Uma seleção nacional não existe para derrotar jornalistas, comentadores ou adeptos desiludidos - Foto: Imago
Uma seleção nacional não existe para derrotar jornalistas, comentadores ou adeptos desiludidos - Foto: Imago

Uma vitória não tem inimigos

'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

Alguns treinadores convocam jogadores. Outros convocam uma nação. A diferença não está na tática. Está na linguagem. Está nas palavras que escolhem quando o jogo acaba e o microfone se aproxima.

Porque uma seleção nacional não veste apenas camisolas. Veste memórias, pronúncias, divergências, afetos. Transporta um país inteiro às costas. E um país nunca cabe dentro de um balneário.

Carlo Ancelotti percebeu isso no Brasil. Quando decidiu chamar Neymar de volta, não chamou apenas um futebolista.

Chamou um símbolo. Sabia que as pernas de Neymar já não resolvem tudo, mas também sabia que há coisas que não se medem em quilómetros percorridos. Medem-se no brilho dos olhos de quem volta a acreditar. Um Mundial também se joga nesse território invisível onde a esperança vale tanto como um drible.

Scaloni compreendeu a mesma lição há muito tempo. Nunca utilizou Messi para separar os argentinos. Fez precisamente o contrário. Transformou-o num ponto de encontro. Nunca alimentou guerras com quem criticava a seleção. Nunca precisou de inventar inimigos para fortalecer o grupo.

Percebeu que a identidade de uma equipa cresce quando deixa de procurar culpados e começa a oferecer motivos para acreditar. Essa é uma virtude dos grandes líderes. Não gastam energia a dividir. Administram-na para unir.

Portugal parece ter escolhido outro caminho. Depois da vitória sobre o modesto Uzbequistão, vários jogadores e o próprio selecionador insistiram na ideia de que a resposta tinha sido dada aos críticos.

Falou-se demasiado dos portugueses que acreditam e dos portugueses que criticam. Como se existissem duas seleções. Como se o país estivesse condenado a escolher um dos lados.

É uma armadilha. As críticas ao empate com a RD Congo não nasceram da maldade nem da falta de patriotismo. Nasceram de um mau jogo perante um adversário acessível. Fazem parte da exigência que acompanha as grandes seleções. Quem veste aquela camisola pede aplausos quando joga bem e deve aceitar perguntas quando joga mal. É o contrato invisível entre uma equipa nacional e o seu povo.

Ganhar continua a ser a forma mais poderosa de reconciliar um país. E se for a jogar bem ainda melhor. Mas vencer não obriga ninguém a falar em vingança. Muito menos depois de um triunfo esperado contra o modesto Uzbequistão. A vitória pode fechar uma discussão. Não precisa de abrir outra.

Os grandes selecionadores sabem que uma nação não se governa emocionalmente contra alguém. Governa-se a favor de todos. É por isso que Ancelotti tem a inteligência de apresentar Neymar como património afetivo do Brasil. É por isso que Scaloni fala de Messi como quem fala de um velho amigo que pertence a todos os argentinos.

Não procuram convencer apenas quem acredita. Procuram também recuperar quem duvida. Porque a dúvida não é uma traição. É apenas uma forma imperfeita de amar.

Uma seleção nacional não existe para derrotar jornalistas, comentadores ou adeptos desiludidos. Existe para representar um povo inteiro. Inclusive aqueles que sofreram demasiado para aplaudir de imediato.

No futebol, como na vida, há vitórias que somam pontos e há vitórias que somam pessoas. Aqui vale a pena recordar 2004.

Portugal começou a perder, mas acabou por caminhar inteiro. Scolari nunca pediu que o país escolhesse um lado.

Pediu apenas que escolhesse a bandeira. E talvez seja essa a primeira vitória que qualquer seleção deve procurar.

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