Mundial
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Messi, os argentinos, uma frase e Cristiano Ronaldo
A Espanha foi campeã mundial, como penso que a maioria acreditasse que pudesse acontecer, Portugal foi eliminado pela Espanha, como penso que a maioria acreditasse que pudesse acontecer, houve heróis improváveis, como o guarda-redes Vozinha, confirmações, como a ascensão da Noruega, desilusões, como a eliminação sem glória da Alemanha, surpresas, como a caminhada de Cabo Verde, a suspeita de interferência política de Donald Trump e, consequentemente, do ataque à integridade do jogo, curiosamente tão estimada nos Estados Unidos nas grandes ligas de diferentes modalidades, houve euforia e lágrimas, não houve zaragatas graves fora dos estádios, mas houve algumas feias no relvado na final, houve ainda as maiores estrelas a brilhar — este megamundial teve tudo como os outros, golos bonitos e feios, e, no entanto, para mim será o Mundial de uma frase.
No programa matinal Posse de Bola do canal UOL, a jornalista Luiza Oliveira analisou a vitória dificílima da Argentina sobre o Egito, já mesmo pertinho do fim, à luz de Lionel Messi, que nesse jogo desperdiçou um penálti, marcou um golo e ofereceu outro. Recuperou então uma ideia de alguém que não conseguiu identificar. Mas fê-lo de uma forma que obrigou todos, no estúdio, e diria também em casa, a parar para pensar.
«Messi é o argentino que gostaríamos de ser. Maradona, ao contrário, é o argentino que somos», disse Federico El Negro Bulos, da ESPN Argentina. À medida que a Argentina foi progredindo no Mundial, às costas ou atrás de Messi, essa frase ganhou força. A jornalista e escritora Laura Di Marco, do jornal La Nacíon, Argentina, refletiu sobre isso e escreveu: «Um jogador de futebol na Argentina não é apenas isso: é um exemplo cultural ou, no pior dos casos, um contraexemplo opaco. E a nossa sociedade pode exibir ambos os casos.»
Identifica em Messi alguns comportamentos até de uma «humildade exagerada», mas que essa humildade o protege de tudo, privilégio de que nunca beneficiou Maradona, cuja frase que o caracteriza, para o argentino, é, segundo Laura Di Marco, «tens a lá dentro», cheia de violência sexual e característica do argentino que os argentinos não querem mais ser. Já se pode, agora, criticar o deus de um país arrasado e partido por crises económicas e que «só poderia alimentar a sua autoestima com o orgulho de ser uma potência futebolista». Maradona foi, também, mais do que isso, foi, como assinalou Luiza Oliveira, lutador e errático. Não se lhe perdoou tudo na Argentina, basta falar dele nas ruas de Buenos Aires para se ouvir depressa um «mas», sempre ligado às acusações de relacionamento e violação de uma menor.
Testemunhar o amor pelo futebol, clube ou seleção, na Argentina é, verdadeiramente, uma experiência inesquecível. Tive a felicidade de fazê-lo, em setembro de 2024, no Estádio Monumental, num Argentina-Chile, no jogo de homenagem a Di María. Faz tudo mais sentido. Já não consigo é dizer o que é Ronaldo para os portugueses, se o português que queremos ser ou se o português que somos. Provavelmente, nada disso.