo jogo, acho que foi clara a maneira como entrámos e conseguimos manter o ritmo. Quanto a Portugal ser candidato, todas as equipas sabem a qualidade dos jogadores e a união que temos, até pelo facto de termos ganho a Liga das Nações. Todas as seleções já olhavam para nós de uma maneira diferente depois dessa competição e continuam a olhar da mesma forma. Sabem que somos uma equipa forte, da mesma forma que nós conhecemos os adversários fortes que há neste Campeonato do Mundo. Estamos preocupados apenas em fazer o nosso trabalho, seguir o nosso caminho e chegar o mais longe possível.

- Quando estava ao serviço do Wolverhampton, teve duas lesões muito graves e chegou a estar quase um ano parado. Olhando para trás e estando agora a viver o seu primeiro Mundial como titular, chegou a pensar nessa altura que isso seria uma impossibilidade na sua carreira?

R: Sim, na altura foi um momento muito difícil e não sabia o que poderia acontecer. Felizmente hoje estou aqui a viver um sonho. Se me perguntassem há uns anos se seria possível estar aqui, eu diria que sempre acreditei que sim. Sempre acreditei que ia recuperar da melhor maneira e poder representar Portugal outra vez, e felizmente consegui fazê-lo.

- O Pedro tem um futebol de velocidade, muito forte nos duelos e muito agressivo. Numa entrevista recente, a sua mãe disse que quando chegava aos treinos diziam "olha, está a chegar a mãe do Pestinha". Essa personalidade ajudou a moldar o jogador que é hoje, que não dá nenhum duelo por perdido e faz da intensidade a sua maior força?

- Sim, sem dúvida. O meu jogo baseia-se muito nisso: a intensidade, os duelos no um contra um e a velocidade, porque é a maneira como eu sou fora de campo. Sou uma pessoa intensa e transparente, que dá tudo de si, seja dentro ou fora das quatro linhas. São coisas que transporto para dentro de campo. Na minha mentalidade, quando falta alguma coisa, a única que não pode faltar é a atitude. É assim que vou ser sempre e é assim que espero continuar. Isso vem muito daquilo que fui vivendo ao longo dos anos e espero continuar saudável e com esta energia.

- Como está o ambiente na seleção? Sentiu-se que após o empate com o Congo havia alguma tensão devido ao volume de críticas, que provavelmente consideraram exageradas. O resultado contra o Uzbequistão funcionou como um gatilho para os jogadores desfrutarem realmente do Mundial, pensando já nos jogos a eliminar?

- É normal que as coisas não pareçam tão bem após o primeiro jogo se não conseguimos a vitória que queríamos. Temos uma mentalidade muito vincada e vencedora, por isso é normal ficarmos um pouco abatidos quando não ganhamos. As críticas fazem parte do jogo e nós temos de saber lidar com elas. No segundo jogo, utilizámos isso de forma motivadora para entrarmos em campo e darmos o nosso melhor. Foi o que aconteceu. Sem dúvida que funcionou como um gatilho de motivação para este jogo que falta, onde queremos ganhar e passar em primeiro lugar.

- Quais são as expectativas em relação ao clima de Miami e ao ambiente do jogo, sabendo que haverá muitos adeptos colombianos no estádio? Como olha para este impacto, sendo um jogo decisivo para definir o líder do grupo?

-Sem dúvida que vai ser um desafio devido ao calor e à atmosfera, por haver muitos colombianos lá. No entanto, o que temos feito é estar focados exclusivamente no nosso trabalho, na nossa maneira de jogar, na nossa essência e na nossa identidade. É isso que vamos fazer no próximo jogo para tentar passar o grupo em primeiro lugar.

- Desde o dia em que se juntaram como grupo até hoje, qual foi o aspeto em que a seleção mais evoluiu? E o Pedro assiste aos demais jogos do Campeonato do Mundo, como o do Brasil contra a Escócia?

- O aspeto que este grupo tende sempre a melhorar é o trabalho. Ou seja, quando as coisas não correm da melhor maneira, tendemos a trabalhar ainda mais e a ser mais resilientes. Acho que foi nisso que melhorámos. Quanto aos outros jogos do Mundial, sinceramente não vejo muito futebol para além do nosso, por isso não tenho estado muito atento aos resultados nem às exibições do Brasil. Estamos atentos apenas ao facto de podermos encontrar equipas com as quais podemos calhar no cruzamento, mas de resto não acompanho muito.

- Portugal é considerado no Brasil uma das seleções favoritas pelo elenco que tem, mas, ao mesmo tempo, chega com a carga simbólica de poder ser o último Mundial do Cristiano Ronaldo. Isso para vocês é uma pressão ou uma motivação extra?

- Acho que acaba por ser uma motivação extra. Deixa um sabor ainda melhor, no sentido em que queremos muito ajudá-lo a conseguir esse objetivo. É uma conquista que lhe falta, e ele quer ganhar tanto quanto nós. É uma motivação podermos dar esse último gosto a quem também já nos deu tanto.

- Partilhou o balneário com o Raúl Jiménez no Wolverhampton, que passou por uma situação muito dura na altura. O que significa hoje vê-lo recuperar e marcar o seu primeiro golo?

-Eu dou-me muito bem com o Raúl, até somos vizinhos em Londres. Fiquei muito contente por ele e pelo que passou este ano com o seu pai. Alegra-me muito vê-lo como está, a desfrutar do futebol, e é algo que me deixa muito feliz.

- A FIFA comentou que houve uma procura enorme de bilhetes para este jogo. O que é que vocês, jogadores, esperam de uma partida que o mundo inteiro está ansioso por ver?

-Esperamos um jogo difícil e intenso, que todos estamos ansiosos por jogar. É sempre um jogo muito vivo, de muita garra, e eu pessoalmente gosto muito deste estilo. Acho que as pessoas vão assistir a um grande espetáculo e é isso que vamos tentar dar. É por isso que houve tanta procura de bilhetes. Acima de tudo, queremos desfrutar ao máximo deste tipo de ambiente, que espero que seja espetacular.

- O Luis Díaz é o homem mais importante da seleção da Colômbia, na sua opinião?

- Sei que a Colômbia tem grandes jogadores. Sem dúvida que o Luis Díaz é um grande jogador e muito influente, mas não nos podemos focar apenas num elemento. O Muñoz, por exemplo, também já marcou dois golos até agora. Temos de nos focar no coletivo deles, mas o mais importante é focarmo-nos em nós próprios e no que temos de fazer em campo.

-Quanta pressão tem Portugal para terminar como primeiro do grupo, ou vocês já se sentem tranquilos pelo facto de terem assegurado a classificação?

- Tranquilos não estamos, queremos sempre melhor. Encaramos este jogo como muito importante. A pressão vai existir sempre. Queremos passar em primeiro e esse é o grande objetivo que temos para a próxima partida.

- O Pedro já fez muito para chegar a este nível na carreira, mas o que acha que ainda precisa de fazer para melhorar ou para alcançar o sucesso pleno como futebolista?

- Para se ter sucesso, tem de se melhorar em todos os aspetos. Eu quero continuar a evoluir; ainda sou jovem, tenho 26 anos, por isso tenho muito caminho pela frente. Quero melhorar em todos os pontos do meu jogo e é isso que vou continuar a fazer.

- Com a Escócia, Neymar entrou em campo noutro jogo e a claque no estádio celebrou a sua entrada no Mundial quase mais do que um golo. O que significa ter um Mundial com o Neymar e que impacto ele teve na sua trajetória?

- O Neymar é um jogador que marcou muito a minha geração pela alegria e pelo que faz em campo. O facto de ele ter entrado e ter sido celebrado dessa maneira é a prova disso. Ele merece, por tudo o que passou. Marcou muito a minha infância devido à sua maneira de jogar e de vivenciar o futebol, é algo que ficou sempre marcado em mim.

- O Pedro esteve no Mundial de Clubes do ano passado e conquistou-o pelo Chelsea, tendo enfrentado equipas sul-americanas como o Flamengo e o Fluminense. O que traz de bagagem dessa experiência para o duelo contra a Colômbia?

- O jogo contra o Flamengo, por exemplo, foi muito difícil; até à altura tinha sido o jogo mais complicado que enfrentámos pela intensidade, pela maneira de jogar e de viver a partida. Também pela atmosfera, já que os brasileiros estavam em maioria no estádio. O ambiente no jogo contra a Colômbia vai ser parecido, assim como a intensidade e a vivência do jogo, e é para isso que temos de estar preparados.

- Qual foi o maior desafio que teve ao longo desta semana, não só dentro de campo, mas também fora dele? Como lidou com isso?

- Vou ser sincero: sou uma pessoa muito tranquila e não dou muita atenção às coisas que se passam fora. À vezes escutava algumas pessoas a falar, mas passei uma semana completamente calma. Aproveitei para estar com a minha namorada, que está em Miami, e com amigos. A minha semana foi praticamente isso: passar tempo com a família, com os colegas de equipa e desfrutar desses momentos para desligar. Quando entrava em campo, trabalhava para estar melhor e mais preparado. Graças a Deus conseguimos ganhar o jogo anterior e espero que possamos ganhar o próximo também.

- Contra a RD Congo, a equipa sentiu algumas dificuldades devido ao bloco tático do adversário. Frente à Colômbia, que tem um padrão similar, e perante a opinião de que Portugal está dependente do Cristiano Ronaldo, o que fazem os avançados para garantir que a equipa não seja tão dependente se ele for anulado?

- O Cristiano é realmente muito importante para nós, mas acho que o termo "dependente" é demasiado forte. Sabemos que, se criarmos as condições para ele finalizar, a probabilidade de ganhar é muito alta. É claro que criamos oportunidades para cada jogador e é para isso que trabalhamos. Temos o nosso padrão e o nosso jeito de jogar. Não acho que haja uma dependência dele, mas sim uma grande confiança nele.

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