Gordon Ramsay fala do banquete para Pelé e da arte de Beckham na cozinha
O famoso chefe de cozinha Gordon Ramsay recorda no The Athletic alguns dos momentos únicos que partilhou com as maiores estrelas do futebol mundial. O irascível chefe sabe de cor o menu que preparou em 1998 e o onze inicial de uma equipa lendária. A 11 de julho desse ano, na véspera da final do Mundial em Paris, Ramsay foi convidado a cozinhar um banquete para 2000 pessoas no Palácio de Versalhes, uma proposta que inicialmente recusou.
«Quando disseram que era para 2000 convidados, pensei: 'Devem estar a brincar comigo'. Não estava interessado. Mas depois, quando mencionaram o convidado de honra mudei de ideias». O convidado não era da realeza francesa, mas sim da do futebol: Pelé, o Rei.
«Estou dentro!», respondeu Ramsay de imediato. Quase três décadas depois, o chef ainda se lembra de cada prato servido naquela noite. «Era uma bela salada de espargos de inspiração francesa. Algo leve, perfumado e de fácil digestão», descreve. «O prato de peixe era um belo robalo assado na frigideira, mas servido com um topo de peixe leve e perfumado, temperado com baunilha de Madagáscar. Depois disso, tivemos um belo filet mignon com girolles a la creme e, para sobremesa — nunca me esquecerei —, um fondant de chocolate com um gelado de chocolate de leite».
Longe de se sentir esgotado pela experiência, Ramsay afirma: «Nunca quis que acabasse». No final do serviço, pediu a Pelé que lhe autografasse uma camisola do Brasil. O tricampeão do mundo fez mais do que isso. «Ele estava a tentar escrever o menu na porcaria da camisola», conta Ramsay a rir. «Não se preocupe com isso. Basta: ‘Para o Gordon’. Está ótimo!». A camisola está agora emoldurada na sua garagem.
"Honestly from a chef’s point of view, having David [Beckham] as a best mate, having played with Maradona and having cooked for Pele... f*** it, I’m done."
— The Athletic | Football (@TheAthleticFC) June 24, 2026
As part of our Why I Love The Beautiful Game series, @GordonRamsay speaks to @JamesHorncastle about Beckham’s risotto,… pic.twitter.com/giJ9ARutMT
Anos mais tarde, em 2006, Ramsay teve outra experiência inesquecível, desta vez com Diego Maradona. O chefe escocês foi escolhido para capitanear a equipa do Resto do Mundo contra a Inglaterra no jogo de caridade Soccer Aid. «Ainda me lembro de estar no túnel em Old Trafford», recorda. «Mãos nos meus ombros. Olho para a esquerda, olho para a direita e o Diego Maradona está a tocar-me nos ombros, a perguntar-me se estou pronto. Eu penso: 'Que raio... Meu Deus'».
Durante os treinos, Ramsay sofreu uma pequena rotura no adutor, mas isso não o impediu de viver um momento mágico. «Vi que ele recebeu a bola e olhei para cima. Ele olhou para mim e, antes mesmo de eu começar a correr, a bola já estava a meio do voo e foi simplesmente...». Ramsay acelerou para não desiludir o astro argentino. «Controlei a bola, driblei o defesa e fui derrubado fora da área. Foi um momento lindo, um momento que guardarei para o resto da minha vida, porque, pela primeira vez na minha carreira, ajudou a preencher o vazio do que não consegui no futebol».
Antes de se tornar uma estrela da culinária, o primeiro sonho de Gordon Ramsay foi ser futebolista. O seu herói era Stuart Pearce, um «defesa-esquerdo duro» que «ninguém ultrapassava». Apesar das suas raízes escocesas, Ramsay cresceu em Oxfordshire e chegou a jogar pelo Banbury United e a fazer testes no Oxford United. Foi observado num jogo da Taça da Juventude da FA e convidado para ir ao Ibrox, estádio do Rangers, o seu clube do coração.
Contudo, o sonho terminou abruptamente. «Tudo ruiu muito rapidamente com uma lesão horrível no joelho», lamenta. «Esmaguei a cartilagem e rompi o ligamento cruzado do joelho esquerdo. Aos 18 anos, estava na sucata. Foi um grande golpe».
Gordon Ramsay, hoje um chef de renome mundial, recorda a desilusão que sentiu ao ver a sua carreira no futebol terminar abruptamente, um momento que, paradoxalmente, o catapultou para o sucesso na alta cozinha. O sonho de jogar pelo Rangers foi interrompido, mas a dor dessa perda transformou-se em motivação.
«Fiquei arrasado, chorei rios de lágrimas. Não conseguia acreditar», confessou Ramsay sobre o momento em que foi dispensado. Foi a sua mãe que o incentivou a reerguer-se: «Foi a minha mãe que disse: 'Tens de te recompor, sacudir o pó e voltar mais forte'.» Este conselho marcou o início de uma nova jornada. «De muitas maneiras, foi uma segunda oportunidade quando a cozinha começou. Estava determinado a chegar ao topo sem que ninguém me parasse.»
O regresso a Inglaterra foi um período difícil. Enquanto os seus antigos colegas do Rangers, como Ally McCoist, começavam a brilhar pela seleção da Escócia, Ramsay encontrava-se a trabalhar numa cozinha de banquetes. «De rabo entre as pernas, voltei para Inglaterra e, para mim, foi ainda mais difícil, porque os jogadores com quem eu jogava no Rangers estavam todos a singrar. O Ally McCoist estava a estrear-se pela Escócia e eu estava a descascar chalotas numa cozinha de banquetes, a cozinhar para 400 pessoas. Doeu.»
A desilusão, no entanto, tornou-se um motor. O novo objetivo era claro: «Três estrelas Michelin era a lista de desejos. Era o sonho impossível. Perdi-me em França. Desapareci em Paris e dediquei-me ao trabalho.»
Aos 22 anos, trabalhou com alguns dos melhores chefs do mundo, muitas vezes sem remuneração, apenas para adquirir conhecimento e técnica. Esta experiência foi crucial para conquistar a sua primeira estrela Michelin em 1994, no restaurante Aubergine, em Londres.
A sua ligação ao futebol, porém, nunca desapareceu. Num jogo do Soccer Aid em Wembley, voltou a envergar a braçadeira de capitão, desta vez ao lado de Zinedine Zidane. A fluência em francês permitiu-lhe criar uma ligação imediata com a lenda francesa. «Ele era como uma bailarina com a bola», descreve Ramsay, acrescentando: «Eu era o único que conseguia falar francês fluentemente com ele. Ele estava um pouco contido e, no momento em que lhe falei em francês, ele iluminou-se e tornámo-nos uma espécie de melhores amigos.»
Fora dos relvados, um dos seus melhores amigos é David Beckham. Ramsay reconhece com admiração o talento culinário do ex-futebolista. «Infelizmente, o David Beckham é um chef muito talentoso», admite. «Perto do final da sua carreira, a jogar em Itália, ele terminava o treino de manhã e enviava-me vídeos e fotos lindos dos seus risotos de uma escola de culinária em Milão. Eu disse-lhe: 'Ficaste demasiado bom. Já nem vou cozinhar para ti, porque, meu, tu percebes disto!'»
O conceituado chefe de cozinha Gordon Ramsay, numa entrevista exclusiva ao The Athletic, partilhou detalhes sobre o seu papel no serviço de catering da final do Campeonato do Mundo, revelando os pratos específicos que preparou para estrelas como Pelé e David Beckham.
Ramsay descreveu a enorme pressão de confecionar uma refeição de celebração para a equipa vencedora, destacando as exigências alimentares das maiores figuras do torneio. «O Pelé pediu o seu próprio guisado de peixe especial, um clássico brasileiro», partilhou o chefe. «O Beckham, por outro lado, queria um clássico e perfeitamente cozinhado risoto de cogumelos selvagens».
Apesar da sua agenda preenchida com filmagens, Ramsay, de 59 anos, mantém a sua paixão pelo futebol. Recentemente, visitou o campo de treinos da Escócia em Boston e planeia assistir a alguns jogos. O chefe está particularmente entusiasmado com o regresso da sua seleção a um grande torneio.
«Já tardava», afirmou Ramsay. «Quase 30 anos desde que estivemos no Mundial. Mas estou entusiasmado pelos adeptos. Estou entusiasmado por os nova-iorquinos verem 5000 escoceses a correr pela Quinta Avenida de kilt e sem a m@### da roupa interior. Que Deus os ajude a todos. Espero que gostem de ruivos!»
«Honestamente, do ponto de vista de um chefe, ter o David como melhor amigo, ter jogado com o Maradona e ter cozinhado para o Pelé; f*-se, estou feito».