Substituir um espanhol e tentar jogar o dobro. Onde já se viu isto, Jesus?
Em primeiro lugar, o homem: atingir, aos 71 anos, o ponto mais alto da carreira de treinador é, antes de mais, uma lição de vida. Jorge Jesus é a prova de que a qualidade não tem prazo de validade e este é um exemplo que pode e deve ser inspirador para qualquer setor de atividade.
O treinador natural da Amadora será o próximo selecionador nacional, em substituição de Roberto Martínez, na sequência de um trajeto atípico e, por isso mesmo, único. Nos primeiros 10/15 anos, todas as duas equipas apresentavam bom futebol, mas em muitos momentos faltava regularidade nos resultados e dessas oscilações resultaram entradas e saídas em clubes que não tinham porventura os mesmos objetivos ambiciosos que ele.
Durante muitos anos prevaleceu um certo preconceito dos três grandes em avançar para Jorge Jesus, daí que seja justo dizer que há um antes e pós-2009, quando Luís Filipe Vieira se tornou o primeiro presidente de um dos grandes a decidir arriscar e contratar um técnico de 55 anos, cuja idade, segundo a moda vigente, já era demasiado avançada para tão ambicioso projeto.
O resto já se sabe: globalmente, o Benfica jogou mais e ganhou mais e a passagem pelo Sporting e o regresso à Luz não causaram danos estruturais do ponto de vista do estatuto, ou seja, nunca mais foi visto como treinador de clube médio ou pequeno, e a decisão de ganhar dinheiro na Arábia Saudita ou prestígio no Brasil, tornando-se num ídolo no Flamengo, é tão legítima como qualquer outra.
Em segundo lugar, a missão: Jesus chega à Seleção num contexto que já o favoreceu no passado e com curiosas semelhanças com a época 2009/10 – também vem substituir um espanhol (à data, Quique Flores) e tem o dever de pôr a equipa a «jogar o dobro». Só ele poderá responder, no campo e no gabinete, como se pode pôr Portugal a jogar melhor (porque é assim que estará mais perto de ganhar), mas este deve ser o momento (fosse quem fosse o sucessor de Martínez) para voltar às raízes e recordarmo-nos de que os grandes desempenhos da Seleção (2016 foi uma exceção porque aquela geração obrigava a um futebol mais resultadista) tiveram sempre como chão comum a criatividade individual. Já nem vou falar da tradição dos extremos mais clássicos, essa posição em vias de extinção, mas de uma forma ou de outra Portugal tem de voltar a encontrar-se consigo próprio e procurar conforto no seu ADN.
Mas para isso terão de ser feitas escolhas, algumas delas eventualmente duras. Jesus tem sido relativamente bem-sucedido nesta área, mas em contexto de clubes, onde se assume não como um treinador «de estrutura», mas sendo ele «a estrutura». Todos sabemos o que isto significa: nunca permite que a sua autoridade seja posta em causa. Ao assinar pelo menos até 2030, não estamos à espera que seja um período de liderança suave na Cidade do Futebol. Até porque desde que saiu do Benfica em 2015 nunca ficou quatro anos no mesmo sítio.
Eis mais uma novidade para um homem de 71 anos. Que, em boa verdade, só parece tê-los no cartão de cidadão.
ELEVADOR DA BOLA
A subir
Diogo Costa, guarda-redes da Seleção Nacional
Foi o melhor jogador da Seleção no Mundial, o que diz muito de Portugal. Do guardião que errou com Marrocos em 2022 ao dono das redes em 2026 há um mundo a separá-los. Um monstro das balizas.
Estagnado
Cristiano Ronaldo, avançado da Seleção Nacional
Sai do Mundial pela porta pequena porque, tal como se esperava, aos 41 anos não fez a diferença. Mas que não haja confusões: o tempo voltará a lembrar-nos que Ronaldo é uma lenda. Mas de um passado que já não volta.
A descer
Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol
Assumiu, no momento da derrota, que Roberto Martínez não era a sua opção, quando teve tempo para fazê-lo em momento de vitória. Se queria sair por cima no adeus ao Mundial 2026, o tiro saiu ao lado.