«Empatámos um jogo e fomos dançar... com a claque adversária»
Miguel Reisinho iniciou esta época uma nova etapa na carreira, ao trocar o Boavista pelos sul-africanos do Mamelodi Sundowns (treinado por Miguel Cardoso), mergulhando numa realidade bem diferente da europeia. Em entrevista a A BOLA, o médio português fala da adaptação a um futebol e a uma cultura distintos, marcados por um ambiente mais descontraído e festivo — ao ponto de já ter vivido um momento insólito: dançar com a claque adversária.
- Como surgiu a oportunidade de ires para a África do Sul e para o Mamelodi Sundowns?
- Acabou o contrato com o Boavista e já tinha planeado a minha saída do clube. Entretanto, deixei acabar a época e surgiram algumas situações. O mercado foi um bocado complicado, porque houve situações que eu não consegui controlar, foi meio atribulado. Mas, depois de passar o fecho do mercado em Portugal, surgiu a oportunidade de ir para o Mamelodi. Surgiu de uma forma que não estava à espera. Sou sincero, não conhecia o clube, mas depois deram-me condições e a nível financeiro era um projeto bom.
- Falar com o Miguel Cardoso influenciou a tua decisão?
- Sim, sem dúvida. Não conhecia nada da África do Sul, tinha acompanhado o clube por causa do Mundial de Clubes e pouco mais conhecia. O Miguel mostrou-me algumas coisas, como era a vida, o projeto, a maneira de jogarem e, sim, influenciou muito.
- Referiste um mercado atribulado. Queres desenvolver?
- Surgiram algumas situações que não conseguia controlar. Houve ali umas complicações e só passado algum tempo é que tive a possibilidade de encarar as coisas de outra forma. Depois, houve a oportunidade do Mamelodi, já numa altura final do mercado, aceitei e acho que fiz bem.
- Foi uma decisão fácil?
- Para ser sincero, não, porque eu não conhecia muito de África. Quando se fala de África, para a maior parte das pessoas, vem um pensamento negativo, mas a qualidade de vida aqui é muito boa. Claro que peca por outros aspetos, mas a qualidade de vida aqui é muito boa.
- Como tem sido a adaptação?
- As coisas aqui são muito diferentes. A cultura deles é distinta da nossa. Ao início tive, e ainda tenho, algumas dificuldades na integração às coisas que não estamos habituados na Europa. Eles têm uma maneira de viver muito diferente da nossa, hábitos que nunca tinha visto na minha vida.
- Que hábitos te surpreenderam mais?
- No campeonato, por exemplo, não há uma bola oficial para jogar, cada um tem a sua bola e troca de semana para semana. Não é obrigatório regar o campo, cada equipa faz o que quer. Ganhas ou percas, és obrigado a ir dançar com a claque... O futebol aqui é visto como divertimento. A exigência é alta, porque é um clube que está habituado a ganhar, mas não tem nada a ver com a Europa. Porque na Europa, se algo corre mal, sais debaixo de assobios e aqui não. É um bocado complicado, porque há valores que eu incuti em mim e não quero perder isso. Sou uma pessoa que gosta de ganhar, exigente e profissional, e aqui às vezes é complicado gerir essa situação.
- E fora dos relvados, como é que é o país e as pessoas?
- O país surpreendeu-me muito. É um país que acolhe bem as pessoas, com muita qualidade de vida. A zona onde eu moro é espetacular, não estranho nada. É tudo muito tranquilo. Nunca vi nada de anormal e sempre me senti seguro aqui. Claro que há algumas restrições - não se deve andar muito à noite -, mas de resto é tudo tranquilo. O tempo aqui é incrível, está sempre calor. As pessoas acolheram-me bem também. De forma geral, é um bom país para se viver, porque tens tudo e tens qualidade de vida, que é o mais importante.
- Quais foram as principais dificuldades na adaptação?
- O futebol é muito diferente do que estamos habituados. De forma geral, o futebol aqui está um passo atrás comparado com outros campeonatos. A nível de condições, o clube tem boas condições, mas não deixa de ser África. É tudo antigo, os relvados aqui não são da melhor qualidade, nem sempre regam os campos para ficar o jogo lento. Isso prejudica um bocado o espetáculo e o futebol que nós estamos habituados. A nível de vida, acho que me adaptei bem. Também estou aqui com o Nuno Santos, que é português e temo-nos ajudado um ao outro.
- Há algum hábito mais esquisito dos sul-africanos que estranhaste logo?
- Reza-se muito. Antes do jogo, antes dos treinos, antes das refeições, depois do treino, depois do jogo... Ao início, não estava habituado, mas é a maneira de eles interagirem e a forma como eles vivem, que é diferente da nossa. É uma forma mais descontraída, com mais felicidade também, porque não exigem tanto deles próprios. Mas estou a aprender muito, dá para tirar várias coisas positivas. Já fui a vários países de África, o que é um bocado assustador, mas tiras boas lições de vida. Já fomos à Nigéria, fomos agora recentemente à RD Congo também. É um país muito pobre e a maneira como eles vivem a vida, com pouco e são muito felizes, mexe um bocado connosco. Muitas vezes exigimos muita coisa e queremos muita coisa, mas o simples é o que é mais importante.
- Como avalias o campeonato sul-africano?
- O campeonato é bom. Somos a melhor equipa aqui. Quase todas as equipas contra nós defendem e tentam jogar para o empate. A nível geral, não é tão competitivo, porque tens uma ou duas equipas que são muito fortes e as outras são de nível muito mais baixo. O jogo em si não é muito bonito de se ver, é um jogo de muita corrida, duelos, muito desorganizado. Mas é um campeonato que tem jogadores com qualidade, sem dúvida, mas desnivelado.
- E o ambiente nos estádios?
- O Mamelodi é considerado um dos maiores clubes de África. E sim, nota-se quando se joga contra o Orlando Pirates, há um ambiente diferente, mas não é nada como na Europa. Por exemplo, tu vês adeptos do Pirates misturados com do Mamelodi, todos dançam, todos estão em festa. Em Portugal e na Europa, era impossível um adepto de um clube rival estar entre os outros a dançar, a conversar de forma natural. Nós jogámos contra o Pirates e adeptos do Kaizer Chiefs, que é o outro rival, estão no estádio. É visto como uma festa. Claro que há exigência, como é óbvio, ainda por cima para nós estrangeiros, temos essa responsabilidade. Mas é mais um contexto de festa dos adeptos que gostam de ir ao estádio e de aproveitarem.
- Alguma história curiosa em África?
- Estávamos a jogar em Siwelele, era um jogo importante, estávamos a ganhar e empatámos o jogo e, como é habitual, fomos dançar com a claque. Nós vamos dançar com a nossa claque, fizemos lá as coisas que tínhamos a fazer, íamos para o balneário e de repente chamam-nos para ir dançar… com a claque adversária. Depois de empatar um jogo. Começámos lá todos a dançar, a bater palmas com a claque adversária num jogo que tínhamos empatado e que em toda a gente estava triste. Foi o momento mais engraçado e que mais me marcou aqui na África do Sul. Nunca pensei que ia dançar com uma claque adversária, os adeptos adversários, depois de empatar um jogo ainda por cima, que era importante para nós.
- Quando acabas o contrato com o Boavista, o objetivo era sair de Portugal?
- O objetivo sempre foi sair de Portugal. Surgiram algumas situações do estrangeiro, depois, houve algumas situações em Portugal, e nunca fechei portas a Portugal e nem fecho, mas queria outro projeto, sair de Portugal, conhecer outras realidades, outros campeonatos, principalmente, na Europa, nos grandes campeonatos. Não foi possível, surgiu a oportunidade do Mamelodi, que era um desafio interessante e como tinha aqui treinador português e tudo, acabei por vir para cá com o intuito de desfrutar também.
- O objetivo é continuar no estrangeiro?
- O meu objetivo é cumprir os objetivos do clube esta temporada e, depois, aí sim, quando abrir o mercado, pensar e ver o que será melhor nesta fase da minha vida. Mas sim, não fecho a porta a Portugal nem a outro campeonato, como é óbvio. Gostava de, um dia, voltar ao futebol europeu.
- Houve uma situação no verão com o Sevilha. O que aconteceu?
- Sim, houve conversas, houve alguns detalhes com o Sevilha, mas nunca se chegou a realizar. O Sevilha também estava a passar alguns problemas e não se chegou a concretizar. Foi o que aconteceu.
- Era um objetivo jogar numa liga top-5?
- Sim, como é óbvio. Liga Espanhola, Liga Italiana, Premier League... esses são os campeonatos que eu priorizava. quando houve o interesse do Sevilha e sentir que havia essa possibilidade de ir para lá, claro que é sempre algo que nos motiva, mas não tinha de acontecer.
- Recebeste abordagens de mais clubes?
- Recebi muitas. Não vou dizer clubes em específico, mas sim, recebi muitas abordagens de Portugal e fora de Portugal também. Mas como a minha ideia passava por sair de Portugal, nunca pensei em ficar, só em último caso.