Obrigado Diana Silva, obrigado menino Salvador
Costumo dizer, na brincadeira, que, se Deus tivesse atribuído ao homem a responsabilidade da gravidez, a humanidade há muito se teria desaparecido. Por falta de resistência à dor mas também por falta de capacidade para definir prioridades. Um homem consegue transformar uma gota de sangue numa hemorragia fatal ou anunciar a própria morte perante uma simples dor de cabeça. Por outro lado, há uma tese defendida por vários psicólogos segundo a qual, sendo os homens e mulheres mais parecidos do que se pensaria, há algo que os separa: os homens tendem a preferir coisas e as mulheres tendem a gostar mais de pessoas. Nota-se desde a infância, na forma como brincam, e, mais tarde, nas escolhas que fazem: mais homens em engenharia, mais mulheres em enfermagem, por exemplo. Uma tese geral que comporta naturalmente todas as exceções e variantes possíveis.
Foi impossível não ficar de olhos lacrimejantes ao ver a forma bonita, humana, corajosa e feliz com que Diana Silva, 31 anos, internacional portuguesa e jogadora do Benfica, comunicou às companheiras que está grávida. Impossível não me emocionar com as lágrimas delas. Impossível não aplaudir as palavras do treinador Ivan Batista, desejando que decisões como esta deixem de ser vistas como atos de coragem. Durante alguns minutos, aquela equipa não pensou na Supertaça com o FC Porto, na luta por um lugar no onze ou na profissão. Emocionou-se com uma vida que chega. E há momentos em que as pessoas se revelam precisamente assim: na beleza das prioridades que escolhem.
Neste dia 3 de setembro, data que evoca a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, tratado internacional aprovado pela ONU em 1979, Diana tem a justa promessa de que o Benfica estará à altura das suas responsabilidades. Diria até: da sua humanidade. Desejando eu que um dia a Convenção seja apenas uma peça de museu, sem qualquer necessidade de uso.
Por falar em prioridades, é impossível não soltar uma lágrima ao ver Salvador, um menino de seis anos, entrar no relvado da Luz para o jogo com o Estoril, de mão dada com Rafa. Sofre de epidermólise bolhosa distrófica, uma doença rara que torna a pele extremamente frágil. Confesso que quando li sobre a doença até disse uma asneira. Protesto. É tão injusto exigir a Salvador que seja herói antes de ter tido tempo de ser apenas criança. Que tenha de conhecer a dor antes de aprender a brincar. Que aprenda primeiro a injustiça da falta de apoios, de comparticipação ou de um medicamento que já estará disponível noutros países. Ainda assim, enquanto o Salvador e os seus pais continuarem a emocionar-nos e a inspirar-nos, há esperança de que sejamos, afinal, muito melhores do que tantas vezes julgamos ser.
Como escreveu Viktor Frankl, neuropsiquiatra austríaco e a autor do livro Em Busca de Sentido, «quando já não somos capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar-nos a nós próprios». Talvez também seja esse o desafio que histórias como estas nos colocam: um repto para uma mudança interior antes de querermos mudar o mundo. O que, bem vistas as coisas, é missão bem mais espinhosa.
Há sempre uma Diana. Há sempre um Salvador. Pessoas que, sem o saberem, nos devolvem o essencial: a memória das prioridades. Assim saibamos agir a tempo.