Quique Flores: «Boa parte dos adeptos do Real está com Mourinho e admira-o»
MADRID — Quique Flores fala dos desafios atuais dos treinadores e do jogo de amanhã entre Benfica e Real Madrid.
— O treinador tem de lidar com muitas sensibilidades. Acha que, por vezes, os jogadores se viram contra o treinador e que, como se costuma dizer, lhe fazem a cama?
— A relação do treinador com os jogadores depende muito dos resultados, das expectativas que lhes criamos, do rendimento que consegue que deem e até das lesões que possam ter. Cria-se um vínculo complexo, que evolui ao longo da época. Quando tudo corre bem, a relação fortalece-se, mas, quando as coisas se complicam, a confiança pode abalar-se, não desaparece, mas fica mais fraca. É difícil manter a mesma relação durante toda a temporada. O treinador tem de saber colocar-se no lugar dos jogadores e os jogadores também precisam de compreender a posição do treinador. É uma relação que deve ser o mais saudável e confiante possível, porque, no fim, são eles que resolvem o jogo. O treinador toma decisões, mas quem decide dentro do campo são os jogadores.
— Costuma dizer-se que há dois estilos de treinador: o duro e o diplomático, como Ancelotti ou Zidane. Isso é certo?
— Todos os estilos são válidos. Há treinadores que acreditam na disciplina acima de tudo, mas, mesmo esses, em algum momento, procuram aproximar-se do jogador. Depois há os que gerem muito bem o balneário, quase como psicólogos, e são excelentes treinadores, porque sabem entrar na mente do jogador. Mas, acima de tudo isso, há uma grande sofisticação na profissão, hoje todos temos acesso a informação detalhada: sabemos como todos jogam, conhecemos cada movimento, ninguém pode virar costas a essa análise, as melhores equipas são as que estão bem trabalhadas taticamente.
Xabi Alonso tentou impor exigência e desconforto. A relação com alguns jogadores desgastou-se
— O que pensa que aconteceu entre Xabi Alonso e Vinícius Júnior?
— Na minha opinião, o Real Madrid teve dois problemas, o primeiro técnico-tático e físico: a equipa não progrediu taticamente desde o primeiro até ao último dia, não houve boa propensão ofensiva nem mecanismos para criar ocasiões, não houve consistência defensiva, defendia-se sempre com menos jogadores do que o rival, houve fadiga, lesões e o rendimento coletivo não apareceu. Depois, a relação entre Xabi Alonso e alguns jogadores pareceu desgastar-se. Se esse desgaste aconteceu porque Xabi tentou impor exigência e desconforto, que é o que o futebol de elite exige, então os jogadores estiveram mal. Hoje, para melhorar uma equipa, é preciso levá-la à incomodidade, a competição de alto nível é isso.
Era muito fã do Vinícius de há dois anos. Mas temos visto mais o Vinícius na pior versão
— Disse recentemente que Vinícius Júnior não está a respeitar os valores do Real Madrid.
— Era muito fã do Vinícius de há dois anos, aquele que corria no minuto 90 como no minuto 1. Mas há vários Vinícius dentro do Vinícius: o cooperativo, o individualista, o que protesta, o que não protesta, o que marca, o que não marca, agora até o temos visto mais nas piores versões. Quando um jogador não está bem, é preciso dizê-lo para que possa reagir. A vantagem é que ele tem ferramentas extraordinárias para dar a volta, só é preciso que reaja.
— Em caso de conflito entre jogador e treinador, onde deve posicionar-se a Direção?
— Do lado dos valores do clube. A Direção quer ordem, profissionalismo, respeito, compromisso. Se o treinador está a exigir isso e o jogador protesta publicamente, colocando em risco os resultados ou o ambiente, a Direção deve apoiar o treinador. Se for o treinador a falhar, com métodos errados ou falta de respeito, então deve apoiar os jogadores. A Direção deve estar sempre do lado de quem está a fazer as coisas bem.
— Mas as Direções costumam ter pouca paciência com os treinadores, despedem-nos facilmente.
— O Real Madrid é o único clube onde só vale ganhar e voltar a ganhar. Às vezes, nem ganhando o treinador tem o lugar seguro. Historicamente, já houve alguns despedimentos estando no primeiro ou no segundo lugar. O Real Madrid é muito mais do que os resultados.
— Quando treinava o Sevilha teve com En-Nesyri um problema semelhante ao de Xabi com Vinícius. Quase chegaram à agressão.
— Sim. Naquele momento senti que estava a agir de acordo com a filosofia de respeito dentro da equipa. Quando um jogador não está a cumprir determinadas instruções ou não está a corresponder ao que o grupo precisa, o treinador tem de intervir. Às vezes isso é interpretado como um conflito, mas para mim foi uma questão puramente técnica e desportiva. O treinador tem a responsabilidade de tomar decisões que protejam o rendimento coletivo, mesmo que isso desagrade individualmente a alguém. Mas reagi mal, ambos ficámos demasiado expostos em frente ao público. Os conflitos devem resolver-se no balneário, foi o que depois fizemos e em dois minutos tudo estava solucionado. Esse episódio serviu-me de lição.
— Mas isso desgasta muito a relação com o jogador.
— Pode desgastar, claro, mas o treinador não pode viver condicionado pelo medo de perder relações. O balneário é um organismo vivo: há emoções, expectativas, frustrações, ambições. O treinador tem de ser firme, mas também empático, tem de saber quando exigir, quando proteger, quando confrontar e quando recuar. É uma linha muito ténue. Mas, no fim, o que importa é o rendimento da equipa, e os jogadores, mesmo quando não gostam de uma decisão, acabam por respeitá-la quando percebem que é tomada para o bem do grupo.
— Ser treinador é uma profissão ingrata?
— É uma profissão muito exposta, estamos sempre no fio da navalha. Ganhamos, somos génios. Perdemos, somos um desastre. Mas é também uma profissão apaixonante, temos de ser resilientes, de saber viver com a pressão, de aceitar que nem sempre controlamos tudo e temos de manter a alegria, isso é fundamental. Se a perdemos acabou-se a capacidade de liderar.
— Como vê o futebol atual?
— Cada vez mais exigente, mais rápido, mais analítico. Hoje, quem não domina a informação, quem não trabalha taticamente ao detalhe, fica para trás. Mas, ao mesmo tempo, continua a ser um jogo de emoções, de relações humanas, de liderança. A tecnologia ajuda, mas não substitui o talento, a coragem e a capacidade de competir. O futebol continua a ser um reflexo da vida: adaptação, esforço, inteligência e paixão.
— Como treinador, passou por vários países. Onde se sentiu mais satisfeito?
— Em todos os sítios onde estive — Espanha, Portugal, Inglaterra, China ou Emirados Árabes Unidos — sempre me senti treinador. Há países onde o futebol se vive com mais paixão que em outros, mas sempre tive a mesma força, a mesma energia, muita vontade de aprender e de melhorar os meus métodos de trabalho. Tenho a satisfação de saber que me posso adaptar bem em qualquer lugar para onde vá.
— Tem-se mais prazer como jogador ou treinador?
— Não há comparação possível, muito mais como jogador, de resto ainda continuo a jogar, quase todos os dias e contra equipas com miúdos de 20 anos. Quando estava no Benfica também organizávamos jogos com o Rui Costa, o Shéu e outros, divertíamo-nos muito, era uma alegria. Enquanto puder, continuarei a jogar.
Benfica tem um problema na defesa. Permite que adversários criem oportunidades com facilidade
— Para os treinadores, estar sem equipa, como é o seu caso, é um sofrimento?
— Quando não tenho equipa, o que faço é ver muito futebol, continuar a aprender, desfrutar da família e dos amigos, não ter horários e aproveitar a situação mais calma para ir acumulando energias para voltar a trabalhar. Depois acaba a boa vida e tudo voltará a acontecer muito mais rápido, com mais tensão e responsabilidade.
— Falando de treinadores, qual é a sua opinião sobre Mourinho?
— O José sempre mereceu o meu maior respeito, é um treinador que tem o seu modelo, a sua forma de ser, sempre valente e direto nas conferências de imprensa. Representa uma parte importante do futebol dos últimos 25 anos.
— Veria com bons olhos o regresso de Mourinho ao Real Madrid ou é dos que acham que as segundas partes nunca são boas?
— Acho que as segundas ou as terceiras partes podem ser boas ou não dependendo do momento. Acredito é que ele está preparadíssimo para ir para qualquer clube do mundo e a qualquer momento. Não sei se voltará ou não ao Real Madrid, onde fez um grande trabalho, do que, sim, estou seguro é de que há uma boa parte dos adeptos do clube que está plenamente com ele e o admira. E estou convencido que os outros, vendo a sua forma de ser, também acabariam por estar ao seu lado.
Não sabemos que versão apresentará o Real. Se a pobre com o Albacete ou a melhorada com o Mónaco
— O Real Madrid vai jogar contra o Benfica no Estádio da Luz. O que poderá suceder?
— Pelo que vejo nos jogos que disputa na Champions, o Benfica está a tentar consolidar um modelo, um estilo, uma forma de jogar. Procura ser valente e fazer as coisas bem. Creio que tem um problema na defesa, deixa que lhe criem ocasiões com demasiada facilidade e isso, na Europa, paga-se caro. Mas, na Luz, com o apoio do seu público e sem nada a perder e tudo a ganhar, é de esperar que a equipa entre em campo motivada e disposta a criar problemas ao Real Madrid, cuja versão que irá apresentar desconhecemos, se a pobre de Albacete ou a outra, já um pouco melhor, que vimos contra o Mónaco. A equipa está em fase de transição e não sabemos como o novo treinador, Arbeloa, irá preparar o encontro, nem como será a reação dos jogadores. Nestas condições que atravessam as duas equipas, é difícil fazer previsões. Na quarta-feira, na Luz, qualquer coisa pode acontecer.