Portugal de ouro
Regresso a este espaço depois das férias com um artigo que terá menos reflexão e teorização do que outros que aqui tenho apresentado. Esta semana, quero sobretudo celebrar. Não poderia voltar à escrita sem realçar os resultados de Portugal nos Jogos do Mediterrâneo: no momento em que escrevo, são 30 medalhas, distribuídas por pelo menos 11 modalidades, sendo 14 de ouro. E ainda falta cerca de um dia e meio de competição.
A estas conquistas juntam-se as quatro medalhas portuguesas no Mundial de canoagem, em Poznan, com destaque para os dois ouros de Fernando Pimenta, em K1 1000 e K1 5000 metros. Aos 37 anos, Pimenta é um exemplo de sucesso pelos resultados e pela capacidade de continuar a vencer. Uma longevidade competitiva ao alcance de poucos, que daria um artigo por si só. Mas haverá, certamente, outras oportunidades para essa reflexão.
Hoje, os parabéns são para todos. Para os atletas, treinadores, instituições e famílias que tornam estas conquistas possíveis. Estes resultados são uma demonstração clara do potencial de Portugal no desporto. Merecem mais reconhecimento, visibilidade e orgulho do que aquilo que temos visto. Bem sei que poderemos antecipar o que se dirá. «Não são os Jogos Olímpicos», «não são Mundiais», «faltam lá alguns países», «não estavam os melhores atletas de outras nacionalidades», entre outras. Haverá sempre uma comparação para fazer, uma razão para diminuir. Como se o sucesso português precisasse de passar por uma prova adicional para merecer o nosso aplauso. Esta reação faz pensar numa espécie de autodescredibilização coletiva. O viés de confirmação, estudado na psicologia, ajuda a compreender uma possibilidade: tendemos a interpretar a informação de modo a preservar aquilo em que já acreditamos. Se partirmos da ideia de que Portugal tem pouco valor desportivo, talvez seja mais fácil desvalorizar a conquista do que rever essa convicção.
Claro que as competições têm níveis de exigência diferentes. Contextualizar os resultados é legítimo e necessário. Mas, nenhuma medalha deve ser descredibilizada. Muito menos trinta. E ainda espero que venham mais.
Estes resultados também nos devem fazer pensar no que poderia acontecer se o desporto tivesse o espaço que merece na sociedade e na agenda política. Se o reconhecimento se traduzisse em condições para treinar, recuperar, estudar e competir. Se o apoio chegasse a tempo de desenvolver o talento, acompanhando o percurso até ao pódio.
Portugal está a mostrar o que consegue fazer. Mas, e se déssemos ao desporto o seu real valor? E se os nossos atletas tivessem acesso às oportunidades e aos recursos de que dispõem os seus adversários nos países que mais investem no seu desenvolvimento? Do que seríamos capazes?