«Gosto de viver»: combater o envelhecimento e a solidão a jogar futebol... a andar
O relógio ainda precisava de caminhar mais 30 minutos para marcar a hora do pontapé de saída quando as primeiras jogadoras avistaram o retângulo dos sonhos em Santo António da Charneca, no Barreiro. Três amigas ajudaram-se mutuamente a sair do autocarro que parara a largos metros de um mundo novo dominado por uma bola.
Adília, jovem de 82 anos, vislumbrou com desconfiança o Campo José Marques da Silva, casa do Santoantoniense. A dúvida provocada pela ausência de agitação contrastou com o alívio pela confirmação de que estavam no lugar certo: às 10h teria início uma demonstração de walking football.
«Quem é que está pronta para meter golos? Quando for mais nova quero ser jogadora de futebol», brinca Adília em conversa com as amigas e companheiras de aulas de ginástica. Viúva há treze anos, a idosa finta a idade em prol de uma vida ativa e ocupada: «Tenho 28 anos, não parece, mas tenho. Sinto-me bem, em dezembro faço 38. É preciso é saúde e faço por isso: faço ginástica, dança e expressão corporal.»
A solidão não tem tarefa fácil contra um exemplo de boa disposição e vivacidade. «Não estou muito tempo em casa, tenho estas atividades todas, vim jogar hoje. Também vou ao baile, não para arranjar namorado, mas para dançar, para me divertir», frisa, sorridente.
Os professores das aulas de ginástica que frenquenta incentivaram a inscrição na iniciativa organizada em conjunto pela Associação de Futebol de Setúbal, Federação Portuguesa de Futebol, Câmara Municipal do Barreiro e pelo Santoantoniense. O objetivo? Demonstrar que é possível continuar a jogar futebol depois dos 50 anos.
Caminhar para alimentar o 'bichinho'
À medida que o ponteiro pequeno e grande do relógio caminhavam ao mesmo ritmo para os braços dos números 10 e 12, respetivamente, as imediações do campo do Santoantoniense ganhavam vida. Dezenas de participantes com idade superior a 50 anos reuniam-se à junto ao relvado à espera de luz verde para iniciar um treino da modalidade desenhada entre limites físicos desta faixa etária.
A iniciativa reúne curiosos sem experiência prévia com a bola nos pés, mas também apaixonados pelo desporto-rei cujas história de amor contam com dezenas de capítulos. José Banastrinha, único participante com uma peça de vestuário alusiva a uma equipa de futebol, integra a segunda categoria.
O antigo jogador de futebol e futsal e atual treinador de 67 anos acumulou, segundo o próprio, um «historialzinho» em clubes do distrito de Setúbal nas últimas décadas. A transição para o banco de suplentes não significou o adeus à prática da modalidade, mas obrigou a recalcular a rota, primeiro para a equipa de veteranos do SC Vinhense e posteriormente… para o walking football.
O treinador marcou presença numa das primeiras iniciativas de walking football no Barreiro para conhecer os principais procedimentos necessários e regras a cumprir para a criação formal de uma equipa. Os primeiros passos, ainda assim, já foram dados nos últimos dois meses. «Vimos que esta modalidade estava em desenvolvimento e experimentámos. Realmente é agradável e dá vontade de continuar. Treinamos uma hora por semana à quintas-feiras. Neste momento temos 17 jogadores disponíveis, conseguimos sempre 10/12 por treino», explicou a A BOLA, lado a lado com o amigo José Anjos.
O militar na reforma, também de 67 anos, também integra a equipa de walking football que treina semanalmente no campo do SC Vinhense e que ainda caminha até à formalização junto da AF Setúbal. O principal objetivo assenta na criação de equipas para ambas as modalidades de walking football: a «competitiva», com classificação e talhada para ex-atletas, e a «recreativa», sem classificação e desenhada para pessoas com mais limitações físicas e menos afinidade com o desporto-rei.
É uma maneira da malta sair do sofá. Dá-nos alguma mobilidade e até preparação física
«É uma maneira da malta sair do sofá, especialmente nas nossas idades. Apesar de ser futebol a andar, é um pouco acelerado. Dá-nos alguma mobilidade e até preparação física. Saímos dos treinos cansadinhos», contou, sem menosprezar a importância da vertente humana.
A «terceira parte» é destacada pelos dois amigos como o momento de descompressão e camaradagem que une vidas desprovidas, na maioria dos casos, da rotina da vida laboral. «O aspeto mais importante é reunirmos os amigos e divertirmo-nos. Desde os veteranos que temos as nossas terceiras partes em que petiscamos, conversamos e brincamos uns com os outros», frisou Banastrinha, identificável pelo casaco que vestia, alusivo ao Palmelense Futebol Clube, última equipa que treinou.
Chegamos a uma certa altura em que o mais importante já não é ganhar
As limitações inerentes à passagem do tempo diminuem a importância do resultado final e elevam o nível de gratidão por continuarem a entrar em campo: «Chegamos a uma certa altura em que o mais importante já não é ganhar, é estar presente, participar e…andar.»
«É uma razão para nos levantarmos da cama»
O fim de conversa com José Banastrinha e José Anjos antecede a entrada no relvado de mais de uma centena de participantes inscritos, com idades compreendidas entre os 50 e os 87 anos, e o primeiro contacto com André Coelho, selecionador nacional de walking football. O técnico responsável por dirigir mais uma demonstração da modalidade que já conta já com mais de 2.800 praticantes em Portugal frisou, em conversa com o grupo, que o walking football «pode ser muitas coisas» e que «quem faz a diferença são os atletas».
«Não é preciso acertar sempre na bola, mas às vezes convém», expressou ironicamente para gáudio da audiência que acompanhou com atenção a mensagem transmitida. O companheirismo é fator inegociável para a satisfação de todos os atletas: «Todos sem exceção têm de se divertir e para isso é preciso ajudar o colega do lado a divertir-se.»
O fim da palestra inicial antecedeu o início da demonstração e o consequente treino, adaptado para a adesão acima das expectativas das entidades organizadoras. André Coelho divide o grupo em seis conjuntos compostos por oito a dez inscritos para um exercício de passea.
A unicidade do evento atrai dezenas de pessoas, algumas delas inscritas, que assistem junto ao relvado. «Estamos no camarote», brinca um grupo de senhoras sentadas em quatro cadeiras de plástico. Para sair de casa e fintar a solidão não é preciso jogar, basta estar presente: «É uma razão para nos levantarmos da cama.»
O futebol dá um prazer imenso, é uma coisa extraordinária
Em sentido contrário, José Banastrinha participa na atividade e é um dos capitães dos seis grupos que competem de forma saudável pela realização de cada exercício antes dos adversários. O treinador tira notas para o futuro, mas, ao mesmo tempo, alimenta o bichinho do desporto-rei no presente: «O futebol dá um prazer imenso, o jogo em si é uma coisa extraordinária. Não há descrição. Não há uma sensação igual. É o que nos faz continuar.»
A filosofia de Adília numa modalidade em crescimento
André Coelho volta a reunir os participantes num círculo no tapete verde para assinalar o término dos exercícios de passe e anunciar a realização de um jogo, bem mais curto em relação à duração habitual (40 minutos). A extensa base de recrutamento obriga à escolha de seis elementos para cada equipa em vez dos habituais cinco. Quatro postes amarelos simbolizam duas balizas que os participantes têm dificuldades em visar desde o apito inicial.
A proibição da corrida condiciona alguns candidatos a velocistas, cuja falta de experiência justifica o ritmo caótico das primeiras partidas. A troca dos intervinientes não adorna minutos marcados pela anarquia, falta de largura no campo e ausência de contacto físico entre os atletas, proibido pelas leis de jogo do walking football.
Os dois plantéis começam a ficar desfalcados pela saída de atletas que faziam contas aos deveres vespertinos ou que… esperavam uma modalidade mais ritmada. Perpétua Coelho, 65 anos, de saída poucos minutos antes do final elogiou o treino «engraçado», mas admitiu que tinha a «esperança» que este «fosse mais mexido». «É importante conviver, mas talvez fosse bom separar as pessoas de 60, mais ativas, e as de 80 anos. Torna-se desequilibrado», sugere.
Em sentido contrário, Adília emanava satisfação no final do treino. «Correu-me muito bem, parecia o Cristiano Ronaldo», atirou com humor, após ter reposto energias no balneário. A idoso elogiou André Coelho, o «professor da bola», que considerou «muito simpático», mas também «rigoroso». «Nem na brincadeira» Adília tinha jogado futebol, desporto pelo qual nunca nutriu particular apreço até uma solarenga manhã em Santo António da Charneca.
Correu-me muito bem, parecia o Cristiano Ronaldo
«Correu tudo bem, para o ano volto se tiver saúde. Divirto-me sempre. Gosto de viver», frisa com um sorriso comovente antes de regressar à paragem de autocarro para continuar a rotina de quem mantém o corpo e a mente em alta rotação, aos 28 anos
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