Boas decisões de Luciano Gonçalves
Pode parecer contraditório defender menos divulgação e, simultaneamente, exigir maior transparência. Não é.
A transparência institucional não consiste em mostrar tudo. Consiste em garantir que nada relevante fica impossível de escrutinar.
O árbitro não é o protagonista do jogo e a arbitragem não deve ceder à tentação de o transformar nisso. O seu protagonismo deve, tanto quanto possível, terminar com o apito final.
Não faz sentido ser o próprio Conselho de Arbitragem, presidido por Luciano Gonçalves, a prolongar ou ressuscitar polémicas através de comunicações sobre decisões tomadas semanas ou meses antes, quando o jogo passou e a polémica desapareceu.
A arbitragem não precisa de comunicar mais. Precisa de decidir melhor e de conseguir demonstrar, quando necessário, a solidez dos processos através dos quais decide.
Pela mesma razão, é do interesse dos próprios árbitros que a crítica razoável às suas exibições não seja penalizada.
A liberdade de expressão é incontornável em 2026 e o escrutínio acompanha todos os poderes: político, judicial, económico ou desportivo. A arbitragem não pode pretender constituir uma exceção.
Uma polémica que poderia terminar no fim do jogo prolonga-se pela instauração do processo, acusação, decisão e sucessivos recursos. Meses depois, quando praticamente ninguém discutiria aquela arbitragem, é o próprio sistema que volta a colocá-la na agenda.
O adepto não precisa de conhecer semanalmente a classificação atribuída a cada árbitro. Precisa de confiar que existe um sistema de avaliação sério, tecnicamente competente e independente.
Muito mais importante para quem está no estádio ou em casa é a transparência durante o jogo.
Se o VAR existe para corrigir erros claros e óbvios, deve existir um limite temporal para a sua intervenção.
Um erro claro e óbvio não pode precisar de vários minutos, sucessivas repetições e diferentes ângulos para se revelar. Se, depois de analisadas repetidamente as imagens, a dúvida permanece, a conclusão é lógica: o erro, a existir, não era claro nem óbvio.
Nesse caso, deve prevalecer a decisão tomada no campo.
Há ainda uma alteração simples que contribuiria para mudar a perceção sobre o VAR.
Quando o jogo está parado durante longos minutos à espera de uma decisão do VAR, por que razão a realização televisiva mostra quase permanentemente o árbitro que está no relvado?
É ele quem aparece rodeado pelos jogadores, num estádio em tensão, enquanto milhares de pessoas aguardam para saber se a decisão será confirmada ou corrigida.
Mas, naquele momento, não é ele quem está a decidir.
Quem analisa as imagens e determina se deve existir intervenção está sentado diante dos monitores na Cidade do Futebol.
Então mostre-se o VAR. Não para o transformar em protagonista, mas para identificar corretamente quem está, naquele momento, a assumir a responsabilidade pela intervenção.
Se o árbitro de campo já comunica ao estádio e à televisão uma alteração decidida após intervenção do VAR, é difícil compreender por que razão quem provocou essa alteração continua sem rosto.
E esta ideia conduz a uma questão aparentemente diferente, mas que nasce do mesmo problema.
Um estádio não é território da equipa da casa. E um adepto do adversário numa bancada não é um invasor.
A Liga tem de condenar publicamente e regulamentar com urgência penalizações pesadas para as sociedades desportivas que, por decisão própria e sem determinação das forças de segurança, proíbam a exibição de símbolos da equipa adversária no seu estádio.
Esta prática foi-se instalando discretamente no futebol português. É um erro colossal.
Não protege o futebol. Ensina que a camisola do adversário é uma provocação, que existem territórios onde determinadas cores não podem entrar e que a melhor maneira de evitar o conflito é esconder quem é diferente.
Naturalmente, existem setores reservados aos adeptos visitantes e razões de segurança que podem justificar separações em determinados jogos. Mas segurança é uma coisa; transformar todo o estádio em território exclusivo do clube da casa é outra.
O adversário não é um inimigo.
Benfica, FC Porto e Sporting não teriam a dimensão que hoje possuem se apenas um deles existisse. Uma parte da grandeza de cada um foi construída pela necessidade permanente de competir com os outros dois.
Um adversário forte obriga-nos a competir, inovar e melhorar. Daí resulta uma das aparentes contradições mais interessantes do desporto: queremos derrotar o nosso maior rival, mas devemos querer que ele continue suficientemente forte para nos desafiar.
Num tempo em que as redes digitais nos fecham cada vez mais em comunidades onde encontramos sobretudo quem pensa como nós, o estádio pode ser um dos poucos lugares onde continuamos fisicamente ao lado de quem escolheu o outro.
É precisamente por isso que é absurdo expulsar o diferente das bancadas.
No fundo, os dois problemas têm mais em comum do que parece.
Não precisamos de esconder o VAR para proteger a arbitragem, de punir a crítica razoável para defender os árbitros ou de esconder a camisola adversária para garantir a segurança.
Precisamos de instituições sólidas, regras claras e de aprender a conviver com aquilo que faz parte da própria essência da competição: o adversário, a decisão, o erro, a crítica e o conflito.
Uma indústria madura não elimina o conflito escondendo-o. Cria regras para o civilizar.
Na arbitragem, sabendo quem decide. Nas instituições, podendo escrutinar como se decidiu. Nas bancadas, aprendendo a estar ao lado de quem escolheu o outro.
É uma das funções mais importantes que o futebol pode desempenhar numa sociedade cada vez mais fechada em tribos: ensinar-nos a conviver com a diferença sem transformar o outro num inimigo.
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