Mundial
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Don Quixote de La... Fuente
No final do jogo com a Argentina, Luís de la Fuente sente-se um Don Quixote. Mas não é Cervantes que cita. É Júlio Iglésias, o cantor preferido. «Soy de aquellos que sueñan con la libertad... soy Quijote de un tiempo que no tiene edad». E maior liberdade não existe que vencer com as suas próprias convicções, sem cedências, conquistando a imortalidade, uma idade que não se mede em anos.
Aos 65 anos, Luís de la Fuente aparece amadurecido em pipas de carvalho. Como o fruto das castas da La Rioja natal, capital espanhola do vinho. Um processo lento, sem atalhos, que demorou décadas até atingir o esplendor máximo servido numa taça. A força vem do respeito pela natureza; vem da terra; da sabedoria de anos: do saber escutar os mais velhos. A força vem de olhar o céu, saber as horas pelo sol e contar as luas. Crescer no País Basco e passar peça formação no Athletic Bilbao refinou esse caráter — um clube histórico marcado pela ética de trabalho, solidariedade e forte sentido de identidade coletiva.
Esta Espanha não é feita de individualidades. Não é mais nem é menos do que a soma das partes. É a soma das partes. Não é a fúria espanhola que rompe caminho; não é o tiki-taka que desliza no relvado. É uma alquimia de redução de tudo à máxima simplicidade da eficácia. É dominar, com tranquilidade, segurança e competência, todos os momentos do jogo. É pensar e decidir bem em cada segundo. Espanha é aquele motorista que nos inspira segurança, mostra sempre que sabe o que está a fazer.
Estava a escrever este artigo quando recebo a notificação da morte de Luís Represas. Mas não são as canções que me vêm de imediato à cabeça. É o livro infantil «A Coragem de Tição», publicado em 2010. Tição é um pequeno cavalo-marinho. Vive com a sua família e amigos, rodeado de peixes perigosos e assustadores. É através do convívio e da entreajuda com os amigos que Tição descobre a força interior. Mais do que bravura física ou força, a verdadeira coragem que o pequeno cavalo-marinho demonstra vem da solidariedade, da empatia e do amor pelos outros.
Luis de la Fuente, o agricultor que, na federação, lançou a semente à terra e foi colhendo os frutos. Um líder discreto, sereno, sábio. Um excelente gestor de egos. Que me remete para uma brilhante reflexão de Harry S. Truman, antigo presidente dos Estados Unidos: «É impressionante o que se pode alcançar quando não importa quem leva o crédito.» Por norma, essas pessoas preferem desfrutar a caminhada do que o reconhecimento da meta. Até porque a meta não existe em absoluto, é sempre um ponto de partida para outra caminhada.
Seis séculos antes de Cristo nascer, já o pensador Lao Tsé defendia que «um líder é melhor quando as pessoas mal sabem que ele existe; Quando o seu trabalho está feito e o seu objetivo cumprido, elas dirão: fomos nós que o fizemos…» É esse um segredo dos mestres. Como Luis de la Fuente.