Francesco Farioli em lágrimas após perder o campeonato no Ajax na última jornada
Francesco Farioli em lágrimas após perder o campeonato no Ajax na última jornada - Foto: IMAGO

Farioli recorda chegada ao FC Porto: «Tinha a palavra ‘perdedor’ estampada na testa»

Técnico italiano afirmou que a decisão de André Villas-Boas em escolhê-lo depois do fracasso no Ajax «não foi racional», mas está profundamente agradecido

Depois de uma época impressionante ao leme do FC Porto, Francesco Farioli, de 37 anos, é de novo um dos treinadores mais procurados na Europa. A sua ascensão foi abruptamente travada após uma ponta final de campeonato desastrosa no Ajax, onde desperdiçou uma vantagem de nove pontos nos últimos cinco jogos, o que lhe valeu o rótulo de «perdedor», como o próprio sentiu.

O triunfo do FC Porto, selado a duas jornadas do fim, surge um ano após o colapso do Ajax ter permitido ao PSV sagrar-se campeão neerlandês. O estatuto de Farioli é tal que o seu nome chegou a ser associado ao Chelsea antes da nomeação de Xabi Alonso, gerando receio entre os adeptos portistas de uma saída precoce, à semelhança do que aconteceu há 15 anos com André Villas-Boas. No entanto, o técnico italiano garante que o clube e os adeptos não têm motivos para se preocupar.

«Sinto que preciso de continuar e de me superar, agora as expectativas são ainda mais altas», afirmou Farioli em entrevista ao The Guardian. «Há três semanas, visto de fora, tinha grandes pontos de interrogação sobre a minha cabeça. Agora, há um ponto de exclamação que precisa de ser confirmado e provado», atirou.

«Eu procurava um clube com pessoas que tivessem a mesma motivação que eu, um espírito de superação após um fracasso ou algo que correu mal, depois da época muito pesada que tive no Ajax», confessou Farioli, admitindo que viu no FC Porto uma oportunidade para restaurar a dignidade tanto do clube como da sua própria carreira.

«A decisão do presidente de me dar esta oportunidade foi notável, especialmente depois de um ano com dois treinadores jovens [Vítor Bruno e Martín Anselmi]... Escolher um terceiro, e alguém que tinha a palavra ‘perdedor’ estampada na testa, não foi uma decisão racional. Mas André Villas-Boas teve fé e uma crença profunda», explicou.

Primeiros passos

Um dos seus primeiros passos no clube foi levar os novos jogadores ao museu. «O FC Porto precisava de se reconectar com certos valores e redescobrir a mística que, nas últimas épocas, se tinha desvanecido parcialmente. Mas era também essencial mudar a atmosfera emocional em torno da equipa: trazer de volta o entusiasmo pelo trabalho, a serenidade no ambiente e o desejo de nos sentirmos uma verdadeira equipa», apontou.

A mudança de atitude da equipa foi notória, com uma pressão incessante e união nos momentos difíceis, algo que os adeptos reconheceram. A solidez defensiva foi uma marca, com apenas 18 golos sofridos em 34 jogos, o melhor registo da liga. «Métricas como a distância total, corridas de alta velocidade e distância de sprint foram indicadores muito fiáveis para nós ao longo da época», revelou Farioli, sublinhando a eficácia do planeamento físico.

O próprio Farioli reconhece ainda os desafios que surgiram depois de um início muito positivo. «Muito rapidamente, os adversários começaram a estudar a nossa forma de jogar em grande detalhe», afirmou. «Tentar interromper a nossa construção, limitar a nossa iniciativa e sufocar o nosso jogo tornou-se um tema recorrente». A salvação, segundo o técnico, foi uma «mentalidade adaptativa para continuar a encontrar soluções».

A pensar na próxima época, Farioli adotou uma abordagem invulgar para recolher opiniões, revelando um método que promove a honestidade total dentro do plantel. «Há alguns dias, dei-lhes um questionário anónimo para preencherem, para que tivessem a liberdade de nos atingir com uma bazuca – a mim e à equipa técnica – dizendo-nos do que gostaram e do que não gostaram», explicou o treinador com um sorriso, preparado para a próxima época de dragão ao peito.

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