Com Marco Silva ao leme, Benfica inicia esta quinta-feira a época oficial - Foto: Imago
Com Marco Silva ao leme, Benfica inicia esta quinta-feira a época oficial - Foto: Imago

Benfica: duplo xeque-mate

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Duarte Chastre, consultor de comunicação

Ninguém gosta da silly season, mas todos nutrimos algum carinho escondido por ela. É uma espécie de sentimento agridoce e paradoxal que nos assola todos os verões, que apenas o Mundial e o Europeu podem ser capazes de contrariar. Mas quando se deu o apito final em New Jersey e os espanhóis voltaram a ser donos e senhores do futebol, rapidamente voltou a ânsia incontrolável de voltarmos aos nossos clubes, ao nosso conforto e à realidade permanente de um adepto.

Ponto prévio: oficialmente, sou primeiro sócio do Benfica do que cidadão português. Assim sendo, a espera é infelizmente mais curta e contamos apenas quatro dias entre o jogo mais importante do futebol e o jogo mais importante para quem canta Luís Piçarra semanalmente desde criança. Colhemos os frutos do que plantámos coletivamente em outubro do ano passado, acabando por terminar a época transata — mais uma vez — afastados da corrida ao título e com a agravante já conhecida da falta (dos milhões) da Champions.

Escrevo no dia em que o meu clube começa a longa caminhada para chegar à Liga Europa, uma competição onde nos devemos assumir como candidatos à vitória. No papel e na prática, o Benfica tem de estar taco a taco na pole position para voltar a conquistar um título europeu. A memória dos anos 60 é saudável, mas não se pode tornar apenas eterna e deve ser renovada. Essa ambição deve expressar-se mais dentro de campo do que através de proclamações que embandeirem em arco — exemplo máximo é o #VaiDarPortugal da FPF que se revelou uma má escolha comunicacional.

Voltando ao início, todas as pré-épocas têm o poder mágico de nos fazer acreditar. Há dias, ouvia o Alberto Miguéns, historiador incontornável do clube, afirmar que não existiu nenhum ano em que não acreditasse que o Benfica podia ser campeão. É este sentimento que nos corre nas veias e que vai beber à inevitabilidade eternizada por Mário Wilson: «Quem treina o Benfica, arrisca-se a ser campeão.»

É aqui que entra Marco Silva e o verdadeiro desafio que tem em mãos, partindo com a obrigação de se tornar no tal manager que Ruben Amorim diz precisar de ser para aceitar os seus desafios profissionais. Isto porque o Benfica entra em desvantagem desportiva, competitiva, financeira, comunicacional e institucional. É uma corrida desigual em toda a linha e que se agrava desde 2021. Corre por aí uma ideia de que alguns sócios do Benfica se tornaram profetas da desgraça profissionais — tese sobre a qual não posso discordar mais. É por isso que, em mais um dia inicial inteiro e limpo para quem acredita sempre, é importante entender o nosso ponto de partida.

A nossa paixão pelo Benfica exige-nos seriedade sem palas. Caro consócio, caro companheiro de Red Pass, caro colega com quem debato o Glorioso, esta é a reflexão que quero fazer em conjunto. Acredito genuinamente que é a nossa força inexplicável que será capaz de quebrar com o marasmo ao qual temos assistido nas últimas temporadas. Confesso-vos: estou farto de perder por norma e ganhar ocasionalmente. Cresci exatamente ao contrário. Aliás, crescemos todos. Convencidos — e com propriedade — que o Benfica ganhava por norma e perdia ocasionalmente. E é doloroso perceber que essa certeza de infância se transformou, sem darmos por isso, no seu inverso perfeito.

Já não aguentamos a roleta russa institucionalizada em que nos tornámos, onde é impossível prever onde a bola irá cair. Passámos os últimos anos a discutir bolas azaradas nos ferros, arbitragens polémicas e cabalas generalizadas — e a verdade mais desconfortável de todas é esta: os benfiquistas transformaram-se em comentadores de arbitragem porque deixaram de poder comentar títulos. Peço desculpa pela ousadia, mas isto não é o ADN do clube pelo qual todos nos apaixonámos.

E o planeamento desta temporada volta-me a preocupar pelo que revela sobre a forma como decidimos. Esta pré-época deu sinais de dúvida sobre padrões que já conhecemos de cor: contratações que parecem seguir mais o nome e o risco do que a ponderação e a certeza. E é assim, sem darmos por isso, que o maior clube do país se instala permanentemente no fio da navalha, à espera de que o rasgo individual resolva o que a estrutura devia ter resolvido antes.

Há uma definição atribuída a Einstein que descreve a insanidade como repetir exatamente a mesma coisa esperando um resultado diferente. Desde 2021, o Benfica é especialista na matéria. Um recomeço é casual. Dois, talvez ainda se explique. Seis técnicos depois, já não há explicação que resista — são fraturas expostas que não podemos ignorar. Na identidade vencedora. Na capacidade de manter (ou mesmo criar) uma base. Na coragem de dizer 'este fica mais um ano até ser campeão'. Na forma como se recebe quem chega. Na exigência de que ganhar é obrigatório, e não uma cláusula no contrato.

Talvez seja por isso que o maior erro cometido pelo Benfica nos últimos anos tenha sido outro: confundir a fidelidade dos adeptos com um plano estratégico. Não temos forma de saber se Marco Silva vai ser campeão. Sabemos apenas que chega a um clube onde os sócios se habituaram a recomeçar. E nenhum treinador consegue ganhar campeonatos num clube que vive permanentemente em modo de restart. Não existem milagreiros. Há sim oportunidades que só valem alguma coisa quando há quem as saiba aproveitar por cima dele.

E é por isso que esta é, sem qualquer margem para dúvidas, a época do sim ou sim. Não há mais desculpas disponíveis, nem mais recomeços a que tenhamos direito. Quem está no Seixal deve saber, desde já, que o tribunal da Luz assim o ditará — sem piedade, mas também sem ressentimento, porque é assim que se ama verdadeiramente um clube: exigindo dele aquilo que ele nos ensinou a esperar de si próprio.

Precisamos de ver uma Direção mais articulada, capaz de antecipar em vez de reagir, de preparar com critério em vez de correr atrás do mercado. Precisamos de sentir que existe, finalmente, um fio condutor entre o que se promete em julho e o que se entrega em maio. E, enquanto isso não acontece de forma inequívoca, cabe-nos a nós, sócios e adeptos, sermos vigilantes, atentos e exigentes. Mas nunca ausentes — porque estaremos, como sempre, a apoiar do primeiro ao último minuto, do primeiro ao último jogo.

Daqui a poucas horas, o Benfica entra em campo. Vamos sonhar antes de saber se esta equipa é boa. Vamos aplaudir jogadores sobre os quais ainda não temos certezas. Vamos acreditar, como fazemos todos os anos. Mas desta vez, temos a obrigação de exigir uma coisa diferente.

Quero acreditar que a nossa fé deixa finalmente de servir para esconder os problemas e volta a servir exclusivamente para empurrar o Benfica. Porque nós fazemos sempre a nossa parte. Está na hora de quem decide fazer a dele. Quero voltar a viver o tempo em que sentimos que os rivais jogam às damas, confortáveis com as suas falsas certezas, e o Benfica, sem medo e sem pedir licença a ninguém, joga xadrez. De preferência com duplo xeque-mate: Marquês e Frankfurt.

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