«Inspirei-me na mensagem do meu pai para conseguirmos a manutenção»
A permanência do Portimonense sem recurso a play-off foi obtida apenas na derradeira da Liga 2 diante do vizinho e arquirrival Farense. O treinador Tiago Fernandes desvenda aqui alguns dos segredos para o alcançar da manutenção que teve uma inspiração especial.
— A que soube ter alcançado esta manutenção pelo Portimonense?
— Teve um sabor profundamente especial, porque o Portimonense é um clube que possui todas as condições estruturais para estar na Liga 2 e, legitimamente, até Liga. Teve também um significado muito particular pelo facto de termos partilhado e superado tantos momentos difíceis juntos ao longo do ano. Tínhamos um plantel excecional, recheado de jogadores com um espírito de sacrifício e uma camaradagem incríveis. Soubemos sempre olhar para o lado positivo das coisas e nunca nos deixámos contaminar pelo negativismo. E depois de termos passado por sérias adversidades, tanto a nível desportivo como financeiro, acabámos por conseguir atingir o objetivo final implícito, que era a manutenção. Eu, na qualidade de treinador e líder máximo daquela equipa, senti-me profundamente aliviado. A pouco e pouco, fomos perdendo futebolistas fulcrais; perdemos os cinco titulares absolutos a meio do percurso e isso fez com que a estrutura se ressentisse um bocado, porque se um dos clubes grandes do nosso futebol perder cinco titulares, a sua missão fica imediatamente muito mais difícil. Em janeiro, recordo que estávamos tranquilos a meio da tabela classificativa e a saída do Tamble Monteiro para o Rio Ave foi estritamente necessária para conseguirmos equilibrar financeiramente as contas da SAD e mantermos os ordenados de todos em dia.
— Foi a época mais difícil da sua carreira de treinador?
— Foi, sem dúvida, a mais difícil e exigente porque me obrigou a reinventar a equipa e a estratégia todas as semanas. Para que se tenha uma noção exata da instabilidade que vivemos, do onze inicial que jogou na primeira jornada do campeonato, apenas o João Reis estivera presente na última partida. Mas um treinador quando é obrigado a sair da sua zona de conforto é precisamente quando mais aprende e evolui. Nestes cenários, tens de ter uma capacidade de motivação interna enorme, nunca mostrando qualquer sinal de desgaste, cansaço ou saturação perante o grupo, mas sim exibindo um espírito positivo e de conquista diários. E foi rigorosamente essa postura que me fez, no final, sentir uma alegria e um orgulho enormes por aquilo que alcançámos.
— Teve uma descarga emocional no final do jogo com o Farense?
— Sim, foi uma descarga emocional muito grande, porque a nível interno senti que seria uma missão quase impossível. Nunca tinha estado numa situação tão limite na minha carreira, de poder descer de divisão e de ter de lutar por pontos cruciais até à última jornada. O facto de nós, semana após semana, estarmos ali constantemente com a faca no pescoço a ter de lutar contra todas as contrariedades fez com que jogássemos sempre no fio da navalha. Olhando para trás, isso também acabou por ser positivo, pois transformou cada jogo num desafio gigante. Estivemos sempre todos unidos, imbuídos de um espírito coletivo formidável, e encontrámos várias estratégias táticas para conseguir levar o Portimonense a assegurar a permanência na Liga 2. E foi maravilhoso. Foi importantíssimo porque, no final, viu-se que houve uma festa tremenda de toda a gente. Não me refiro apenas aos adeptos, mas principalmente a todo o staff do clube. Nós temos 144 funcionários no Portimonense e todas estas pessoas e as suas respetivas famílias dependem financeiramente do clube para viver. Para eles, também foi crucial termos conseguido tranquilizá-los por mais um ano, garantindo a continuidade na Liga 2 e permitindo que salvaguardassem o seu posto de trabalho.
— Foi a época em que mais cresceu como treinador?
— Como treinadores, estamos em constante aprendizagem todos os dias e a crescer a cada época que passa. Na Liga 2, fomos apenas três os treinadores que não fomos despedidos ao longo da temporada, isto se retirarmos as equipas B, que disputam um campeonato com uma lógica completamente à parte. Mas o facto de ter feito 34 jogos consecutivos no Torreense na época passada e agora mais 34 seguidos no Portimonense perfez um total de 68 partidas consecutivas. Isso não é nada fácil de conseguir no futebol atual. Penso que esta temporada foi o período ideal onde me deu para afirmar em definitivo e atingir um nível superior de maturação. Foi muito bom para mim como técnico e como experiência de vida. Já conto com quase 100 jogos na Liga 2. Ainda me considero um treinador jovem e esta é uma bagagem valiosa que se acumula ao longo destas temporadas. Mas esta, sem margem para dúvidas, foi a que me obrigou a sair mais da zona de conforto. Levou-me verdadeiramente aos limites e acho que foi uma excelente época para mim, para aprender, para evoluir e para crescer como treinador, porque a experiência competitiva pura foi riquíssima.
— Que dificuldades teve de enfrentar durante a época?
— Foi mais ao início, especificamente na questão salarial, que se revelou um obstáculo complexo, mas que depois se conseguiu resolver a contento. Nesse tema em particular, a Direção esteve sempre presente, lado a lado connosco, assumindo as responsabilidades.
— O que falhou? Os investidores?
— Não, o problema foi que o Portimonense tinha muitos clubes que lhe deviam verbas consideráveis e a Direção esperou que estes lhes pagassem até setembro o que era devido das transferências anteriores de jogadores. Mas os dirigentes estiveram sempre lá no balneário a dar a cara e a explicar os motivos reais do atraso. E claro que isso nunca é fácil de aceitar para nós, porque estamos inseridos num contexto profissional, onde todos queremos receber o nosso salário, e o plantel ressentiu-se psicologicamente disso. Fruto desse estrangulamento financeiro, tivemos também a necessidade de vender o Ruan. Depois disso, enfrentámos ainda inúmeras lesões, fruto de o plantel ter começado a ficar demasiado curto, o que levou a que jogassem sempre praticamente os mesmos elementos. O desgaste físico foi tremendo. Tivemos ali quatro ou cinco lesões graves de jogadores que eram titulares absolutos, juntando aos quatro ou cinco que já tinham saído no mercado. Mas, felizmente, para as últimas cinco ou seis finais do campeonato, já tivemos o grupo quase todo disponível, tirando o Xavier e o Heitor, que só regressou a três jogos do fim. Isso fez com que, nas partidas decisivas, tivéssemos um onze estável e conseguíssemos ser uma das melhores equipas na reta final do campeonato.
— Qual foi o segredo principal para ultrapassarem as contrariedades? Que dinâmicas fez além das normais?
— Estive sempre muito próximo do grupo, mantendo uma relação humana estreita, embora salvaguardando a distância necessária, pois não sou amigo de balneário, sou o treinador e há que impor respeito. As palestras foram orientadas mais na base da motivação e em promover jogos mais lúdicos nos hotéis de estágio para aliviar o stresse. Eu, como treinador, costumo introduzir o jogo do bingo nas vésperas das partidas, acho uma dinâmica gira e descontraída. Fazemos quase sempre esse jogo do bingo na noite anterior e os jogadores recebem um prémio dicionário simbólico, mais pelo gosto de ganhar. Desportivamente, o segredo foi encontrar estratégias táticas e psicológicas para que eles entrassem em campo com a cabeça limpa. No verão, por exemplo, também os levei para a praia para fazermos uns passeios de barco juntos e quebrar a rotina.
— Porque mencionou o seu pai, Manuel Fernandes, mal terminou o jogo com o Farense?
— Estava a falar com o jornalista da SporTV e recordei que trabalhei quatro anos com o meu pai como treinador adjunto no V. Setúbal e na UD Leiria. Ouvi muitas palestras deles e presenciei muitas coisas que ele fazia na gestão dos atletas. Quando atravessámos um período terrível de oito jogos consecutivos sem ganhar, tive de me reinventar e senti que os jogadores precisavam de acreditar nalguma coisa forte. Dei-lhes o exemplo do meu pai, que quando faleceu, num momento clínico e pessoal muito difícil, nos ensinou a nunca deixar de acreditar. Só mesmo quando alguém nos diz de forma absoluta que já não há mais nada a fazer é que se deixa de acreditar e se cai na dura realidade. Aí é que cai a ficha, é difícil de aceitar porque não há volta a dar, mas a vida obriga-nos a seguir em frente. E na nossa vida há sempre mais alguma coisa a fazer. Foi rigorosamente isso que transmiti aos jogadores no balneário: enquanto não nos disserem matematicamente que já não temos hipóteses de ficar na Liga 2, vamos lutar porque a salvação é possível. Sabíamos bem que seria uma luta hercúlea, porque nós ganhávamos um jogo e os nossos rivais diretos também ganhavam. Quando vencíamos dois seguidos, eles também pontuavam. E nós pensávamos: 'Eh pá, nunca mais descolamos daqui...'. Mas importa analisar que, na Liga 2, nunca nenhuma equipa tinha precisado de somar 40 pontos para garantir a manutenção, e essa acabou por ser a nossa pontuação final. Aliás, se analisarmos a tabela com atenção, ficámos a escassos 11 pontos do top-5.
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