João Lucas - Foto: @jlsantos/instagram
João Lucas - Foto: @jlsantos/instagram

Herdeiro de central do escrete (e figura de peso ao lado de Ancelotti) renasceu no interior

Vitória de Sernache alcançou a Liga 3 nas asas de João Lucas, que carrega com leveza o legado do pai, antigo internacional canarinho. Cria do Flamengo pensou em abandonar a carreira, mas encontrou nova vida no distrito de Castelo Branco

Filho de peixe sabe nadar. O ditado popular encaixa que nem uma luva no mundo do futebol, onde um apelido pode simbolizar gerações de atletas. O legado é, em muitos casos, um peso difícil de carregar. Noutros, apenas serve de combustível para a construção da carreira com maior sucesso de toda a linhagem.

Em Cernache do Bonjardim, floresce a segunda geração de uma família habituada aos grandes palcos. João Lucas é filho de Juan, antigo internacional brasileiro em 79 ocasiões que representou Roma, Bayer Leverkusen, Flamengo e Internacional ao longo de 23 anos de carreira.

O antigo defesa central iniciava a quarta época ao serviço dos farmacêuticos quando celebrou o nascimento do primeiro filho, a 1 de agosto de 2005. Quase 21 anos volvidos, João Lucas Santos vive os primeiros anos da carreira sénior em Portugal ao serviço do Vitória Sernache.

Juan, antigo internacional brasileiro - Foto: IMAGO

O guarda-redes de 20 anos foi um dos destaques da segunda subida consecutiva do Vitória, que garantiu o bilhete para a próxima edição da Liga 3, com apenas 12 golos sofridos em 31 jogos disputados no Campeonato de Portugal. João Lucas, ainda assim, destacou o mérito coletivo, em conversa com A BOLA: «A nossa maneira de jogar também propiciou que eu pudesse sofrer menos golos. O compromisso ofensivo esteve lá. Fico muito feliz por ter ajudado nas vitórias e, consequentemente, na subida à Liga 3.»

João Lucas representa o Vitória desde 2024 Foto: @jlsantos/instagram

O Vitória Sernache terminou em primeiro lugar na Série B da fase de subida, mas perdeu a final do Campeonato de Portugal contra o Leça nos penáltis, a 10 de junho. João Lucas, que defendeu um castigo máximo, frisou que «ser campeão teria sido lindo», mas elogiou o «justo» vencedor.

A derrota no Jamor foi a exceção na regra do sucesso que pautou as duas últimas temporadas.

Do sonho quase perdido à nova vida no Interior

A felicidade em Cernache contrasta com a incerteza que marcava a carreira de João Lucas há três anos.

O guardião canarinho escalou as camadas jovens do Flamengo, ma chegou a uma encruzilhada depois de deixar o clube brasileiro no final de 2022. O nevoeiro da indefinição quase precipitou o abandono precoce da carreira de futebolista: «Passei um ano sem clube. Foi o ano mais difícil da minha vida, pensei muitas vezes em não continuar a jogar.»

João Lucas conta que já estava a avaliar a possibilidade de se focar nos estudos, quando uma porta se abriu em Portugal. «Tenho um teste no Portimonense, mas não fico. Ainda estava em Portugal quando o meu pai me disse ‘há outra equipa que te quer ver. Dá o teu melhor e depois vemos se ficam contigo’», explicou.

João Lucas treinou-se no União de Leiria, foi contratado e somou 13 jogos nos juniores entre fevereiro e maio de 2024. O fantasma da indefinição voltou a pairar, ainda assim, no verão quando o guardião não permaneceu no clube e viveu novo período «difícil e muito complicado».

O jovem guarda-redes «queria muito continuar em Portugal», e, após semanas de espera, a porta do futebol sénior abriu-se em Cernache do Bonjardim, na Distrital de Castelo Branco. «Aconteceu tudo muito rápido», contou. Do Rio de Janeiro para o Interior de Portugal em menos de um ano, encontrou «uma terra pequena que vive muito o clube».

João Lucas admitiu que «precisava de conciliar o futebol com uma vida tranquila fora de campo». «Foi muito diferente, mas muito bom. No Rio de Janeiro acontece tudo muito rápido. Ir para Cernache ajudou-me a focar no futebol. Fui sempre bem acolhido», garantiu.

De Leverkusen ao Rio de Janeiro, João Lucas admite que as mudanças constantes durante o crescimento prepararam-no para a volta de 180 graus que a vida deu em 2023: «Isso deu-me muita maturidade relativamente cedo. Ajudou já ter saído algumas vezes da zona de conforto.»

Precisava muito mais do Sernache do que propriamente o Sernache precisava de mim.

Se na Distrital de Castelo Branco o guardião admite que o clube «tinha grandes chances de ser campeão», o Campeonato de Portugal «foi algo totalmente novo para toda a gente.» «Não sabia o que esperar, jogo a jogo fomos provando que era possível. Ao longo da época o sonho começa a ficar mais perto», explicou.

Defesa central, coordenador técnico... e pai: a relação entre Juan e João Lucas

João Lucas não abre o jogo quanto ao futuro, mas frisa que terá uma ajuda preciosa no processo: «Eu digo que o meu pai é o melhor conselheiro que porque é muito vivido, mas também muito lúcido daquilo que é a realidade.»

A «voz da experiência» de Juan é «crucial» para o filho, «especialmente nos momentos em que as coisas não correm bem». «Tem sempre uma palavra de conforto sem fugir da realidade», reitera o jovem que desde cedo se habituou aos grandes palcos.

Juan e o filho no Bayer Leverkusen -Foto: jlsantos_01/instagram

João Lucas destaca que o «futebol sempre estive ali», quer tenha sido na Alemanha, em Itália ou no Brasil. «Se frequentas o ambiente de clube, os balneários, conheces os jogadores, não há como não contagiar», explicou

João Lucas e Juan, filho e pai. -Foto:jlsantos_01/instagram

De Francesco Totti aos «ídolos» Alisson Becker e Júlio César, ex-Benfica, o jovem atualmente de 20 anos cresceu ao lado das estrelas mais brilhantes e a tratar os corredores dos estádios por tu. Para João Lucas, ainda assim, a convivência é «muito natural» pois «sempre aconteceu».

O guarda-redes de 20 anos frisou que «nunca» sentiu o peso do apelido. «O meu pai deixou-me sempre muito à vontade para escolher o que queria e o que me fizesse feliz», garantiu. A carreira «muito bonita» de Juan, que pendurou as botas no Flamengo em 2019, é «motivo de orgulho» para o filho. «Quanto mais cedo entenderes que o nome que carregas tem um legado, mais em paz vais ficar. Há privilégios, mas também responsabilidades», frisou.

«Há experiências que o dinheiro não compra. Digo sempre aos meus amigos que são pessoas muito normais.  Mas é incrível ver de perto o que esses jogadores fazem. Aprendes muito», frisou. João Lucas conta que mantém relação de amizade com Vinícius Jr, uma das figuras do presente do futebol brasileiro.

João Lucas e alguns ídolos da posição e do Flamengo em jogo de beneficiência disputado no Maracanã - Foto:jlsantos_01/instagram

No dia a dia da seleção segue Juan, que exerce a função de coordenador técnico. O guardião do Vitória de Sernache não esconde o «orgulho muito grande» que sente no pai, que disputou o terceiro Mundial da carreira em 2026. «É um privilégio poder ver o meu pai na televisão a fazer aquilo que ele ama. O futebol deu-nos muito ao longo da vida», reiterou.

Juan é coordenador técnico do Brasil - Foto: IMAGO

Juan já tinha representado o Brasil como jogador nos Mundiais de 2006 e 2010, mas, para João Lucas, o primeiro como coordenador teve um simbolismo «diferente.»

O futebol corre nas veias de um apelido habituado a grandes palcos, mas que encontrou um ponto de viragem em Cernache do Bonjardim.

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