Hugo Oliveira aprova a contratação de João Palhinha - Foto: MIGUEL NUNES
Hugo Oliveira aprova a contratação de João Palhinha - Foto: MIGUEL NUNES

Nem tudo são mais-valias

Crónicas de bancada é o espaço de opinião de Hugo Oliveira, sócio do Benfica e deputado à Assembleia da República

O mercado fechou. Finalmente. Durante dois meses voltou a cumprir-se aquele ritual do futebol em que nós, os adeptos, passamos mais tempo a discutir jogadores que ainda não chegaram do que aqueles que já estão no clube. Todos os dias aparece um nome novo, uma negociação iminente, um avião a caminho, uma fotografia num aeroporto e, claro, o inevitável «acordo praticamente fechado».

No Benfica esse ritual é vivido com esteroides. Mas, olhando agora para o princípio e para o fim do mercado, saíram jogadores importantes. Mudou a defesa, mudou o meio-campo e mudaram algumas das alternativas no ataque. Chegaram jogadores para ocupar esses lugares, mas também para dar à equipa características que não tinha.

Por isso, mais interessante do que fazer a tradicional conta entre milhões gastos e milhões recebidos é perceber se o Benfica terminou o mercado com uma equipa melhor. Porque um bom mercado não é necessariamente aquele em que se vende mais caro ou se compra mais barato. É aquele que deixa o clube mais perto de ganhar.

Comecemos por Palhinha.

É impossível olhar para este mercado sem olhar para ele. Não apenas pelo que custou, mas porque é provavelmente a contratação que mais altera a personalidade da equipa. Palhinha não chega para ser mais um médio. Chega para dar ao Benfica algo que muitas vezes lhe faltou nos últimos anos: agressividade competitiva, capacidade de recuperação, presença física, experiência e uma certa dose de desconforto para quem joga contra nós.

Aos 31 anos não é uma contratação para vender daqui a dois anos por 60 milhões. E ainda bem. Um clube de futebol não pode organizar todas as suas contratações como se estivesse a gerir uma carteira de ativos. Às vezes é preciso comprar jogadores para jogar futebol. E, sobretudo, para ganhar.

O Benfica tem de continuar a descobrir talento, a formar jogadores e a comprar jovens que possam valorizar. Isso faz parte do seu modelo e seria irresponsável abandoná-lo. O problema é quando a valorização dos jogadores passa a ser mais importante do que a valorização da equipa.

Por isso gosto da contratação de Palhinha. Não porque seja o melhor negócio financeiro deste mercado. Gosto porque parece ter sido feita a pensar primeiro na equipa e só depois na folha de Excel.

Lenglet entra um pouco na mesma lógica. Pode discutir-se a idade, o salário ou se os melhores anos da carreira já ficaram para trás. Mas traz experiência e conhecimento do jogo. Depois das mudanças no centro da defesa, o Benfica precisava também de alguém que chegasse pronto.

Circati está no outro lado da equação. É muito mais jovem, tem margem para crescer e potencial de valorização. E é este equilíbrio que me parece saudável. Nem todos têm de chegar à Luz aos 20 anos para sair aos 23.

Depois há Jhon Durán.

É uma das contratações mais intrigantes deste mercado. Tem características físicas pouco comuns e oferece uma alternativa diferente para o ataque. E isso é importante.

Durante demasiadas épocas olhámos para o banco do Benfica e encontrámos jogadores diferentes no nome, mas demasiado semelhantes naquilo que ofereciam à equipa. Não basta ter dois jogadores por posição. Há jogos em que é preciso velocidade, outros em que é preciso presença física, outros em que é preciso técnica e magia e outros ainda em que é preciso vestir o fato-macaco.

Echeverri é outra aposta interessante. É jovem, tem talento e chega com possibilidade de continuidade. O Benfica pode ser uma excelente plataforma de desenvolvimento, mas não deve transformar-se numa academia de aperfeiçoamento de jogadores para os clubes mais ricos da Europa. Se um jogador crescer na Luz, jogar, errar, aprender e valorizar, o Benfica tem de poder beneficiar disso.

Até aqui, tudo bem.

O problema é que um mercado não se avalia apenas por quem entra. Também se avalia por quem sai.

Há vendas praticamente impossíveis de recusar. Quando aparecem propostas por valores muito altos, um clube como o Benfica tem de saber vender. Faz parte da sua realidade económica.

Mas vender bem e vender no momento certo não são necessariamente a mesma coisa.

Dedic é um bom exemplo. Financeiramente, percebe-se a operação. Desportivamente, tenho mais dúvidas. Era jovem, tinha espaço para crescer e parecia ainda longe do limite da sua valorização. Talvez tenha sido uma excelente venda. Só o tempo dirá se também foi uma boa decisão desportiva.

António Silva deixa-me uma sensação diferente. Durante algum tempo acreditámos que estávamos perante o próximo grande central formado no Seixal e um daqueles jogadores capazes de proporcionar uma transferência verdadeiramente extraordinária. Não aconteceu. Isso não significa que tenha sido uma má venda. Significa apenas que ficou bastante distante daquilo que chegámos a imaginar que António Silva poderia valer.

Depois há Richard Ríos.

Há pouco mais de um ano foi feito um investimento muito significativo num jogador que deveria assumir um papel central no meio-campo do Benfica. Uma época depois sai por empréstimo.

Pode existir uma explicação técnica perfeitamente legítima. O treinador pode entender que outros médios lhe dão mais garantias. E nenhum jogador deve permanecer no plantel apenas porque custou muito dinheiro.

Mas fica uma pergunta. Quando um investimento desta dimensão deixa de ser prioritário ao fim de uma temporada, falhou o jogador, mudou a ideia de jogo ou comprou-se sem saber exatamente para quê?

Olhando para o resultado final, parece-me que o plantel tem mais soluções e, sobretudo, jogadores com características diferentes. Há experiência, juventude, capacidade física e talento. No papel, há mais opções.

Palhinha pode tornar-se fundamental. Circati pode ser uma excelente contratação. Echeverri pode entusiasmar a Luz. Durán pode explodir. Outros vão surpreender e alguns vão desiludir.

É por isso que setembro é provavelmente o pior mês para avaliar mercados. Em setembro todos os reforços têm potencial, todas as apostas parecem inteligentes e todas as opções de compra parecem excelentes negócios.

Depois chega novembro.

E janeiro.

E, sobretudo, abril e maio.

É aí que percebemos se comprámos jogadores ou se construímos uma equipa.

Porque no final de um mercado podemos discutir milhões, cláusulas, mais-valias, opções de compra e potencial de valorização. Podemos até fazer contas e declarar vencedores e vencidos antes de a bola começar a rolar.

Mas há uma conta que continua a ser mais importante do que todas as outras.

A dos títulos.

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