Marco Silva, treinador do Benfica - FOTO: Miguel Nunes/A BOLA
Marco Silva, treinador do Benfica - FOTO: Miguel Nunes/A BOLA

Marco Silva: não agradar a todos

O treinador do Benfica assumiu a decisão sobre excluir Bruma. Já assumira outras decisões técnicas o que diz algo do perfil do treinador

A liderança no desporto mede-se nos momentos de tempestade, mas também nos de bonança. Ao assumir que a exclusão de Bruma do plantel é uma decisão técnica, portanto sua, Marco Silva demonstra o seu perfil de líder. Num ambiente frequentemente tóxico e propenso à diluição de responsabilidades, assumir a decisão traz benefícios para a autoridade pessoal do treinador assim como para a estabilidade do clube. Em relação ao próprio Marco Silva, esta frontalidade constrói credibilidade. Ao não se esconder atrás de frases feitas ou da direção, Marco Silva, ao responder como respondeu, consolida o perfil de um líder de convicções, com coragem para tomar decisões que podem ser impopulares, e dar a cara por elas. Como a de manter Lukebakio, por exemplo.

Na perspetiva da comunicação de liderança, assumir a autoria protege a sua integridade profissional. Se a escolha correr bem, reforça o seu estatuto de comandante; se falhar, fica registado que agiu por convicção e não por pressão externa. No fundo, ficou claro que não foi por ingerência da gestão que Bruma não faz parte das escolhas.

Para o Benfica, enquanto instituição, o ganho reputacional é grande também. Ao centralizar em si o foco da decisão, e ao ser percecionado como sincero nas palavras, Marco Silva atua ainda como escudo da estrutura encarnada, pois põe cada responsável no seu lugar. A direção fica livre do desgaste mediático e de possíveis acusações.

Além disso, estanca-se a especulação: quando um líder afirma taxativamente «fui eu que quis assim», esvaziam-se teorias que costumam alimentar semanas de debate. A conferência do treinador ficou também marcada por Sudakov. Os jogadores respeitam a transparência, mesmo quando ela é dura. Marco Silva não abriu o jogo sobre «os sinais» que dão a titularidade a Sudakov, mas no balneário só tem de se assumir as coisas como assumiu para fora a questão Bruma. E manter o critério. O grupo ganha um sentido renovado de justiça e fica claro qual é o padrão de exigência e que as regras se aplicam a todos.

Em suma, Marco Silva demonstra que comunicar bem não é agradar a todos, mas sim assumir a responsabilidade com clareza. Ao chamar a si a decisão sobre Bruma, projeta a imagem de um líder maduro, convicto e inabalável. Exatamente o que um clube com a dimensão das águias exige. E um ensinamento, sem dúvida, dos anos de Premier League. O Benfica está melhor em campo que na época passada. E na sala de imprensa não fica atrás.

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