Luis Suárez bisou na vitória do Sporting sobre o PSG que fez vibrar os adeptos leoninos - Foto: Imago
Luis Suárez bisou na vitória do Sporting sobre o PSG que fez vibrar os adeptos leoninos - Foto: Imago

Devolvam-nos lá os tambores

'Verde à Vista' é o espaço de opinião semanal de Carmen Garcia, enfermeira, sportinguista e autora do blogue 'Mãe Imperfeita'

Há exatamente uma semana fui buscar os miúdos mais cedo à escola. Na mala do carro, bem escondidos, os equipamentos e os cachecóis. Pensei muito sobre se os devia ou não levar ao jogo e a parte mais racional de mim insistia em gritar que não era boa ideia. O tempo estava péssimo, vivemos longe de Lisboa, o jogo era tarde e a meio da semana… O combo perfeito para optar por ficar em casa. Além disso, verdade seja dita, apesar de saber que hoje somos outro Sporting, eu ainda sinto pontadas no peito quando penso naqueles 12-1 com o Bayern de Munique (se calhar, para não parecer tão mal, devia antes dizer que foram 5+7). Enfim… No meio das dúvidas e do cansaço, o coração, como quase sempre acontece no futebol, venceu a razão e cheguei a Lisboa com dois miúdos completamente eufóricos que diziam a quem os quisesse ouvir que o Sporting ia ganhar 2-1.

Como chegámos cedo, coisa que, aliás, faço sempre questão que aconteça, decidi ir jantar com eles à Alvaláxia que, já aqui o disse, estou mortinha por ver com outra cara. E passei o jantar a gastar o meu latim a tentar prevenir desgostos futuros. «Olhem que o PSG é o campeão da Europa em título, um empate já seria um grande resultado», ia dizendo eu, debaixo de olhares de reprovação que terminaram com o mais novo a perguntar-me, totalmente indignado, «mas que raio de sportinguista és tu?». Estive vai não vai para lhe responder que sou uma sportinguista que ainda não conseguiu superar o stress pós-traumático de vários anos desgraçados, mas decidi calar-me. Com medo da desilusão que, pensava eu, era altamente provável que chegasse, mas, ainda assim, caladinha.

Fomos dos primeiros a entrar no estádio. E os miúdos entraram em delírio quando viram as bandeiras. E quando chegaram Nuno Mendes e Dembélé. E quando a nossa equipa entrou para aquecer. Foi loucura atrás de loucura. De tal forma que comecei a pensar que, independentemente do resultado, já tinha valido a pena levá-los. Não foi o primeiro jogo de Liga dos Campeões que viram, mas foi o primeiro em que lhes vi tamanha excitação.

E sabem quando é que essa excitação acabou e deu lugar à indignação? Não foi quando se percebeu a nossa estratégia de jogo imprópria para cardíacos. Foi quando a claque do PSG, munida de tambores, pura e simplesmente abafou o estádio inteiro. E digo-vos já que eles não ficaram indignados sozinhos, porque eu própria comecei a sentir aquele tremor esquisito na pálpebra. Então estávamos nós a dar tudo com bandeiras, cânticos e palmas e aquela gente abafava-nos assim? E o pior é que isto durou toda a primeira parte.

No intervalo, muito corroída pelos nervos, fui ler o regulamento do estádio e, logo no primeiro capítulo, ponto 12, encontrei que «é vedada a utilização de altifalantes, vuvuzelas, instrumentos musicais e de megafones, que possam interferir com o sistema sonoro do Estádio, inviabilizando a audição, pelo público, das mensagens de informação e de segurança». Se isto me deixou esclarecida? Nem um bocadinho. Ora, se os instrumentos musicais, dentro dos quais os tambores se incluem, estão proibidos, como é que a claque do PSG os tinha passado para dentro do estádio? E se é uma daquelas regras a que ninguém liga, porque é que as claques do Sporting não fizeram o mesmo? É preciso pedir-se uma autorização especial? Então que se peça. O que não pode acontecer é que os visitantes cheguem ao reino do leão carregados de tambores e abafem cinquenta mil rugidos.

«Ah, Carmen, estás a exagerar» — dirão alguns. Mas o problema é que não estou. A claque do PSG, de facto, especialmente durante a primeira parte, conseguiu quase sempre sobrepor-se aos sportinguistas, pese as várias tentativas do nosso speaker para o evitar.

Mas voltando ao jogo, um sufoco, verdade? E os golos (bem) anulados ao PSG não ajudaram a descansar ninguém. E se, finalmente, ao minuto 74’, conseguimos calar a claque francesa, a verdade é que o silêncio durou pouco porque quatro minutos depois, o PSG empatou e eu, outra vez gato escaldado, só consegui pensar «pronto, agora é que acordámos o monstro». Mal sabia eu que o monstro adormecido, afinal, éramos nós.

Gostava, de verdade que gostava, de ter mais fé, mas depois do golo do empate olhei para o ecrã que marcava o tempo de jogo umas duas vezes por minuto. Só queria que tempo corresse rápido e que o jogo acabasse. O empate sabia-me a vitória.

Sabem, há muitos anos que escrevo e raramente me faltam as palavras, mas não sei se alguma vez vou conseguir explicar o que senti no minuto noventa. A melhor imagem que encontro é a da abertura das comportas de uma barragem e a descarga que se lhe segue. Juro que senti que aquele golo me tinha drenado e levado tudo. E quando olhei para os miúdos abraçados, aos pulos e perdidos de alegria foi impossível segurar as lágrimas. Nesse instante tive a certeza de que ir buscá-los mais cedo à escola, desesperar no trânsito, apanhar com umas gotas de chuva e dormir pouco não só tinha valido a pena como não era absolutamente nada quando comparado ao que estávamos ali a viver. E quando o João gritou «eu não te disse que ia ficar 2-1, mãe?» eu soube que o meu trabalho está feito. Como o meu avô fez com o meu pai. Como o meu pai fez comigo. De geração em geração.

O final do jogo foi nosso. E «o mundo sabe que» que se seguiu ao apito final foi o mais bonito que me lembro de ter ouvido em Alvalade. A claque do PSG, finalmente remetida ao silêncio, apreciava a atuação dos cinquenta mil que, nas bancadas, sabiam estar a viver uma noite histórica e absolutamente inesquecível.

Sabem qual foi a única coisa que faltou? Tambores. Faltaram tambores às claques do Sporting. Posto isto, se é que me é permitido pedir mais alguma coisa, vejam lá se resolvem isto. Nos últimos anos, têm-nos devolvido a alegria. Por favor, devolvam-nos também os tambores.

(E não, não vou terminar esta crónica sem falar do susto em Arouca. Sossego? Não rima com Sporting, pois com certeza. Aliás, isto o melhor, por via das dúvidas, é marcarmos todos uma consulta com o cardiologista. Cheira-me que, até final da época, as nossas coronárias vão ser muito postas à prova.)

No pódio
Foi bonito de ver, no domingo, José Mourinho a lançar jovens talentos na equipa principal do Benfica. E sim, também foi bonito vê-los a marcar e celebrar juntos. A aposta na formação, sabemos bem, tem vantagens desportivas, económicas e estratégicas, mas nenhuma destas, para mim, se aproxima daquela que é a maior de todas e que se chama identidade. Lançar miúdos das camadas jovens na equipa principal é sempre um orgulho e aumenta a ligação emocional com os adeptos. Há um sentimento de continuidade, de «este é dos nossos», que é quase exclusivo desta opção. Esteve bem José Mourinho. Estiveram bem Banjaqui e Anísio. Esteve bem o Benfica.
Na bancada
O Futebol Clube do Porto foi multado em €1530 por, mais uma vez, fazer uso indevido do sistema sonoro do Estádio do Dragão com o speaker do clube a incentivar a cânticos insultuosos contra o Benfica no jogo recentemente disputado para a Taça de Portugal. E se é verdade que, apesar das tentativas, nenhum clube consegue controlar o comportamento dos seus adeptos, não é menos verdade que esta situação, recorrente no Dragão, só acontece porque a direção do Futebol Clube do Porto a permite/incentiva. O speaker não é um adepto qualquer que, por acaso, agarra no microfone. É um funcionário do clube e, como tal, devia ter alguma elevação. Incentivar a sua equipa e os seus adeptos? Com certeza. Ofender a equipa adversária? Que coisa tão poucochinha!