Mundial
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Antes do campeão, a criança
Esta é uma altura em que muitas famílias tomam decisões sobre a próxima época desportiva. Abrem-se inscrições, escolhem-se clubes, compram-se equipamentos e repetem-se as perguntas: futebol ou natação? Ginástica ou judo? Deve a criança continuar na modalidade do ano passado ou experimentar uma diferente? Fica no mesmo clube ou muda?
Frequentemente, estas decisões são guiadas pela procura da modalidade em que a criança poderá ter mais sucesso, do clube onde terá mais oportunidades de vencer ou do contexto que parece oferecer um futuro mais promissor. Contudo, talvez este não seja o melhor princípio orientador. A pergunta mais importante não deverá ser 'em que modalidade poderá ter mais sucesso?', mas 'que experiências precisa de viver para se desenvolver?'.
Trago esta reflexão porque, no momento em que se prepara a nova época desportiva, é importante recordar que a forma como, cada vez mais, olhamos para o desporto na infância parece estar a afastar-se das reais necessidades do desenvolvimento infantil e funções do desporto. As crianças não são promessas desportivas nem pequenos atletas profissionais. São, antes de tudo, crianças em pleno desenvolvimento, em cujo percurso o desporto tem, e deve ter, um papel crucial.
Na infância, o desporto não deve ser apenas um lugar de treino. Também não deve ser um tempo de especialização ou de concretização de sonhos que, muitas vezes, nem sequer pertencem à criança. Deve, sim, funcionar como um laboratório de desenvolvimento. Correr, saltar, lançar, agarrar, equilibrar, cair e voltar a levantar são experiências que ajudam a construir competências motoras fundamentais.
Cooperar, competir, respeitar regras, lidar com a frustração e encontrar soluções contribui para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Modalidades diferentes apresentam problemas diferentes ao corpo e à mente. É precisamente nessa diversidade que reside grande parte do seu valor.
Experimentar é ampliar o repertório da criança. A passagem por diferentes modalidades permite-lhe adaptar-se a novos espaços, materiais, regras e relações, descobrir aquilo de que gosta e perceber onde se sente mais competente. Permite também que uma eventual escolha futura seja informada pela experiência e não determinada antecipadamente pelos adultos.
Erik Erikson, um dos autores clássicos da psicologia do desenvolvimento, defendia que, durante a infância, a criança precisa de explorar, propor atividades, tentar, falhar, voltar a tentar e perceber que é capaz de aprender. A competência não se constrói apenas através do sucesso imediato, mas sobretudo pela possibilidade de enfrentar desafios, dominar progressivamente novas tarefas e perceber que o erro também faz parte da aprendizagem.
Nem todas as crianças precisam de escolher cedo. Algumas nem precisam de escolher uma única modalidade. O objetivo da prática desportiva infantil não tem de ser preparar uma carreira, alcançar um nível de excelência ou antecipar resultados futuros.
Temos de parar de procurar um Cristiano Ronaldo, um Fernando Pimenta ou uma Telma Monteiro em cada criança. Não está errado procurar a excelência, o que está errado é transformar essa excelência no centro da atividade desportiva infantil e numa exigência que antecede o próprio desenvolvimento da criança.
Antes de pedir a uma criança que escolha um caminho, devemos permitir-lhe conhecer vários. Antes de procurar um campeão, devemos ajudar a formar alguém autoconfiante, competente e com valores. O talento pode vir a revelar-se mais tarde. A vontade de investir também. Mas primeiro é preciso dar espaço para correr, saltar, cair, mudar e descobrir.