O ciclo menstrual é um tema ainda muitas vezes tabu — Foto: IMAGO
O ciclo menstrual é um tema ainda muitas vezes tabu — Foto: IMAGO

Desporto no feminino: entre hormonas e rendimento

Desportiva_MENTE é o espaço de opinião de Liliana Pitacho, Psicóloga e docente no Instituto Politécnico de Setúbal

Comparamos demasiadas vezes o desporto feminino com o masculino, como se fossem realidades equivalentes e apenas separadas por força, velocidade ou visibilidade mediática.

A comparação é, muitas vezes, irrealista e desajustada. Não porque o desporto feminino deva fugir à exigência, mas porque continua a ser lido a partir de um modelo construído sobre o corpo masculino.

Uma dessas especificidades é o ciclo menstrual, um tema ainda muitas vezes tabu. Ao longo do mês, as oscilações de estrogénio e progesterona podem associar-se a alterações na temperatura corporal, retenção de líquidos, dor, apetite, sono, fadiga, humor, perceção de esforço e recuperação.

A evidência científica sugere que a performance física pode variar ligeiramente ao longo do ciclo. Sendo que não há uma regra igual para todas as mulheres, mas existem tendências que nos indicam o caminho para boas práticas. Por exemplo, alguns estudos que apontam para vantagens de concentrar estímulos de força na fase folicular, quando algumas respostas fisiológicas podem ser mais favoráveis. Isto não significa treinar menos na fase lútea, significa ajustar cargas, recuperação, hidratação, sono e expectativas quando há sintomas.

Estas alterações não são apenas físicas. Algumas alterações hormonais ao longo do ciclo têm sido também associadas à ansiedade, ao stress, às alterações de humor, à fadiga e ao pior sono. E a performance não vive só de resposta física, vive também de atenção, decisão, tempo de reação, confiança e controlo emocional. Uma atleta que dorme pior, recupera menos, sente dor ou está emocionalmente vulnerável pode não perder talento, mas pode perder prontidão para competir melhor.

As recomendações mais recentes no futebol feminino, incluindo documentos de consenso da UEFA, apontam para uma utilização prudente do tracking menstrual. Na prática, o tracking menstrual pode ser utilizado como uma ferramenta simples de autoconhecimento e comunicação entre atleta, equipa técnica e equipa clínica. Através do registo regular do ciclo, dos sintomas físicos, do sono, da fadiga, do humor, da dor, da percepção de esforço e da recuperação, torna-se possível identificar padrões individuais ao longo do tempo. Esses dados podem ajudar a ajustar cargas de treino, planear estratégias de recuperação, antecipar períodos de maior desconforto, adaptar hidratação e nutrição, ou simplesmente abrir espaço para uma conversa mais informada sobre bem-estar e rendimento.

Neste caso o equilíbrio é o ponto central, nem ignorar o ciclo, nem biologizar a atleta.  Acreditar que a performance no feminino se rege ao longo do mês pelo mesmo padrão é utopia, mas quando bem utilizadas as oscilações hormonais podem deixar de ser um contratempo para passar a ser uma ferramenta de performance.

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