Vladyslav Heraskevych e o capacete que tem pintadas as caras de mais de 20 atletas e treinadores ucranianos que morreram durante o conflito com a Rússia
Vladyslav Heraskevych e o capacete que tem pintadas as caras de mais de 20 atletas e treinadores ucranianos que morreram durante o conflito com a Rússia

JO: COI permite que ucraniano afastado fique em Milão, Zelensky condena «amnésia»

Vladyslav Heraskevych pode ficar nos Jogos, mas sem competir

O Comité Olímpico Internacional (COI) vai permitir que o atleta ucraniano de skeleton, Vladyslav Heraskevych, permaneça nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina, mas ainda assim afastado da competição depois de ter sido retirada a acreditação de atleta devido às alterações que fez ao seu capacete.

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O COI informou que a decisão surge após um encontro pessoal entre a presidente da organização, Kirsty Coventry, e Heraskevych.

«Excecionalmente, após uma conversa particularmente respeitosa com o atleta, Coventry solicitou à Comissão Disciplinar do COI que reconsiderasse a retirada da sua acreditação dos Jogos. O presidente da comissão aceitou o pedido, o que significa que o Sr. Heraskevych pode continuar a sua estadia nos Jogos Olímpicos, embora não tenha permissão para participar nas competições», escreveu o COI em comunicado.

Heraskevych pretendia usar um capacete com imagens de compatriotas atletas que foram mortos pelo exército russo durante a guerra na Ucrânia. Tal foi rejeitado pelo COI, uma vez que quaisquer declarações políticas são proibidas nos locais onde as competições se realizam. Poderia continuar a passar a mensagem na zona mista ou através de fumos negros, mas o atleta não cedeu.

As duas partes não conseguiram chegar a um compromisso e Heraskevych foi afastado das competições, que começaram na quinta-feira, e a sua acreditação foi-lhe retirada.

«Ninguém — ninguém, especialmente eu — discorda da mensagem. A mensagem é poderosa. É uma mensagem de lembrança. É uma mensagem de memória. Não se trata da mensagem, trata-se literalmente das regras e dos regulamentos. Temos de manter um ambiente seguro para todos e, infelizmente, isso significa que nenhuma mensagem é permitida», justificou Coventry, sublinhando que falou com o ucraniano «como atleta» e não como presidente.

A dirigente voltou a sublinhar que o COI tentou encontrar soluções para que Heraskevych homenageasse os seus compatriotas antes da corrida, mas não foi possível chegar a um consenso sobre a alteração do equipamento.

A desqualificação de Heraskevych teve reflexos ao mais alto nível, com mensagens do ministros dos Negócios Estrangeiros e também do presidente Volodimir Zelensky, que acusou o COI de «fazer o jogo» da Rússia.

«O desporto não deve significar amnésia, e o movimento olímpico deve ajudar a pôr fim às guerras, não servir os interesses dos agressores. Infelizmente, a decisão do Comité Olímpico Internacional de desqualificar o atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych diz o contrário. Isto não tem certamente que ver com os princípios do Olimpismo, que assentam na justiça e na promoção da paz. Agradeço ao nosso atleta pela sua posição clara. O seu capacete, com os retratos de atletas ucranianos que perderam a vida, é um símbolo de honra e de memória. É um lembrete para todo o mundo do que é a agressão russa e do custo de lutar pela independência. E, neste caso, nenhuma regra foi violada», notou.

O movimento olímpico deve ajudar a pôr fim às guerras, não servir os interesses dos agressores. Infelizmente, a decisão do Comité Olímpico Internacional de desqualificar o atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych diz o contrário