Jogo de xadrez
ESTAMOS a aproximar-nos da reta final do ano desportivo. Nesta fase de decisões, todos os argumentos são utilizados para se poderem alcançar os objetivos pretendidos. Num ano em que, de uma forma geral, perdemos terreno na Europa, a abordagem ao futuro faz-se no presente.
O QUE MUDOU
«OBRIGADO meus amigos!» Foi assim que a liga dos Países Baixos nos cumprimentou após ter conseguido a tão desejada ultrapassagem no ranking da UEFA, fazendo com que no ano de 2024/2025 Portugal tenha apenas uma entrada direta na Liga dos Campeões e uma segunda equipa nas pré-eliminatórias. O futebol português caracteriza-se por ter três equipas grandes que por norma lutam por títulos, a que devemos juntar um Braga que tem vindo a crescer de uma forma consistente. Culturalmente, já temos alguma dificuldade em perceber que só um pode ganhar. Se juntarmos o facto de só termos dois lugares (1+1) na principal competição de clubes, percebemos claramente que a época que se avizinha ganha uma dimensão especial. Se seguirmos o trajeto que temos vindo a percorrer, a luta pelos primeiros lugares do campeonato será ainda mais agressiva, porque no limite o que poderá estar em causa é a sobrevivência.
A IMPORTÂNCIA DA CHAMPIONS
COM a recente perda de pontos do Benfica, o campeonato ficou relançado, deixando em aberto as três primeiras posições da tabela. Das três, duas terão entrada direta na Liga dos Campeões, o que lhes permitirá fazer um planeamento e preparação da próxima época com mais certezas e rigor. O terceiro classificado ficará sempre dependente da sua competência para entrar na fase de grupos, que lhe irá conferir o acesso aos milhões de euros que a melhor prova de clubes proporciona. Este facto é muito relevante se tivermos em conta o que referi anteriormente: a importância da época 2023/2024. Mas porque é tão importante para os clubes portugueses estarem presentes na Liga dos Campeões (LC)? Por vários motivos. O primeiro e mais direto, porque as receitas da liga milionária representam 50 ou 60% dos rendimentos operacionais dos clubes portugueses (excluindo transações de atletas). Em segundo lugar, porque uma boa prestação nesta prova fará com que todos saiam valorizados: a marca, os patrocinadores, os dirigentes, o treinador e, por fim, os jogadores. Sabendo nós que as maiores receitas dos clubes portugueses são os direitos de TV, competições europeias e a venda de jogadores, as duas últimas estão diretamente ligadas ao desempenho na LC.
SPORTING A RECUAR
SABEMOS de antemão que o Sporting este ano deu um passo atrás. A má preparação da época, com um plantel insuficiente para se impor numa competição de maratona (campeonato nacional), fez com que os anos anteriores parecessem uma miragem. É verdade que em termos financeiros a época foi positiva. O Sporting vendeu Nuno Mendes (PSG exerceu a cláusula), Palhinha, Matheus Nunes e Porro (só irá ser contabilizado na próxima época). Contudo, é fundamental ter a perceção que o principal objetivo de uma administração de um clube de futebol é o rendimento desportivo. Sabemos que o sucesso dentro das quatro linhas deverá estar sempre equilibrado, com uma gestão financeira responsável e coerente.
Olhando para trás, houve um momento que foi marcante para a restante época desportiva verde e branca: a venda de Matheus Nunes. Até hoje nenhum responsável conseguiu justificar a forma abrupta como se vendeu o jogador na véspera de um FC Porto-Sporting. É verdade que o valor era elevado, mas todos tinham a noção de que, após a venda de João Palhinha, vender Matheus Nunes seria, no mínimo, muito arriscado. Para complicar ainda mais, todos tivemos a perceção de que esta saída não estava colmatada nem pensada por quem definiu a época do clube, gerando até algum mal-estar entre o treinador e a estrutura. Prova disto foram as aquisições de Sotiris e (mais tarde) Tanlongo, que não acrescentaram valor ao plantel. De uma forma expectável, a época do Sporting foi de altos e baixos. Momentos brilhantes como as vitórias frente ao Tottenham ou Arsenal, complementadas por derrotas inesperadas e que foram atrasando a equipa no campeonato nacional. Ficou bem percetível que este Sporting é uma equipa competitiva e que se pode bater contra qualquer adversário, mas que numa prova de maratona tem um plantel insuficiente.
Para finalizar, aponto mais um erro e um facto óbvio: após tantos erros no campo desportivo, a administração voltou a complicar. Tentar aumentar os seus vencimentos num ano em que os resultados desportivos foram claramente abaixo das expectativas demonstra uma grande falta de sensibilidade. É verdade que pela primeira vez em muitos anos os capitais próprios estão positivos mas, como já referi noutros artigos, o perdão das VMOC foi fundamental para que o Sporting esteja a seguir esta trajetória. Não está em causa o valor dos aumentos, mas sim o timing e o exemplo que se está a dar aos adeptos e estrutura em geral. Por fim, o facto que deve alertar os adeptos do Sporting. Sem acesso à LC, o planeamento da próxima época vai estar limitado. Para equilibrar as contas, possivelmente, terão de ser vendidos um ou mais ativos importantes no plantel verde e branco. Para piorar a situação, não só o Sporting fica com menor capacidade para atacar o mercado e melhorar o seu plantel, como dá a oportunidade ao Benfica, FC Porto e sobretudo SC Braga de ganharem margem para poderem gerir.
BRAGA A SORRIR: QUAL O PAPEL DA CATAR SPORTS EVENTS?
OSC Braga agarrou a oportunidade que surgiu. Criou um plantel homogéneo, competitivo e equilibrado. Realizou dois bons encaixes financeiros com a venda de Vitinha e David Carmo, mas manteve a joia da coroa - Ricardo Horta. Em janeiro acrescentou valor e experiência, através das aquisições de Pizzi e Bruma. Teve momentos difíceis como as duas goleadas por cinco a zero frente ao Sporting, mas soube sempre recompor-se e focar-se no seu objetivo. Apresenta um registo notável na Liga com o segundo melhor ataque da competição, onde está a competir pelos três primeiros lugares. Na próxima semana vai à Luz, naquele que é um jogo determinante na luta pelo título. Na Taça de Portugal está na final. Adicionalmente, este ano, a Catar Sports Events comprou 22% da SAD do SC Braga. Apesar de ainda não se perceber qual vai ser a relação entre estes investidores e os restantes acionistas da SAD bracarense, o que podemos percecionar é que num ano em que o SC Braga superou o Sporting e pode chegar aos milhões da LC, esta parceria pode ser mais um motivo de preocupação, não só para os lados de Alvalade mas também para dragões e águias.
2023/2024 - OPORTUNIDADE PARA A LPFP
Aforma como o campeonato vai terminar este ano ditará como se irão preparar as equipas da frente no próximo ano. A vertente financeira tem uma enorme importância no sucesso desportivo, porque permite ter a capacidade de chegar a ativos com maior qualidade. A nossa Liga tem sido caracterizada por momentos de tensão e pressão fora dos relvados, com muitas trocas de galhardetes entre altos quadros dos diferentes clubes, com presidentes à cabeça. Também se criou a ideia de que os departamentos de comunicação dos clubes devem ser utilizados para enviar mensagens agressivas aos rivais ou colocar responsabilidade e pressão no setor da arbitragem, de forma a que as culpas do insucesso sejam sempre de fatores externos às instituições. O meu receio é que no próximo ano todos estes fatores sejam exponenciados, pelos motivos apresentados anteriormente. É nestes momentos de maior stress que percebemos a capacidade das organizações de demonstrar o caminho a seguir. Assim, a próxima temporada pode ser a oportunidade perfeita para a LPFP e o seu presidente Pedro Proença demonstrarem aquilo que tão bem vêm anunciando: que todos os clubes percebem a importância de colaborarem para uma Liga com maior qualidade, que todos devem contribuir positivamente para um clima mais respirável no futebol português, que é fundamental a criação de uma marca ou de um produto com capacidade para atrair investidores externos. Para terminar, pior do que a queda no ranking europeu e a consequente redução de equipas nas provas europeias será perder a oportunidade de criar as condições para poder efetuar uma boa negociação da centralização dos direitos audiovisuais. Têm a palavra a LPFP, o seu presidente e todos os clubes que a compõem.
A VALORIZAR
Artur Jorge. O Braga está a fazer uma grande época e uma grande fatia do mérito tem de ser entregue a Artur Jorge. Está na luta pelos três primeiros lugares no campeonato nacional, é o segundo melhor ataque e é finalista da Taça de Portugal. Não menos importante, tem valorizado os activos do clube, sendo o maior exemplo a transferência de Vitinha.
Ruben Amorim. A época está longe de ser a ideal, mas Ruben Amorim tem algo que deve ser muito valorizado. A forma como comunica valoriza o futebol, valoriza o seu clube e valoriza-se a si próprio. A forma como respondeu à questão sobre Sporting e Benfica é um grande exemplo. O passado nunca será um problema para Ruben Amorim.
A DESVALORIZAR
Marítimo. Nos últimos dois jogos teve a oportunidade de se aproximar dos lugares acima da linha de água. Não teve essa capacidade para agarrar essa oportunidade. Os resultados são o reflexo de uma época mal preparada.