Festejos coletivos no golo de João Neves (MIGUEL NUNES)
Festejos coletivos no golo de João Neves (MIGUEL NUNES)

Admirável homem das Neves no deserto estéril de Houston (os jogadores de Portugal)

Houve um homem que foi até perto da pequena área marcar de cabeça. Podia ter sido Cristiano Ronaldo, mas foi João Neves. E foi ele também o único que verdadeiramente conseguiu ser fértil nos 90 minutos de estreia
(7) João Neves (1 jogo e 1 golo em Mundiais)

Parecia um ponta de lança, parecia um gigante, parecia Cristiano Ronaldo: subiu, subiu, subiu e marcou de cabeça o primeiro de Portugal. Craque! Entrada fulgurante no jogo de Houston e, ao longo do tempo, embora sem atingir o nível que todos lhe reconhecem e que tem demonstrado no PSG e na Seleção, foi sempre o jogador de Portugal com o rendimento mais constante e elevado. Esteve bem a tapar alguns espaços por onde os congoleses, sobretudo na segunda parte, tentavam passar e ainda fez, logo a abrir a segunda metade, uma assistência de peito para o golo de bicicleta (anulado) de João Cancelo. Sabe-se que o trio de médios de Portugal é de altíssimo nível, mas, nesta abertura de Mundial para Portugal, apenas João Neves andou mais ou menos perto do rendimento médio/alto. Espécie de admirável homem das Neves, o único que conseguiu ser fértil num jogo atacante muito estéril de Portugal.

(5) Diogo Costa (6 jogos em Mundiais) — Nenhuma defesa de grau de dificuldade elevado ou sequer mediano e sem culpa no golo de Wissa. Kayembe, aos 33’, obrigou-o à primeira defesa, mas nada de muito complicado. Porém, mesmo em cima do intervalo, após cruzamento da direita, Wissa subiu bem alto e enviou, de cabeça, um míssil indefensável para Diogo Costa. Fica para a história como tendo sofrido o primeiro golo da RD Congo (antigo Zaire) em fases finais de Mundiais. De resto, tentou usar o seu longo e preciso pontapé, mas ninguém lhe deu seguimento.

(6) João Cancelo (5 jogos e 0 golos em Mundiais) — Muito mexido, muito ofensivo, sempre de olho na busca de inventar espaço e perigo na área do Congo, mas pouca coisa lhe saiu bem no primeiro tempo. A abrir o segundo, aos 55’, marcou um grande golaço de bicicleta, após assistência de João Neves com o peito. Azar dos azares: Cancelo estava fora de jogo. Passou para a esquerda aos 72’, após a saída de Nuno Mendes e a entrada de Nélson Semedo, e subiu um pouco de rendimento — como num cruzamento rasteiro que, se a bola passa, encontrava Ronaldo sozinho junto ao poste esquerdo.

(5) Tomás Araújo (1 jogo e 0 golos em Mundiais) — Entrava pelos olhos dentro que seria titular e a razão era básica: nunca, com Roberto Martínez, Portugal jogou com dois esquerdinos no eixo da defesa. Demasiado passivo no golo do Congo, permitindo que Wissa saltasse sem a mínima oposição. Fez um corte muito bom, já com a segunda parte bem avançada, a evitar que Bakambu se isolasse frente a Diogo Costa. Esteve bem ainda, já na compensação, ao parar Wissa, que seguia para a baliza em excelentes condições para poder marcar. Levou amarelo e talvez tenha escapado ao vermelho.

(5) Renato Veiga (1 jogo e 0 golos em Mundiais) — Ganhou o lugar a Gonçalo Inácio para a estreia no Mundial. Não esteve muito em jogo durante o primeiro tempo, quase se limitando, tal como Tomás Araújo, a gerir tempo e espaço. Esteve mais em ação após o intervalo, mas sem grande destaque, a defender ou a tentar atacar.

(5) Nuno Mendes (2 jogos, 0 golos em Mundiais) — Meia dúzia de arrancadas pela esquerda, a combinar bem nos movimentos com Pedro Neto. Fez uma exibição ainda a meio gás, longe do lateral fulgurante que o mundo conhece.

(4) Vitinha (4 jogos, 0 golos em Mundiais) — Esperou, esperou, esperou, até que se decidiu a abrir na esquerda para o cruzamento milimétrico de Pedro Neto que terminaria no golo de João Neves. Até sair, aos 83’, teve muita bola, conseguiu rodá-la por ambos os flancos, recuou para junto de Renato Veiga e de Tomás Araújo para começar a construção, mas sem nunca voltar a encontrar a fórmula ideal para perfurar a muralha do Congo.

(5) Bruno Fernandes (7 jogos, 2 golos em Mundiais) — Só ele e Ronaldo, no onze inicial, sabiam o que era marcar num Mundial. Não foi ainda o médio que Portugal e os portugueses esperam, sem espaço para usar o seu forte remate de meia-distância. Teve uma grande abertura para a entrada de Nuno Mendes pela esquerda e um tiraço junto ao poste esquerdo, aos 90’. Muito tarde para quem tem a potência de remate do 8 de Portugal.

(3) Bernardo Silva (10 jogos, 0 golos em Mundiais) — Não era dia para aparecer o virtuoso e cerebral 10 de Portugal. Andou encostado à direita, foi derivando para o meio, mas nada lhe saiu bem. Saiu ao intervalo, talvez por já ter um cartão amarelo, mas também por estar com um rendimento muito longe do rendimento do grande Bernardo Silva.

(4) Cristiano Ronaldo (23 jogos e 8 golos em Mundiais) — Sexta fase final e à procura de ser o primeiro a marcar em seis edições. Porém, sem bola, ninguém marca — seja Ronaldo, Ramos ou Guedes. E Ronaldo teve pouca bola. Só aos 68’, após passe atrasado de Francisco Conceição, teve a primeira oportunidade (semioportunidade, aliás). Pouco depois, aos 74’, teve uma oportunidade semelhante, com a bola a sair ao lado. Recuou algumas vezes para ajudar na construção, mas já não é esse o seu hábitat. O seu hábitat é a área, mas com pouca bola, como diria La Palisse, há poucos golos. Ou nenhum.

(6) Pedro Neto (1 jogo e 0 golos em Mundiais) — Pegou na régua, no esquadro, no compasso e no transferidor e, zás, colocou a bola, bem redondinha, na cabeça de João Neves: golo. Melhor cruzamento era impossível. Foi tentando, ao longo do tempo, repetir o cruzamento perfeito, mas os congoleses, percebendo o perigo que podia nascer do pé esquerdo de Pedro Neto, nunca mais o permitiram.

(6) Francisco Conceição (1 jogo e 0 golos em Mundiais) — Num jogo morno, insípido, inodoro e incolor, pedia-se um agitador. E o esquerdino entrou ao intervalo. Tentou meia dúzia de vezes e chegou a oferecer a Ronaldo a possibilidade de marcar. Não se deu muito bem com o físico poderoso dos congoleses, embora tenha estado um ou dois degraus acima de Bernardo Silva.

(4) Rafael Leão (6 jogos, 2 golos em Mundiais) — Gosta de ter um latifúndio à sua frente para poder arrancar, galgar metros e criar perigo, mas, quando entrou, o Congo estava encostadinho à sua área e, numa caixinha de fósforos, dificilmente criaria perigo frente a Aaron Wan-Bissaka. E não criou. Tentou uma ou duas vezes e poucas coisas lhe saíram bem.

(5) Nélson Semedo (1 jogo e 0 golos em Mundiais) — Pouco mais de 20 minutos em campo, mas a dar indicações de que, se for preciso, entrará sem medo logo de início. Não se notaram diferenças entre Cancelo à direita e Semedo à direita.

(-) Gonçalo Ramos (5 jogos, 3 golos em Mundiais) — Pouquíssimo tempo em campo para jogar ao lado de Ronaldo. E, como aconteceu com o capitão, sem bola não há golos. Pior ainda: sem bola e sem minutos, a possibilidade de marcar é baixíssima.

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