Freire goleia Conceição
PORTUGAL, no desporto, vive, infelizmente, numa monocultura pouco colorida, com o futebol a sobrepor-se às demais modalidades (e não são poucas e também têm muitos sucessos). O futebol, no nosso País, é, sobretudo, FC Porto, Sporting e Benfica, emblemas dominantes nos adeptos e nos títulos.
Na ronda 4 da Liga, dois clubes regressados à principal competição, Chaves e Rio Ave, surpreenderam rivais todo-poderosos. Os flavienses, em Alvalade, derrotaram leões com menos garras do que no passado recente, enquanto os vila-condenses receberam o campeão nacional e venceram-no!
Focando-me no duelo entre os clubes campeões da Liga 2 e da Li- ga de 2021/2022, impossível não elogiar as palavras de Luís Freire, técnico do Rio Ave, após a conferência de Imprensa do homónimo do FC Porto. Sérgio Conceição, muito mais experiente e bem-sucedido, escolheu mal o técnico adversário como alvo da frustração pelo insucesso portista.
Fê-lo socorrendo-se de mentira, apontando o dedo ao antijogo que o rival não praticou, como demonstram a estatística do Rio Ave, 3-FC Porto, 1. Roger Schmidt, treinador alemão do Benfica, elogia o nível da Liga. E fica-lhe bem fazê-lo! Em Vila do Conde, pela enésima vez, por não existir penalização que desencoraje a reincidência nos maus comportamentos, como acontece, nomeadamente, na Premier League, Conceição, que até já elogiei nesta página, excedeu-se e insultou adversário que não é inimigo. Impunemente, antecipo-o!
Mas, o que disse Freire, o campeão da Liga II em 2021/2022, no Rio Ave, após o título no Campeonato de Portugal de 2017/2018, no Mafra - antes, com o Pêro Pinheiro, dois regionais na Associação de Lisboa, o primeiro em 2015/2016 (Divisão de Honra), o segundo em 2016/2017 (1.ª Divisão)? Que a qualidade dos menos grandes que os grandes é subvalorizada. O técnico dos vila-condenses tem razão. Por norma, analisando-se os jogos de FC Porto, Sporting e Benfica, sublinham-se os defeitos de Golias, não as virtudes de David. E, também é verdade, trabalha-se muito e bem noutros clubes do nosso País. Por mim, mea culpa!
O treinador do Rio Ave, Luís Freire, aponta o dedo à subvalorização dos menos grandes
Luis Freire, técnico jovem com percurso interessante (estreou-se no Ericeirense e, até ingressar no Rio Ave, em 2021/2022, para recolocar o clube no topo do futebol português, passou por Pêro Pinheiro, Mafra, Estoril e Nacional, emblema que também devolveu à Liga no fim de 2019/2020, temporada em que o treinador da Ericeira ganhou o título de melhor no escalão), falou no mérito da equipa que lidera e desvalorizou os excessos de companheiro de profissão que colocou no patamar dos melhores, recordando os três campeonatos ganhos com o FC Porto.
Por oposição, Sérgio Conceição disse nada sobre as causas do insucesso do FC Porto. A construção de uma equipa nova obriga a tempo de trabalho e os dragões ficaram sem Mbemba, Vitinha, Fábio Vieira ou Sérgio Oliveira e não contrataram jogador capaz de impor-se logo como titular, nem mesmo David Carmo, contratado ao SC Braga por 20 milhões. Menos qualidade, risco de perder mais.
Passa-se (quase) o mesmo com o Sporting. Em Alvalade, também frente a primodivisionário novo, o Chaves, derrota por 0-2. Rúben Amorim encaixou melhor o resultado negativo. O técnico dos leões, acredito, tem consciência do impacto das perdas de Palhinha, Sara- bia, Tabata e Matheus Nunes!
Mas, ao contrário de Sérgio, Rúben vive o insucesso pela primeira vez. Privilegiando a convicção pessoal ao pragmatismo, não será bem-sucedido, pelo menos facilmente. Amorim pode deixar-se de teimosias e aprender com o Conceição dos exemplos bons: temporada após temporada, o técnico do FC Porto adapta-se às circunstâncias e recria equipas competitivas e vencedoras. Nos leões e nos dragões, depois de entradas sem a dimensão das saídas, início de época possível. A derrapar!...